Por Jonas Pinheiro

Tarde de domingo (07/04) no Rio de Janeiro, o segurança e músico negro Evaldo dos Santos Rosa, 51 anos, seguia para um chá de bebê acompanhado de sua esposa, filho de 7 anos, a afilhada e o sogro. Quando passavam por Guadalupe, região da Zona Norte do Rio de Janeiro, o carro da família foi fuzilado com mais de 80 tiros por militares de um jipe do Comando Militar do Leste (CML). Alvejado, Evaldo morreu. Seu sogro, Luciano do Santos Nogueira, 59, ficou ferido e se encontra internado.

No vídeo divulgado nas redes sociais é possível observar o alerta dos vizinhos. “É morador p*rra. É morador c*ralho”. Ainda assim os militares permanecem atirando. Um pedestre que passava pelo local e foi ajudar a família também ficou ferido. Luciana dos Santos Nogueira, esposa de Evaldo, chegou a pedir socorro para os militares que debocharam. “Por que o quartel fez isso? Eu falei para ele: “calma, amor, é o quartel”. Ele só tinha levado um tiro. Vizinhos começaram a socorrer. Mas eles continuaram atirando e vieram com arma em punho. Fui botando a mão na cabeça e gritando: moço socorre meu marido. E eles ficaram de deboche. Eu perdi meu melhor amigo. Estou com ele há 27 anos”, declarou Luciana ao jornal o Globo.

 

O Comando Militar inicialmente negou ter atirado contra a família, e declarou ter respondido a uma “injusta agressão de assaltantes”. Em primeira nota, como de praxe neste tipo de ação, afirmaram que haviam se deparado com um assalto e que os criminosos teriam atirado contra os militares. Só após repercussão o Ministério Público Militar voltou atrás e falou que investigaria o caso. Nesta segunda-feira (08/04) os doze militares presentes na ação, foram presos.

Mais uma família negra destruída pelo estado brasileiro. Das autoridades? Nenhum pronunciamento oficial. O governador do Rio de Janeiro, Wilson Witzel, aquele mesmo que disse que contrataria atiradores de elite para matar na favela, declarou que “não me cabe fazer juízo de valor e nem muito menos tecer qualquer crítica a respeito dos fatos”. Da presidência ou Ministério dos Direitos Humanos nenhuma palavra. Não surpreende. O que esperar de um presidente que tempos atrás defendeu grupos de extermínios, possui ligações “perigosas” com as milícias do Rio de Janeiro e ainda declarou que a polícia deveria matar mais? “Não importa se vai morrer alguns inocentes”, certa feita disse Bolsonaro em entrevista. Nada mais conveniente do que ele não se importar com o que houve no último domingo.

Do ministro da Justiça, Sérgio Moro, aquele que escreve leis se inspirando nos filmes de Hollywood, também nenhuma palavra ou declaração. A resposta do ministro está na sua lei “anti-crime”, que nada mais é que a institucionalização deste tipo de fuzilamento feito pelos militares. De acordo com a lei de Moro, eles poderiam até alegar ‘violenta emoção’ nesta ação em que mais de 80 tiros foram disparados contra uma família inocente.

Verdade seja dita, não é de Bolsonaro que o estado brasileiro mata e fuzila negros nas favelas e periferias brasileiras. Como não lembrar o caso dos cinco jovens também fuzilados em Costa Barros, no Rio de Janeiro em 2015, sob um governo federal considerado progressista. Na ocasião foram 111 tiros contra o carro em que estavam: Roberto, Carlos Eduardo, Cleiton, Wilton e Wesley. Os jovens haviam saído para comemorar o primeiro salário de Roberto, que trabalhava há um mês num supermercado.

O que vivenciamos agora, no entanto, é algo muito próximo da institucionalização e legitimação deste genocídio em curso contra a população negra brasileira. O governo fascista de Bolsonaro abriu espaço para que casos como o de Guadalupe sejam cada vez mais rotineiros. Um dia após o fuzilamento no Rio de Janeiro, em Aracaju (SE), o designer de interiores, Clautênis José dos Santos, 37 anos, negro, foi assassinado pela polícia durante uma abordagem quando voltava para casa num carro de aplicativo. Em março deste ano, 4 dos policiais envolvidos no desaparecimento do pedreiro Amarildo de Souza na Rocinha em 2013, foram absolvidos.

E os casos vão se acumulando e se tornando cada vez mais recorrentes. “Confundem carros, guarda-chuvas, furadeiras, só não confundem a cor”. A violência do Estado, respaldada e incentivada pelo presidente da república e parcela da população, segue fazendo vítimas. Em tempos que se discute a Reforma da Previdência no Congresso, o maior desafio da população negra tem sido manter-se viva. Como bem enfatizou o rapper mineiro Djonga ao comentar o caso do último domingo, “pros preto é 08 ou 80”, ou ainda, 111.