Quero conversar com vocês o que já venho falando, há algum tempo, com amigas naqueles momentos do tipo ‘fala que eu escuto’ que chamo de difícil saída do pré primário sobre questões raciais.

Então, com alguma frequência sou convidada ou convocada para falar sobre racismo e educação, racismo e mídia, racismo e mulher negra, racismo e religiosidade, Políticas de Ações Afirmativas, principalmente.

Quando o público é, na sua maioria, formado por pessoas negras, quase sempre, ao final da conversa me sinto revigorada, confiante de ter e estar cumprindo com o meu papel. Mas quando a plateia é, majoritariamente, pessoas não negras, e que chamo de encontros imprevisíveis, quase sempre saio arrasada e preocupada. Sabem porquê?

Nesse meu longo tempo como ativista e de leituras sobre a questão racial sempre me fizeram refletir e muito sobre mil coisas, até pensar em como teria sido a minha vida em um mundo sem exclusões de raça e gênero, por exemplo. O que estaria eu fazendo ou feito se não existisse o racismo, o sexismo, por exemplo?

Mas voltando. A cada convite, seja o público que for, eu me preparo para a atividade, do mesmo jeito: monto apresentações, muitas em power-point, seleciono livros, revejo algumas citações, atualizo dados, fotografias etc, coloco o meu mais novo modelito em tecido africano e lá vou eu, toda me bolindo.

É óbvio que cada encontro é único. Mas todos são marcados por muitas emoções que me fazem ficar, as vezes, sob controle, tensão, mudar o tom de voz, os gestos, os olhares. Ai mal termino de fazer a falação uma cara pálida da plateia levanta a mão e faz a pergunta ‘bombástica’: “A senhora acredita que existe racismo no Brasil?”  Porra!!! Acabei de falar a partir da existência do racismo, no mal que ele provoca em suas vítimas ou algozes e a pessoa vem e me faz essa pergunta?

Nesses encontros imprevisíveis, quando a conversa é sobre cotas, quase sempre termina em um desastre. Já fui convidada por direções de escolas de classe média alta de vários cantos do país e, mesmo depois de afirmar que cotas é um mecanismo das Políticas de Ações Afirmativas que vem mudando o perfil dos\as universitários\as ; que os dados oficiais do país há 20 anos informavam que o acesso de negro\as ao ensino superior não passava de 3%, que dados oficiais dessa nova realidade, extraídos de turmas de cotistas já formados mostram um desempenho (meritocracia) melhor dos cotistas em relação aos não cotistas, ninguém me pergunta porquê do desempenho abaixo da expectativa dos não cotistas. Mas me perguntam sobre a legalidade das Políticas Afirmativas!!

Muita gente ainda hoje, 2017, não consegue entender que cotas não é uma proposta inconstitucional ou igual a que vivíamos no Brasil e que excluía os\as negros\as do ensino superior. Cotas é uma proposta voltada para equiparar grupos historicamente excluídos do acesso à educação, principalmente de 3º grau, saúde, serviços públicos etc. Mas tem muita gente que ainda resiste sair do seu lugar de privilégio e, por isso, não ve a necessidade das cotas, a quantidade de pessoas negras que já morreram no país por anemia falciforme, uma doença que pode ser detectada no teste do pezinho!! Ou seja, uma parte da sociedade brasileira continua cega aos problemas raciais, por opção.

Mas a situação não para só na dúvida “A senhora acredita que existe racismo no Brasil?” Quase sempre ela é seguida por outras do mesmo quinhão. Ai eu vou a nocaute! Porra! Eu me preparo, me proponho a um debate propositivo, que não perde de vista as políticas públicas, o enfrentamento do racismo e do sexismo, do racismo institucional, que seduza mulheres negras, de todas as gerações, a segurar o bastão dos feminismos negros; que estimule a democratização da mídia, que coloque em pratica uma educação que contemple a diversidade na sala de aula e por ai vai, e nem sempre sou ouvida.

Parece que eu não posso almejar a saída do ensino pré primário sobre o racismo e sexismo, nem sugerir que outras pessoas também passem no teste.  Parece (?) que estou interditada para propor saídas para a ainda realidade de negação do direito de ser mulher negra. Como em um jogo paranoico, me sinto perseguida por uma discussão infantil sobre o racismo que não me deixa mostrar avanços e descobertas, individuais e coletivos.

Quando o tema é sobre feminismos negros e a plateia é mista, trato de algumas questões, algumas básicas e elementares que fortaleceram nossas ações, uma delas foi a resistência do movimento feminista hegemônico, formado por mulheres brancas de classe média, em aceitar nossos pontos de vistas e de luta. Imagino o quanto deve ser difícil sair de um local de conforto e perceber que sua ascensão, como intelectual ou trabalhadora, se deu graças a presença, em sua casa, de uma trabalhadora doméstica, quase sempre negra e com baixa escolaridade, que dormia na residência da patroa em quartos que provam o racismo na área da arquitetura, pois quem mais se não ele, o racismo, conseguiria profissionais para construir quartos para empregadas tão pequenos, mas tão pequenos que mal cabem uma cama e um minúsculo armário?

Diante dessas dificuldades de compreensão dos nossos discursos e narrativas, nem sempre consigo conversar, debater a partir de questões mais complexas, sobre o que Narcisaria Luz propõe como “da porteira pra dentro, da porteira pra fora”, ou Patrícia Hill Collins sobre outsider within, Lélia Gonzalez, sobre amefricanizar, ou Kemberle Crenshaw, sobre intersecção. É claro que existem situações de exceção. Mas hoje, agora, aqui o papo é da linha ‘falo que eu te escuto’. É desabafo. É do que ocorre nos encontros imprevisíveis.

Então, nesses encontros me bate um certo desespero. Meu Deus! Quem vai, de fato, nos escutar e se aliar a nossa luta? Essa dificuldade de diálogo me faz sair desses embates como dizia meu pai Vicente, com um ‘zero à esquerda’, pensando nas crianças que são alunas ou filhas dessas pessoas, dos adultos que essas crianças se tornarão e, assim, sucessivamente. Mas apesar de tudo, o desanimo tem que subir. Daqui a pouco novo encontro.

Prá terminar, uma pergunta: ” A senhora acredita que existe racismo no Brasil?” Acreditam, não é tarefa fácil sair do ensino pré primário sobre questões raciais.  Enfim… a luta continua!

Ceres Santos

Jornalista e doutoranda do Dinter (USP/UNEB). Atuou no CEAFRO, programa do Centro de Estudos Afro-Orientais da Universidade Federal da Bahia (UFBA), como coordenadora e assessora de Comunicação. É docente na UNEB e pesquisa sobre Ações Afirmativas, racismo, sexismo, Educom, feminismos negros e apropriação das TIC pelas mulheres negras.

Mais de Ceres Santos

Nenhum resultado encontrado

A página que você solicitou não foi encontrada. Tente refinar sua pesquisa, ou use a navegação acima para localizar a postagem.