Por Jonas Pinheiro

Um homem negro aparece cercado por policiais dentro de uma agência bancária Um pouco mais distante engravatado, um branco sem nenhum policial o cercando diz: “Só irei com ele se for algemado. Não faço acordo com esse tipo de gente”. Ao fundo é possível ouvir um choro desesperado de uma adolescente. Abruptamente um policial militar imobiliza o homem negro e aplica-lhe uma gravata, estrangulando-o mesmo este não apresentando nenhuma resistência.

O homem negro no vídeo que circulou nos noticiários e feeds das redes sociais durante toda a semana é Crispim Terral, empresário de 34 anos. Gravado por sua filha, o caso aconteceu no dia 19 de fevereiro na agência da Caixa Econômica Federal no Centro da cidade de Salvador. O ocorrido só ganhou repercussão, porém, na segunda-feira (25), quando o empresário postou em suas redes sociais. Na ocasião Crispim havia esperado por mais de 4 horas por atendimento e foi reclamar com o gerente que chamou a polícia e se recusou a ir para delegacia. Apenas Crispim foi levado.

 

Na semana anterior um vídeo parecido também ganhou repercussão nos noticiários e redes sociais, nele o segurança Davi Ricardo Moreira Amâncio estrangula Pedro Henrique Gonzaga numa das unidades do Supermercado Extra na Barra da Tijuca no Rio de Janeiro. O jovem de 19 anos não teve a mesma ‘sorte’ de Crispim Terra, e foi assassinado ali mesmo, enquanto pessoas filmavam e presenciavam o caso sem interceder. Para quem é negro (a) neste país, o tratamento dos agentes de segurança nos dois casos não impressiona. A política em curso executada pelo estado brasileiro, e reproduzida por empresas privadas, encara o corpo negro como potencial violento, um alvo a ser encarcerado ou abatido.

Os temores de agravamento desta situação, no entanto, vão se confirmando. A plataforma política que levou a eleição de Jair Bolsonaro à presidência tinha como base “jogar duro na questão segurança publica” e o total desprezo pelos direitos humanos. Os dois casos refletem em parte, esse momento político de aumento do conservadorismo e em que o neofascismo saiu do armário. O que anteriormente acontecia aparentemente sem respaldo institucional, neste momento político encontra respaldo não só no presidente eleito, como também em camadas da população que o elegeram.

No dia 19 de Fevereiro o ex-juiz e agora ministro da Justiça, Sergio Moro, foi a Câmara de Deputados entregar o projeto da Lei Anticrime, que é a institucionalização dos assassinatos cometidos pela polícia, a “licença para matar” defendida por Bolsonaro na Campanha. No texto na parte que trata do excludente de ilicitude o ministro propõe que: “O juiz poderá reduzir a pena até a metade ou deixar de aplicá-la se o excesso decorrer de escusável medo, surpresa ou violenta emoção”. O texto ainda veda a prisão de quem comete ato criminoso na situação.

“Eles combinaram de nos matar, nós de resistir

Por outro lado os dois casos deste mês de fevereiro demonstram que em meio a esta conjuntura assombrosa do país, os movimentos negros tem se organizado para resistir. Não há mais espaço para negar o racismo no Brasil. Pelo menos em 10 estados houve protestos e boicote ao Supermercado Extra. Pedro Henrique Gonzaga foi e segue sendo lembrado pelos movimentos.

Em Salvador na tarde da terça-feira (26), um grupo manifestantes protestou na Agência Da Caixa onde Crispim Terra foi alvo de racismo. Ao chegar no protesto, o empresário se emocionou vendo o apoio que recebia de pessoas “desconhecidas”. “A gente fez aquele ato para dizer para seu Crispim, ‘você não está sozinho’. Foi um ato de denúncia”, afirma Dj Branco, um dos mobilizadores do ato organizado pela internet.

 

As mobilizações em torno do caso surtiram efeitos. Os meios de comunicação da Bahia, acostumados a fazerem coro para a ação das polícias nas periferias, classificou o caso como racismo, chegando cobrar posição da polícia e do banco.  A Caixa, após se pronunciar dizendo que não havia identificado por parte de seus funcionários nenhuma atitude discriminatória, voltou atrás e afastou o gerente envolvido no caso.

A Polícia Militar, por outro lado, diz que a atitude dos policiais foi “técnica” e que foi necessário “empregar força desproporcional por Crispim ter se recusado a deixar a agência”. A postura não surpreende, tendo em vista que a PM baiana encontra respaldo no seu governador Rui Costa (PT). A política de Segurança Pública empregada pelo petista se assemelha muito a que defende Bolsonaro, recentemente o governador teceu elogios a Lei Anticrime proposta por Sérgio Moro.

Crispim registrou Boletim de Ocorrência por racismo, e prestou queixa na Corregedoria da Polícia Militar da Bahia por abuso de poder dos agentes envolvidos. Nesta quinta-feira (28), o nome de Crispim Terral foi lembrado pelo grupo Baiana System no tradicional circuito Barra-Ondina, na abertura do carnaval de Salvador. O grupo também entoou os nomes de Marielle Franco e Mestre Moa, assassinados em 2018. Em tempos tão assombrosos, resistir segue sendo a nossa única opção.

 

Ilustração: @crisvector