A trabalhadora teve a poupança roubada pela filha dos patrões, identificada como Cristiane em uma carta divulgada pela vítima 

Da Redação

Imagem: Reprodução

“Considerava como uma irmã”, foi a justificativa de Sônia Seixas, ex-patroa de Madalena Santiago da Silva, mantida em situação análoga à escravidão por 54 anos. Segundo a auditora fiscal do trabalho, Liane Durão, a declaração foi dada em depoimento ao Ministério Público do Trabalho (MPT0 no final de março de 2022.

A Justiça do Trabalho ordenou o bloqueio dos bens da família acusada de manter a trabalhadora em situação análoga à escravidão, na Cidade de Lauro de Freitas, região metropolitana de Salvador. Segundo o MPT, o bloqueio foi realizado para assegurar os pagamentos dos danos morais e verbas rescisórias, além de garantir o pagamento de um salário mínimo para Madalena, enquanto durar o trâmite da ação principal na Justiça do Trabalho.

Dona Madalena, de 62 anos, foi levada para trabalhar na família Leal aos 8 anos de idade. Durante esse período ela nunca recebeu salários, sofreu com cárcere privado, violência psicológica,  maus tratos e violação financeira. A trabalhadora   foi resgatada pelos auditores-fiscais do trabalho do Ministério do Trabalho e Previdência (MTP).

O caso começou a ser investigado pelo MPT após denúncia da vítima, tendo em abril deste ano uma ação cautelar aberta.

O ex-patrão enviou uma carta para filha, onde cita uma das violações sofridas por Madalena

Madalena apresentou uma carta deixada pelos ex- patrões,  assinada por Carlos Leal e Sônia Seixas Leal, endereçada à filha do casal, identificada como Cristiane Leal. O então patrão já falecido, revelou que a filha teria roubado a poupança com a quantia de R$ 20 mil, que era destinada a aposentadoria da trabalhadora. Até então, Madalena prestava serviço à família por mais de 50 anos:

“Você subtraiu todas as cadernetas de poupança de sua mãe e de Madalena. Esta foi como os meus antepassados diziam, era e sempre foi chamada “mãe preta” que lhe embalou no colo, assim como vem fazendo a sua filha. Serviu a você como uma escrava, fazendo todas as suas vontades”, diz o ex-patrão.

A filha do casal  teria roubado os dados de Madalena para fazer empréstimos: “Não satisfeita no seu instinto perverso, ainda teve a crueldade de consignar empréstimos na sua aposentadoria que variam de 48,60 a 70 meses. Doloroso!”, declaração de um trecho da carta.

O caso ganhou repercussão após reportagem feita pela TV Bahia viralizar nas redes sociais, onde dona Madalena, chorou no momento em que a repórter Adriana Oliveira, uma mulher branca, tentou pegar sua mão: “Fico com receio de pegar na sua mão branca”.

Resgate de domésticas em situação análoga a escravidão aumenta no Brasil

O número de pessoas resgatadas do trabalho escravo doméstico aumentou 1.350% em cinco anos no Brasil. As informações foram divulgadas pelo Ministério do Trabalho e Previdência, com dados da Divisão para Erradicação do Trabalho Escravo (Detrae). Entre os anos de 2017 e 2018, foram realizados dois resgates de escravizados no setor doméstico. Em 2019, o número saltou para quatro. Em 2020, diminuiu para três. Porém em 2021 os resgates chegaram a 27 trabalhadoras.

Em 2020 o caso de outra Madalena, essa Madalena Gordiano, resgatada após 38 anos de trabalho em condições semelhantes a escravidão, chamou atenção do país. Auditores fiscais do Trabalho e agentes da Polícia Federal libertaram a funcionária doméstica, aos 46 anos, em Patos de Minas (MG), após uma investigação do Ministério Público do Trabalho (MPT). Aos 8 anos de idade, Madalena bateu à porta de uma casa para pedir comida quando a professora Maria das Graças Milagres, dona da residência, ofereceu-se para adotá-la, o que nunca aconteceu. Madalena foi retirada da escola e desde então trabalhava, e vivia, em condições desumanas.

As denúncias partiram após suspeitas dos vizinhos que desconfiaram dos bilhetes com pedidos de dinheiro para compra de materiais de higiene pessoal deixados por Madalena. Sem nunca ter recebido salário, férias e direitos trabalhistas, as investigações do MPT apontaram que a doméstica sofreu abusos, maus-tratos, humilhações e agressões. Ainda segundo as investigações, Madalena Gordiano casou-se com Marino Lopes da Costa, em 2001, quando o ex-combatente de guerra tinha 78 anos. Dois anos depois o cônjuge faleceu deixando uma pensão que Madalena nunca administrou, que ficava sob controle de Maria das Graças Milagres Rigueira e o filho, Dalton César Milagres Rigueira.

Após um acordo na Justiça do Trabalho em 2021, Madalena Gordiano foi indenizada com o imóvel, um veículo e uma quantia de R$20 mil pelos antigos patrões. Valor total avaliado em pouco mais de R$600 mil.