Por Débora Nask e Marcos Pereira*

A perigosa lógica de vincular o empoderamento negro apenas com a perspectiva estética

O termo empoderamento negro muito difundido nos últimos anos passou a ser e fazer referência a negros e negras, de modo a dar cada vez mais espaço e voz a esses atores do cenário brasileiro, a efervescência dessa utilização tornou crescente e massiva a utilização desse termo e com isso, após algum tempo, surgiu um incômodo quanto ao seu uso, dentro e fora do Movimento Negro que é: a ideia do Empoderamento Negro está ligado única e exclusivamente às questões estéticas?

Para nós, do Pretas Reflexões, esta é uma armadilha da qual nos custa bastante se livrar, pois, a classe dominante elitizada e branca, grupo no qual estão a grande parte dos racistas desta sociedade acham que o nosso ápice e crescimento, enquanto seres humanos, está apenas em termos a “atitude” de demonstrarmos os nossos traços africanos refletidos na estética. A população negra precisa e luta por muito mais: queremos estar em espaços diferentes, de poder e influência econômica e social como na medicina, advocacia, gerência, sendo donos e chefes de grandes organizações, tendo um poder financeiro que garanta tranquilidade e satisfação para poder realizar nossos sonhos e daqueles que desejamos.

Para melhor compreender  a gênese do  Empoderamento Negro explicamos aqui quando e como surgiu esse termo, segundo a Pedagoga e acadêmica Rute Vivian Baquero, o termo passou a ser empregado com mais frequência nos EUA na metade do século XX através dos movimentos emancipatórios, como: movimento negro, movimento feminino, homossexual, etc, com luta em busca do exercício da cidadania e combate às injustiças sociais e opressões, apesar que o termo foi cunhado a muitos séculos atrás, mas não cabe aqui a explanação.

Diversos autores, filósofos, psicólogos e pedagogos conceituam o Empoderamento como as capacidades das pessoas (individualmente ou em grupo) obterem conhecimentos e controle de suas próprias forças para então lutar por uma vida melhor. É a busca por uma autonomia e protagonismo nos processos e desenvolvimento de suas próprias vidas. Empoderar-se diz respeito ao esforço de se livrar das amarras sociais de dominação e opressão.

Deste modo trabalharemos o Empoderamento, aqui sob quatro categorias, quais sejam: Empoderamento Cognitivo, Empoderamento Psicológico, Empoderamento Econômico e Empoderamento Político. Estas categorias foram escritas em um artigo da referida autora, Rute Vivian Baquero no ano de 2006 (Empoderamento: questões conceituais e metodológicas) com base em estudo do Instituto de psicologia da UFRJ.  Um dos títulos do seu artigo é “Processos e Estratégias de Empoderamento”, onde é possível ter o entendimento que o Empoderamento é algo muito mais profundo e estrutural.

Empoderamento cognitivo refere-se à conscientização que o negro tem a respeito do racismo que o afeta, entendendo seus motivos, causas, consequências e como este preconceito racial se desdobra na sociedade. Já o Empoderamento psicológico traz referência à autoestima e autoconfiança da pessoa negra. É a autovalorização da sua cor, cabelo, corpo e história. O Empoderamento econômico está relacionado à importância de o negro ocupar cargos e funções em grandes empresas ou organizações, buscando assim, um destaque, representatividade e uma renda que assegure a sua independência econômica. Enquanto que o Empoderamento político envolve a habilidade que a pessoa negra tem para observar a sociedade que o circunda de forma crítica para assim agir de modo a gerar mudanças.

No que tange ao Empoderamento econômico, quantas mulheres e homens negros estão ocupando cargos de chefias, gerências e lideranças nas empresas do Brasil? Qual é o nível de equidade racial e de gênero dentro dos altos postos de trabalhos?  Ser faxineiro (a), Gari, recepcionista, auxiliar de serviços gerais, etc, são ocupações e trabalhos muito dignos, mas desculpe, a população negra precisa, quer e  deve estar nos altos cargos das empresas e organizações. Precisamos quebrar essa lógica de sermos tradicionalmente colocados em posições de submissão e humilhação, quando olhado por exemplo, para alguns casos das empregadas domésticas do Brasil e outras demais profissões.

Acreditamos que a quebra de paradigmas, estereótipos e crenças negativas que nos colocam enquanto pessoas negras, serão realmente quebradas quando o Empoderamento Negro alcançar estes quatros níveis de Empoderamento. Percebam então que estamos tratando de quebra de estruturas opressoras que historicamente foram nos impostas e que ainda estão muito latentes na nossa sociedade, logo, o alcance até chegar a um Empoderamento Negro observando estas categorias é através de um processo a médio e longo prazo, e uma luta constante contra o racismo institucional. Uma caminhada nada fácil, mas obviamente, muito possível.

Temos como exemplos de pessoas negras que abarcam estas quatros categorias de Empoderamento a chefe do Unicef aqui em Salvador, Helena Oliveira no qual, eu Marcos Pereira, tive a imensa honra de trabalhar ao seu lado e termos algumas conversas que para mim foram extremamente inspiradoras e incentivadoras e que me deram ainda mais forças para a minha caminhada enquanto profissional e ser humano.

Uma mulher negra, altamente politizada e consciente das opressões que a afetam, com extrema sabedoria, habilidade e inteligência para gerar mudanças na sociedade que a circunda de forma estratégica e consciente, e por fim, chefe de uma das agências da Organização Mundial das Nações Unidas, o Unicef Bahia.

Sendo assim, analisamos que boa parte da população negra baiana é empoderada psicologicamente, cognitivamente e politicamente, isto é, se entendem enquanto negros, tem consciência das opressões que os afetam, exaltam a estética e mostram a importância da memória e ancestralidade africana, mas sabemos que existe uma fatia que ainda estar se empoderando apenas esteticamente o que também é importante, sendo porta de entrada para as outras categorias de Empoderamento, mas ainda é preciso que se busque o Empoderamento econômico.

Muito mais do que a demonstração da estética negra, como cabelo Black, dreads, rastafari e turbante conforme demonstrado na categoria Empoderamento Psicológico, o Empoderamento Negro além da observância das quatro categorias trazidas anteriormente, deve ser praticado num sentido de comunidade e união, isto é, o que um negro já Empoderado pode fazer para que seu semelhante venha a se Empoderar também, Ubuntu, eu sou porque nós somos. A partir desta visão é que a comunidade negra pode se fortalecer e gerar contribuições efetivas para as resoluções dos problemas sociais.

 

*Pretas Reflexões é uma marca nova que surge da busca de uma Pedagoga e de um Bacharel em Relações Internacionais de contribuírem com seu povo buscando tratar de temáticas relativas às questões raciais e sociais dentro das plataformas digitais de forma acessível, acadêmica e objetiva. Nos colocamos também como palestrantes e prestadores de consultorias em projetos e negócios sociais para empresas, ONG´S, pessoas e comunidade acadêmica. 
Ilustração: Reg Coimbra