Por Mariana Gomes

O que Brumadinho, o incêndio no Flamengo e a abertura das terras indígenas tem a ver com o estado de nossa democracia? Os três acontecimentos representam o descaso em nossa sociedade de se enfrentar seriamente o racismo para a cura da vida democrática brasileira. Dela que já vem há muito ferida, quando a cidadania de pessoas negras e indígenas é tratada como volátil, mesmo sob uma constituição (ainda) cidadã.

 

Sem terra, sem água

O carnaval nem havia acabado quando fomos ‘presenteados’ com uma tragédia a ser assistida nos próximos anos. O atual ministro de Minas e Energia, o almirante Bento Albuquerque, anunciou na Prospectors and Developers Association of Canada (PDAC), um dos principais eventos globais da mineração, na cidade de Toronto (Canadá), no dia 04 de março, a abertura das terras indígenas para a mineração por empresas estrangeiras. Anestesiados pela festa que move todos os tipos de pessoas e de todos os lugares dos mundos para a folia nas cidades brasileiras, muitos de nós paramos de pular na avenida e fomos discutir o meme presidencial “Golden Shower” enquanto direitos estão sendo saqueados de comunidades tradicionais.

O recente posicionamento do ministro está apenas há um mês distante de um dos maiores acidentes ambientais na história do Brasil: o rompimento da barragem do complexo Mina do Feijão, em Brumadinho (MG), e a consequente poluição do rio Paraopeba. Até hoje, foram constatadas as mortes de cerca de 171 pessoas, numa tragédia que remonta a de Mariana, também em Minas Gerias e provocada pela mesma empresa, a Vale, há três anos.

Mar de rejeitos da barragem da Vale que se rompeu em Brumadinho Foto: Reuters/Adriano Machado

Além das mortes na cidade e da poluição do curso d’água, outro resultado direto é o impedimento à vida da comunidade Pataxó que vive às margens do rio Paraopeba. O povo que nasceu de uma gota d’água, como conta sua tradição, não tem mais ali uma fonte de alimento do corpo físico ou do espiritual.

Isso mostra que a equipe do atual presidente do país está empenhada em concretizar suas palavras: “nenhum centímetro a mais para terras indígenas”. Calcados no racismo e no desprezo às populações nativas, eles caminham rumo a uma ideologia de desenvolvimento que não é mais suficiente para a humanidade.

Sem vida, sem sonhos

Nesses primeiros meses de 2019, vimos ainda o sonho de ascensão social através do esporte ser incendiado por negligências de um dos mais ricos clubes do Brasil. Os 10 adolescentes que foram carbonizados no Centro de Treinamento Ninho do Urubu, pertencente ao Flamengo, eram sobretudo negros e vinham de outros estados para realizar um desejo que é latente na comunidade afro-brasileira desde o início do século 20. O CT funcionava sem certificado de aprovação do Corpo de Bombeiros do Rio de Janeiro e nos trâmites legais, a prefeitura da cidade afirmou que a área atingida estava protocolada como estacionamento desde a última licença em 5 de abril de 2018. Mas como verdadeira herança colonial, a estrutura irregular do “puxadinho dos meninos” era oferecido pela diretoria como o suficiente para sua profissionalização.

Incêndio atingiu alojamento do CT do Flamengo matando 10 adolescentes das categorias de base do clube Foto: FÁBIO MOTTA/ESTADÃO CONTEÚDO

A torcida que a partir de 1969 tomou a ofensa racista de “urubu”, vinda de outros clubes, como forma de resistência, se depara mais uma vez com o lado obscuro do futebol enquanto produto de entretenimento. Concordando com as heranças escravistas deste país, as pessoas negras que estão nessa indústria são toleradas enquanto seus corpos funcionam para fazer gols e atrair investimentos para a lógica de capitalização desses clubes. Lógica essa que também permeou, às vésperas do carnaval baiano, a festa de aniversário de Donatta Meirelles, ex-diretora de estilo da revista Vogue, meio de comunicação de moda conhecido por suas investidas racistas.

Esse é o mesmo sistema que causou a morte de Pedro Gonzaga, assassinado no dia 14 de fevereiro deste ano, numa das instalações da rede de supermercados Extra, na cidade do Rio de Janeiro. Como se não bastasse, ele foi colocado contra à parede sobre sua moralidade nas mídias sociais digitais, assim como muitos jovens negros quando assassinados. Questiono: Aonde está a moralidade de um ser humano que tem sua cidadania e vida retiradas ao bel prazer do racismo? Como já cantou a banda Aláfia “pra nós pesadelo. Pra eles notícia, mais um que foi riscado pela polícia”.

E aqui outras perguntas: O que importa é a vida ou a morte dos negros? É a vida ou a morte dos indígenas? Focar na morte é privilegiar os corpos dessas pessoas segundo a lógica de exploração capitalista e racista que funda o Brasil e desprezar a subjetividade dos grupos e indivíduos afetados. Afinal, genocídio não é escrito somente com tiro ao alvo, mas também com o apagamento de culturas e a negação da importância civilizatória que comunidades tradicionais, dos campos e das cidades, têm para a construção de um país. Tampouco serão os argumentos bambos de inclusão, tolerância e diversidade os suficientes para a reconstituição de nossa democracia. Estar nos quadros de jogadores de futebol ou em editorias de moda por estar não inviabiliza de todo o racismo que estrutura essas e outras veias do entretenimento.

Enquanto essa opressão, em seus caminhos ambientais, institucionais e recreativos, não for encarada como uma das problemáticas chaves para o momento que nossa democracia vive, indivíduos continuarão sendo mutilados em suas identidades e grupos a serem extintos. Só restarão os confetes enlameados de um país gigante pela própria natureza e democrático.