Por Jonas Pinheiro

O axé, como a maioria dos ritmos tradicionalmente brasileiros, tem raízes e ancestralidade negra. No entanto, a maioria das cantoras e cantores que obtiveram projeção e ganharam dinheiro com o ritmo, contraditoriamente são brancas e brancos.  Já não é de hoje que Daniela Mercury é questionada por cantar “O canto dessa cidade é meu, a cor dessa cidade sou eu”, e por ter recebido a alcunha de “Rainha do Axé”. A polêmica voltou à tona neste carnaval, tendo em vista que a artista lançou em dezembro passado a música/clipe “Pantera Negra Deusa”.

Na canção, mais uma vez a cantora baiana se apropria da cultura negra para ganhar projeção, em trechos da música Daniela canta: Filho caboclo de mãe baiana/E o Brasil é preto/E o branco é preto (…) O Brasil é preto/É preto, é branco/É negão!. Para além do péssimo gosto dos versos, que reforçam a invisibilização do racismo, já não é mais possível ignorar artistas brancos que se utilizam da cultura negra para chegar ao topo e não compram briga contra toda uma estrutura que faz com que pretas e pretos continuem a viver em condições inferiores, mesmo sendo maioria no país. Ivete Sangalo, que recentemente cantou na festa racista da ex-diretora da Vogue Donata Meirelles e ainda defendeu a socialite, e Claudia Leite são outros exemplos deste fenômeno.

 

Um mês após o lançamento do clipe, as cantoras negras baianas: Larissa Luz, Luedji Luna e Xênia França, durante um show em Salvador, no Festival Sangue Novo, no dia 26 de janeiro, fizeram uma crítica que foi encarada como uma alfinetada à Daniela Mercury. “Está na hora de parar de usar de um discurso que não é seu, para lucrar, está na hora de parar de usar de um lugar de fala que não é seu, para ganhar, porque preto de alma não existe (…) a música preta é nossa”, disparou Larissa Luz. “Wakanda também” completou Luedji Luna. As três formam o projeto AYABASS, que irá se apresentar no Carnaval de Salvador. Larissa negou que a fala havia sido direcionada a Daniela, a artista declarou que se referia a branquitude em geral.

 

O tema apropriação cultural tem estado em evidência, sobretudo porque vivemos um movimento de fortalecimento do potencial comercial da cultura negra, para além da música e da arte. Não se trata de brancos “não poderem” cantar música negra, ou usar turbantes. Trata-se de todo um sistema alicerçado no racismo e no capitalismo que faz com que as pessoas negras sejam marginalizadas dentro da sua própria cultura, enquanto pessoas brancas lucram e colhem os “louros” de uma cultura que não é sua. De acordo com levantamento da coluna Satélite do Correio24horas, Daniela Mercury lidera a lista parcial de artistas mais bem pagos pela Bahiatursa (órgão do governo do estado). A cantora vai receber o cachê R$ 350 mil reais por cada apresentação no Carnaval, que acontecem nos dias 02 e 05 de março, fora as apresentações em blocos privados. Enquanto isso, por mais um ano o afoxé Ilê Ayê (membros do grupo contracenam com a cantora no clipe Pantera Negra Deusa) reclama da falta de patrocinadores. “Estamos com problema para pagar isso (a Noite da Beleza Negra). O Carnaval também. Vamos sair, mas está muito difícil sem patrocínio” declarou Vovô do Ilê, também ao Correio, em 17 de Fevereiro.

Quando se estende a situação para outros blocos afros menos privilegiados como: Malê Debalê, Cortejo Afro, Bankoma, Didá, este último grupo afro feminino que completa 25 anos, os recursos e patrocínios são ainda menores. Neste ano a Secretaria de Cultura do Estado da Bahia (Secult) disponibilizou através do Edital Ouro Negro R$ 5,8 milhões de reais, que contemplou além dos afoxés, qualquer outra manifestação de “matriz africana/indígena”. Ao todo foram financiados mais de 80 grupos, o Ilê Ayê foi o que mais recebeu, R$ 300 mil reais. No inicio de fevereiro, a Associação do Coletivo de Entidades Carnavalescas de Matriz Africana (Acema), chegou a entrar com representação contra o edital pela “excessiva burocratização” presente no documento, o que teria excluído mais de 45 grupos do Carnaval. A entidade fez duras críticas ao governo do estado pela forma que se deu os trâmites do processo.

Das cordas ao Camarote

O Carnaval de Salvador, conhecido também por sua segregação, vem passando por uma reconfiguração. Apesar de neste ano dar sinal de recuperação, os blocos privados nos últimos anos tem perdido força e o número de trios sem cordas, chamados por aqui de Pipoca, têm aumentado de número. O enfraquecimento dos trios com corda vem dando espaço para os camarotes, extremamente caros e que oferecem uma festa a parte para aqueles que não querem pular com a “plebe”, mantendo a estrutura racista que possui a festa. Ainda sobre isto, a polícia mantém sua prática de espancar as pretas e pretos que ousam curtir os trios sem corda.

Esta reflexão sobre apropriação cultural e o Carnaval de Salvador me faz lembrar o Oscar 2019, por mais absurda que pareça a comparação. A premiação de Hollywood nesta edição bateu o recorde de premiações para negros, com 7 estatuetas, e mulheres, 15 estatuetas. Mas também foi a edição que premiou como melhor filme “Green Book: O Guia”, um filme sobre racismo protagonizado e produzido por uma equipe majoritariamente branca. Quem ainda lucra e protagoniza o Carnaval de Salvador é a branquitude. É preciso mais espaço para os artistas e blocos negros, para além de fazer participação em clipe de branca que acha que faz parte de Wakanda.