Wanessa Yano é a responsável pela primeira tradução da obra para o nosso idioma

Por Andressa Franco*

Com lançamento exclusivo pela Editora Ananse, a obra de Clenora Hudson-Weems, Mulherismo Africana, chega ao Brasil na próxima terça-feira (10). Traduzido por Wanessa Yano, 29, é a primeira vez que o material, originalmente publicado em 1993, ganha edição em português, e pode ser comprado através das redes sociais e site da Editora Ananse.

Atuando na área de Marketing e Comunicação, Wanessa Yano é cofundadora da Ananse, uma editora paulistana. Segundo ela, a tradução do material é um marco importante para pesquisadores e estudantes em estudos sobre mulheres e gênero, estudos africanos, afro-americanos, literários e estudos culturais – que poderão acessar mais facilmente essas leituras.

A coleção brasileira da obra clássica de Hudson estabelece, de acordo com a Editora, é um paradigma para as mulheres de ascendência africana analisando a situação, as lutas e as vivências das mulheres africanas forçadas ao isolamento na Europa, América Latina, Estados Unidos ou em África.

A Afirmativa conversou com a responsável pela tradução, Wanessa Yano, sobre as origens do Mulherismo Africana, suas divergências em relação às diversas vertentes feministas, a visão desta corrente política-teórica com a ancestralidade e o trabalho da autora Clenora Hudson, que cunhou o termo e escreveu vários livros sobre o conceito.

 

 

Andressa Franco: O que é Mulherismo Africana e como ele surgiu?

Wanessa Yano: O mulherismo africana é um paradigma pensado pela doutora Clenora Hudson-Weems, na década de 80, pensado para todas as mulheres de ascendência africana no mundo, por isso que chama mulherismo africanA. O ‘africana’ é uma terminologia que coloca as mulheres, homens e crianças descendentes de africanos como um total, seja no continente africano quanto na diáspora, e o ‘africana’ é uma terminologia que reivindica o latim trazido pelos mouros ao mundo a partir da expansão. O mulherismo africana tem essa necessidade do surgimento como uma contra proposta de ajudar a comunidade africana no mundo a se restabelecer a partir dar suas próprias experiências. Então a doutora Clenora Hudson vai estudar as mulheres africanas no mundo entendendo as suas práticas para manter a sua comunidade unida. E a partir disso ela começa a mapear aspectos dessa mulher africana no mundo a partir do seu ativismo e ela cunha o mulherismo africana, que na verdade não é uma teoria que não é prática, ela é muito mais prática do que teórica de fato. Então é uma contra proposta ao feminismo, pois ela vai identificar que o feminismo na verdade tem um posicionamento voltado para pensar a mulher sem a ação da sua comunidade como um todo. Além disso, reivindicar a humanidade dessas mulheres africanas que foram desmanchadas pelo processo de escravização no mundo.

 

AF: Partindo dessa ideia da prática e do papel da Clenora Hudson-Weems ao cunhar esse termo, quais avanços são visíveis graças ao movimento?

WY: A gente consegue entender a participação e a importâncias dos homens africanas na construção da raça. Então, para o mulherismo africana, a raça vem em primeiro lugar. A gente consegue também entender a humanidade das crianças, hoje, por exemplo, falando de território Brasil, quando a gente fala do processo de genocídio e quando a gente vê crianças pretas sendo mortas, a gente consegue entender esse princípio a partir do mulherismo africana, que o processo de escravização no mundo fez com que a família africana, independente de como ela é constituída, fosse dizimada. E isso inclui homens, mulheres, crianças, velhos e toda a sua participação como construção da raça. Um avanço visível é como a gente consegue entender hoje o encarceramento em massa e o processo de escravização a partir dele e como isso é consolidado dentro dos homens africana. Entender essa humanidade, entender as violências que homem vai sofrer na sociedade ocidental, é um pensamento mulherista africana, que vai ter como princípio como as famílias africanas eram estruturadas a partir do período de escravidão no mundo. Quando a gente olha para o mulherismo africana, ele vai dizer que no processo de escravização no mundo de pessoas africana, a família se mantinha unida para manter a sua humanidade, não havia processos superiores entre os gêneros, porque o princípio era manter a sua vida e a sua humanidade.

 

“O mulherismo africana não anula o machismo, o sexismo e a questão de classe, ele só traz todas essas questão para dentro da comunidade para ser debatida como um todo”.

 

AF: Além dessa questão da teoria e prática, como esse movimento se diferencia do feminismo negro? E quanto às semelhanças?

WY: Na verdade não existem semelhanças entre o mulherismo africana e o feminismo mainstream, que é pensado pelas mulheres brancas no ocidente, o feminismo negro e o feminismo africano, eles não têm nenhuma semelhança em sua estrutura. Eles acabam se diferenciando porque o mulherismo africana entende a raça como um princípio, além disso, o matriarcado também, onde a estrutura do matriarcado é pensar os gêneros de formas igualitárias, como uma grande comunidade. O mulherismo africana entende todos os processos colonialistas que ocorreram também dentro da raça africana no ocidente, incluindo a participação dos seus homens dentro desta luta de libertação pela população africana no mundo. O nome “mulherismo africana” vem de “mulher”, dando à mulher africana a sua existência também como mulher, pensando também no discurso de Sojourner Truth, que fala “e eu não sou uma mulher?”, então a terminologia mulherista africana diz: sim, você também é uma mulher. Diferente da terminologia do feminismo, que vem de “femme”, que é “fêmea”, e que não inclui os homens como participantes da sua luta pela emancipação dos seus direitos.

 

AF: Por conta desse posicionamento, alguns grupos de feminismo negro veem no mulherismo africana uma forma de não responsabilizar o machismo internalizado pelos homens negros. Como responder a essa crítica?

WY: O mulherismo africana é pensado através do gênero, então ele é pensado para mulheres africanas no mundo em construção da sua família. O mulherismo africana entende os processos do colonialismo sobre o homem africana e trazendo esse homem africana e a humanidade dele para assumir as suas responsabilidades perante a comunidade. E a partir disso, por exemplo, a Clenora Hudson vai dizer que desde o processo da escravidão os homens e as mulheres africanas lutaram pela sua sobrevivência sem entender esse processo aplicado pelo colonialismo e como isso foi se dando ao longo do tempo. Ela traz isso também como menção ao livro da Ângela Davis “Mulheres, Raça e Classe”, em que a Ângela Davis fala que os homens e as mulheres no período da escravidão eram igualitários e ao longo do desenvolvimento desse processo colonial os homens sofreram essa colonização e fazem a repetição do mesmo. Entretanto, a gente precisa colocá-los à sua responsabilidade perante a comunidade, perante o seu desenvolvimento quanto à família numa posição de paz, de portadores de uma cultura, para que eles possam então entender os aspectos da colonização. E entender também que estes homens são passíveis de arrependimento, são possíveis de se transformar, uma vez que isso é entender a humanidade destes homens.

Se a gente exclui esses homens, a gente parte do mesmo princípio do pensamento ocidental de que esses homens não têm recuperação e aí a gente parte também pensando no processo de encarceramento em massa onde a população preta não tem recuperação e precisa ser animalizada. Entendendo também que o continente africano sofreu colonização e que esses homens também passaram por esse processo de colonização dentro do continente e que muitos valores foram impostos a partir do processo tanto da escravização ocidental como os processos também do islamismo nessas comunidades e como esses princípios dentro desses homens são reproduzidos aqui em suas diásporas. Não é eximindo o homem, é trazendo ele para assumir as suas responsabilidades perante a sua comunidade. Eu brinco muito que “roupa suja a gente lava em casa”, então Clenora Hudson, em outras palavras, diz assim “os assuntos da comunidade africana serão resolvidos pela comunidade africana a partir da sua recuperação como uma raça”.

 

AF: Podemos dizer que no mulherismo africana temos espaço tanto para dialogar sobre questões de gênero especificamente como as que assolam as mulheres, por exemplo, o assédio, o estupro e outras violências, e ao mesmo tempo focar nos problemas que afetam toda a raça, toda a comunidade, como o encarceramento em massa que você mencionou. Correto?

WY: É exatamente isso. O mulherismo africana tem um espaço para os assuntos voltados às mulheres e os assuntos voltados para a comunidade. No processo da apresentação do mulherismo africana, ele foi apresentado como uma contra proposta apenas ao feminismo, sem ter a explanação dos seus significados, da sua estrutura, pela falta de diálogo com a criadora, pela falta de diálogo até mesmo pela questão linguística. Então a gente foca muito o mulherismo africana como uma contra partida afrontosa ao feminismo em todas as suas vertentes, incluindo o mulherismo pensado pela Alice Walker. Mas o mulherismo africana foi estudado pela construção da comunidade africana no mundo, analisando o modo de vida dessas pessoas. A questão de a gente entender o mulherismo africana aqui é que ele é um paradigma prático, a prática vem e aí então ele é teorizado observando a prática dessas mulheres para com a sua comunidade num princípio de restabelecer a sua comunidade. Incluindo também o homem africana e não o excluindo, como em outros processos, por isso que Clenora Hudson vai falar muito sobre a questão da agenda, porque a agenda vai sempre excluir este homem e sua humanidade, o mulherismo africana vai explicar porque uma mãe africana não desiste do seu filho e da recuperação do seu filho, trazendo a humanidade e a crença desta mãe de não abandonar seu filho mesmo que ele tenha errado perante a sociedade ocidental. Às vezes as mulheres falam que o mulherismo africana passa pano para o homem, mas a mulher africana não vai desistir deste homem africana desde que ele não a desrespeite e ela [Clenora] deixa isso muito bem observado. Ela vai entender a totalidade da mulher africana e este homem africana não pode diminuir sua autoestima, sua autoconfiança, suas crenças, sua espiritualidade. Se este homem africana aflige ela dessa forma, a mulher africana deve abandoná-lo. O mulherismo africana vai falar sobre o equilíbrio desses relacionamentos, entre homens e mulheres, sempre tendo o homem como um parceiro, o mulherismo africana é um paradigma pensado para as mulheres, é pensado na questão do gênero dentro da concepção de raça. Ela vai dizer que existe elementos pelo qual um homem africana deve ter e deve executar para que essa relação seja igualitária e tenha um equilíbrio e assim com a mulher também. Ela vai equilibrar esses dois gêneros para se dar em comunidade, como parceiros, e quando ela fala como parceiros não está falando só de relacionamento. Ela vai falar sobre suas contrapartes, sobre o relacionamento entre a mãe e um filho homem, mulher e colega de trabalho, a amizade entre mulheres africanas, que não há uma competitividade, precisamos ser todas irmãs e ter relações genuínas, precisamos ser harmoniosas, precisamos que os homens que estejam conosco perante esta luta tenham harmonia, que tenha simbiose nesse relacionamento. Então ela vai abrir para vários outros aspectos da vida da mulher africana para que ela saiba entender também como ela pode ser uma mulher melhor para si mesma, porque esse é o foco, o mulherismo africana fala sobre as suas experiências únicas, como é a sua vivência enquanto mulher africana no Brasil e como você pode melhorar as suas experiências a partir da sua vivência. Para o mulherismo africana a sua vivência única enquanto indivíduo é importante para a construção da comunidade.

  “O mulherismo africana é um paradigma pensado para as mulheres. É um paradigma pensado na questão do gênero dentro da concepção de raça”

 

AF: E voltando para a questão da tradução desse material, esse é um passo muito importante para acessá-lo aqui no Brasil. Pode falar um pouco desse processo?

WY: O processo de tradução é uma construção muito importante, tanto para mim como pessoa quanto mulherista africana aqui no Brasil, mas entendendo como a história deste país está atrelada a esse paradigma e que é muito visível também dentro das nossas próprias comunidades através das nossas mães, das nossas avós, das nossas tias, das nossas primas, das nossas irmãs. Para mim é um presente poder traduzi-lo e saber que a própria Clenora Hudson está muito feliz de ter esse material traduzido no Brasil. Durante muitos anos ela recebeu diversos contatos do Brasil dizendo que o conteúdo dela era importante para nós, então tê-lo agora traduzido é realmente colocar a prática através de quem mesmo o fez. Em outras palavras seria aprender com a nossa mais velha que criou este paradigma para as mulheres de ascendência e descendência no mundo e ninguém melhor do que ela mesma para poder nos ensinar. É surreal a experiência de você poder conversar e aprender com quem criou um paradigma que está ganhando uma proporção muito grande no Brasil e no mundo. Eu me coloco num lugar de fã admirada pela acessibilidade que Clenora Hudson é, pela possibilidade que ela traz de se conversar, de se dialogar com ela. A escrita dela é criativa, a fala dela no cotidiano também é uma fala criativa, fácil e acessível, eu digo que esse livro é equilibrado, ele vai trazer muito da teoria acadêmica, muito de parte teórica que ela se baseou para criar o mulherismo africana, mas na hora ela coloca a prática como um princípio fundamental.

 

AF: O que mais vem sendo feito para a popularização desse debate? Apesar de ter crescido bastante nos últimos anos, ainda pode ser considerado um debate mais voltado para algumas bolhas?

WY: Eu falo que nenhuma mulherista africana no Brasil não passou pelo movimento feminista negro. A gente precisa entender primeiro isso, entendendo aquilo que dentro daquele movimento nos faltava em alguns momentos, é assim que a gente começa a procurar outras formas de se pensar o gênero, através das nossas experiências enquanto mulheres pretas aqui. Até determinado momento eu me entendia como uma mulher feminista, negra, mas chegou um momento em que a agenda não me cabia mais, principalmente vinda de uma família que tem a questão do encarceramento em massa muito forte, a minha história traz homens que foram encarcerados pelo tráfico de drogas, então a gente vai falar da questão da guerra antidrogas. Como é que a experiência da minha família, que estava ali defendendo os seus homens, os seus filhos, enquanto eu estava de alguma forma me afastando e tinha sempre que explicar porque eu estava fazendo aquilo, era algo que me incomodava muito entendendo que eles não eram homens ruins para as mulheres. Eles haviam sido criados por mulheres pretas maravilhosas, eles respeitavam as suas mulheres muito bem, sem histórico de violência contra mulher, sempre bons homens, provedores de casa e um deles foi preso porque só queria o melhor para sua família e foi por um caminho que não é certo. Essas questões foram questões que me marcaram muito e que eu trouxe com muito afinco às vezes em alguns debates e elas eram anuladas, a minha vivência em alguns momentos era anulada porque eu tinha que pensar como um todo. Isso me afetava porque a minha história de vida era diferente, era como se a minha humanidade e a história da minha família não fosse válida. E assim, depois de procurar muito, e aí eu falo da importância também de trazer esse livro dentro de uma língua que não seja inglesa e o quanto a gente tem esse processo linguístico que acaba distanciando, é importante.

A bolha que você traz é uma bolha que tem que passar por um viés, por um trajeto acadêmico, quando é algo que precisa ser popular. Então quando eu falo “vou traduzir isso” significa um processo de popularizar isso aqui dentro da nossa língua, para que cada um tire a sua própria conclusão. Já não é mais o que eu tenho quanto conhecimento distante, agora é um conhecimento próximo, acessível, que pode estar dentro das universidades, dentro das bibliotecas públicas, dentro das casas, o livro muda vidas e não fui eu quem disse isso, Malcom X também disse isso: o poder que o livro tem de mudar a vida de uma pessoa, e assim a gente tem feito.

Entender quais eram esses processos que me cabiam foi me levando para esse caminho que em alguns momentos eu também quanto pessoa fiquei sem ter uma opinião e eu vejo muitas mulheres africanas hoje aqui sem ter uma opinião “eu não sou mulherista africana, eu não sou mulherista, mas também não sou feminista”, porque elas são livres também para entender qual é o estudo que vai melhor se adaptar à sua vivência. E isso também não é problema nenhum, a gente não precisa estar ali, a gente precisa se sentir à vontade dentro daquilo que nos convém.

 “Eu falo que nenhuma mulherista africana no Brasil não passou pelo movimento feminista negro”

 

AF: Como você vê o futuro do Mulherismo Africana no Brasil e no mundo e o que falta para chegar nesse futuro?

WY: O mulherismo africana já está no mundo porque nós mulheres africanas nascemos, vivemos e morremos nesse mundo. As nossas experiências sempre serão contadas, escritas, documentadas. Não há o futuro para o mulherismo africana porque ele já está acontecendo agora. É um paradigma que vai se moldar, vai se adaptar às vivências dessas mulheres através das nossas experiências, então na medida em que as nossas crianças, que as nossas meninas vão crescendo, que as nossas famílias vão crescendo, que os mais jovens vão crescendo, o mulherismo africana vai documentar esse processo de como as mulheres africanas vão lidar com as suas questões dentro da sua comunidade. Tanto que quando você fala isso o mulherismo africana já se atualizou, a terminologia já não é mais “mulherismo africana”, é “mulherismo africana melaninado”. Há a percepção atual da Clenora Hudson em entender a questão também do colorismo e como isso afeta a comunidade africana, por isso que eu falo: é um paradigma que evolui conforme a nossa existência, conforme a nossa vivência. Acredito que o que pode fazer com que isso seja um processo evolutivo aqui é o trabalho essencial de editoras, de tradutores, de designs, de organizações, popularizar esses paradigmas para as pessoas terem acesso a eles e em um linguajar popular também. Para quebrar o sistema de bolhas a gente tem que também entender que a linguística é importante, a língua é importante, o fator de comunicação é importante para que as pessoas entendam o que está sendo dito. A gente tem que mudar a forma com que a gente fala para que chegue às as mulheres dentro das periferias.

 

*Andressa Franco é graduanda em Jornalismo na Universidade Federal da Bahia (Facom-UFBA). Integra como bolsista o Centro de Comunicação, Democracia e Cidadania (CCDC/UFBA). E é colaboradora da Revista Afirmativa.

 

É importante destacar que não necessariamente concordamos com todos pontos de vistas de nossas fontes entrevistadas, mas aqui, na Afirmativa, valorizamos e visibilizamos todas as experiências negras politicamente organizadas que primem pela superação do racismo e emancipação coletiva.