Por Lecco França*

Imagem: Getty Images

A discussão e reivindicação por representatividade étnico-racial em premiações de cinema, nacionais e internacionais, têm se fortalecido, nos últimos anos, diante do recorrente contexto de extrema desigualdade que ainda se configura. Segundo dados do boletim do Grupo de Estudos Multidisciplinar da Ação Afirmativa (Gemaa), do Rio de Janeiro (número 5, de 2018), que analisou a composição de curadoria e júri, através das variáveis raça e gênero, em 19 festivais e mostras de cinema que aconteceram no Brasil em 2017, a maioria das pessoas na posição “júri” foi de mulheres brancas (45,1%) e homens brancos (44,4%). Pessoas pretas e pardas representaram apenas 10,8% nessa categoria. Inclusive, festivais de cinema tradicionais aqui no país, como o de Gramado, já sofreram duras críticas em relação à falta de diversidade étnico-racial, tanto no júri, quanto nas indicações e nos premiados.

Já nos Estados Unidos, duas importantes premiações também entraram no alvo recente das cobranças por representatividade. Após 85 anos de existência, apenas em 2014, a Academia de Artes e Ciências Cinematográficas de Hollywood entregou, pela primeira vez, o Oscar de Melhor Filme para um cineasta negro: Steve McQueen, diretor de 12 anos de escravidão. Antes disso, pouquíssimos profissionais negros haviam sido indicados em alguma categoria desse evento (126 no total, até 2016, segundo o site Termômetro Oscar) ou chegaram a receber algum prêmio (31 premiados ao todo, até 2015). Essa edição de 2014 foi significativa, nesse quesito, porque o mesmo filme resultou também na premiação de John Ridley, na categoria Melhor Roteiro Adaptado, o segundo roteirista negro premiado na história do Oscar, e da atriz Lupita Nyong’o, que recebeu o prêmio de Melhor Atriz Coadjuvante, a sexta atriz negra a ser premiada na categoria.

Entretanto, dois anos depois, em 2016, após a Academia apresentar os indicados daquela edição, sendo que nenhum deles era negro, a hashtag #OscarSoWhite começou a circular na internet e ocorreu uma grande mobilização, a ponto de o cineasta Spike Lee e a atriz Jada Pinket Smith se pronunciarem a respeito afirmando que causariam boicote à cerimônia do Oscar. Depois disso, a organização do prêmio prometeu incluir novos membros no júri, oriundos de diferentes países, com idades e etnias variadas, até 2020.

O Globo de Ouro também vem sofrendo inúmeras críticas pela falta de diversidade dos vencedores e dos próprios membros da associação responsável pelo prêmio (nenhum de seus 87 membros votantes, por exemplo, é negro), além de várias acusações de corrupção.  Criado em 1944 pela Associação de Imprensa Estrangeira de Hollywood, ele já foi considerado um dos eventos mais prestigiados da indústria audiovisual e, como antecede o Oscar, até já serviu de termômetro para a premiação da Academia.

Analisando a relação de premiados em suas principais categorias, Melhor Filme, Melhor Direção, Melhor Ator e Melhor Atriz (Drama), pode-se verificar o quão gritante é essa falta de representatividade. Apenas em 2014 e 2017, dois filmes dirigidos por cineastas negros receberam o prêmio de Melhor Filme: 12 de anos de escravidão, dirigido por Steve McQueen, em 2014, e Moonlight, dirigido por Barry Jenkins, em 2017. Em 2019, três filmes dirigidos por cineastas negros chegaram a ser indicados na categoria, Pantera negra (direção de Ryan Coogler), Infiltrado na Klan (direção de Spike Lee) e Se a rua Beale falasse (direção de Barry Jenkins), mas todos os três perderam para Bohemian Rhapsody, vencedor daquela edição.

Na categoria Melhor Diretor, em 2013, Steve McQueen foi o único negro indicado, por 12 anos de escravidão, mas perdeu para Alfonso Cuarón, diretor de Gravidade. No ano seguinte, em 2014, Ava DuVernay foi indicada por Selma, mas perdeu para Richard Linklater, diretor de Boyhood. Dois anos depois, em 2016, Barry Jenkins foi indicado por Moonlight, mas perdeu para Damien Chazelle, diretor de La La Land. Em 2018, Spike Lee chegou a ser indicado, mas perdeu para Alfonso Cuarón, diretor de Roma. Já em 2021, Regina King foi indicada por Uma noite em Miami, mas perdeu para Chloé Zhao, diretora de Nomadland. Não é estranho que grandes produções dirigidas por cineastas negros, que tiveram expressivo reconhecimento da crítica especializada e do público, não tenham recebido um prêmio nessas edições todas?

Na categoria Melhor Ator Drama, até agora, três atores negros foram premiados: Denzel Washington, em 1999, com o personagem Rubin ‘Hurricane’ Carter, no filme The hurricane; Forest Whitaker venceu o prêmio com o personagem Idi Amin de O último rei da Escócia, em 2006, e Chadwick Boseman, com o personagem Levee Green, do filme A voz suprema do blues, em 2021. Na edição de 2001, dois atores negros chegaram a ser indicados nessa mesma categoria, Will Smith, pelo papel de Muhammad Ali, no filme Ali; e Denzel Washington, pelo Detetive Alonzo Harris, em Dia de treinamento, mas ambos perderam para Russell Crowe, no filme Uma mente brilhante.

Já na categoria Melhor Atriz Drama, apenas duas mulheres negras foram premiadas desde a criação do festival: Whoopi Goldberg, pela personagem Celie Johnson, no filme A cor púrpura, em 1985; e Andra Day, pela personagem Billie Holiday, no filme Estados Unidos vs. Billie Holiday, em 2021. Aliás, essa última edição foi a mais representativa desde então. Além de Chadwick Boseman e Andra Day, Daniel Kaluuya recebeu o prêmio de Melhor Ator Coadjuvante, pelo filme Judas e o messias negro, e o filme Soul, dirigido por Pete Docter e Kemp Powers, recebeu o de Melhor Animação e o de Melhor Trilha Sonora, produzida por Trent Reznor, Atticus Ross e Jon Batiste, o que, evidentemente, não apaga todas as injustiças que muitos desses profissionais negros já sofreram nessa premiação, assim como não ameniza todo o histórico de segregação racial que marca o evento, a ponto de ele, provavelmente, como vem sendo especulado, ser cancelado em 2022, caso mudanças drásticas não ocorram para sanar esse e outros problemas.

 

*Professor universitário, pesquisador, escritor, cineclubista, curador e crítico de cinema. Membro da Associação de Profissionais do Audiovisual Negro (APAN). E-mail: leccofranca@gmail.com.