Por Patrícia Rosa / Imagem: Foto: Roberta Aline

Os estudantes brasileiros estão às vésperas do Exame Nacional do Ensino Médio (Enem) e vivem as expectativas, dúvidas e dificuldades, ainda mais complexas e desiguais com a alta no número dos casos da pandemia de coronavírus. Os candidatos acompanham com incerteza a decisão da data de aplicação das provas, marcadas para os dias 17 e 24 de janeiro.

De acordo com o Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira (Inep), as cidades que considerarem a realização do Enem perigosa no contexto da pandemia de Covid-19, terão uma data especial para fazer a prova.

No estado do Amazonas, a Justiça Federal suspendeu a realização do Exame Nacional do Ensino Médio (Enem) 2020, enquanto durar o estado de calamidade pública, decretado devido ao alto número de casos da Covid-19. A Secretaria de Educação do Estado da Bahia (SEC) fez um novo pedido de adiamento do Enem ao Inep, na última quarta-feira (13). Na rede estadual de ensino, cerca de 67 mil estudantes se inscreveram para prova.

Em um ano que explicitou ainda mais a desigualdade da educação brasileira e a vulnerabilidade vivida por alunos da rede pública, alguns deles torcem pelo adiamento da grande prova. É o caso de Poliana Santos, de 17 anos, estudante do 3º ano do Colégio Estadual Professor Rômulo Almeida, de Salvador (BA). A jovem participou da enquete, que questionou dos inscritos a melhor data de realização do exame, realizado pelo MEC no mês de maio do ano passado. Poliana optou por realizar a prova em março, data que se sentiria mais segura. Poliana é moradora do bairro da Boca do Rio, em Salvador a adolescente almeja cursar gastronomia. Mas além de uma vaga na Universidade, para ela o exame terá outro objetivo. Na Bahia, este ano os estudantes poderão utilizar as notas do Enem e do Exame Nacional para Certificação de Competências de Jovens e Adultos (ENCCEJA), para conclusão do ensino médio. A adolescente fará a prova pela primeira vez e sente a dificuldade de realizar a prova após praticamente um ano sem aulas. “Essa é a minha primeira vez na prova e o colégio seria a minha base, eu também trabalho e foi muito complicado conciliar, estudando em casa, eu só tenho tempo aos fins de semana. Eu preciso da nota Enem para pedir o certificado de conclusão no Colégio”, diz a estudante. Poliana estudou em um cursinho popular, o Universidade para Todos-UPT, o que tem ajudado no acompanhamento para o exame.

Com a falta de aulas nas escolas, cursos populares, que preparam jovens de baixa renda,  trabalham como pontes de resistência. Como é o caso do Quilombo Educacional Vilma Reis, que tem incentivado os alunos a seguirem estudando, mesmo com toda as dificuldades do cenário atual. Wesley Conceição, um dos coordenadores do curso, explica que, mesmo entendendo que a manutenção das datas das provas é uma “atitude desleal” do atual governo, evidenciando ainda mais as desigualdades, o quilombo não deixou de incentivar os alunos.

“O que fizemos a todo momento foi dar apoio aos nossos estudantes, tentando   impedir que eles desistam da prova. Mostrando que a aprovação ou não no Exame seria apenas um resultado e que isso não definiria definitivamente a vida deles”, conta. 

Adaptados ao modelo presencial, as aulas em novo formato também foram um dos desafios encarados pelo quilombo educacional, afirma Conceição. “Esse formato de aula online foi um grande desafio, tanto para as/os decentes, como para as/os estudantes. As dificuldades foram muitas, desde falta de expertise para lecionar online, até falta de condições matérias de estudantes, como acesso a internet de qualidade e ausência de computador ou celular.

Com o passar dos meses o quilombo teve uma alta evasão das aulas online, de acordo com Wesley, dos 60 matriculados no início de 2020, apenas 8 alunos finalizaram o ano com participação nas aulas. Uma dessas estudantes é a Rafaela Sá, de 19 anos, que cursa o quarto ano técnico do Centro Estadual De Educação Profissional Luiz Pinto De Carvalho. 

”Eu estava convicta de que eu passaria o ano todo estudando, e realmente ele começou assim, os primeiro meses foram incríveis, todo aquele desejo de estudar, me matriculei em um curso, mesmo com o dia cheio de colégio, trabalho e mais aulas a noite. Com a pandemia, eu  não consegui me manter firme nas aulas, até que chegou ao ponto de eu decidir que não estudaria esse ano para o Enem. O curso continuou em formato EAD, eles se desdobraram para manter as aulas” diz a candidata.

A jovem, que é moradora do bairro da Fazenda Grande de Retiro, em Salvador, realizará o exame esse final de semana, mas não esconde a insegurança. “Por mim seria melhor fazer em março, por conta da pandemia mesmo, questões de segurança e de todos(as) os outros(as) que não tiveram o privilégio de estudar e o acesso aos estudos, sabemos que já é uma prova desigual, mas esse ano seria muito pior”, diz Rafaela.

Caso ocorra, este ano os portões de acesso aos locais de prova serão abertos meia hora mais cedo, às 11h30(horário de Brasília). De acordo com o órgão realizador a medida busca evitar aglomerações na entrada das escolas.