Por Ângela Figueiredo*

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Como já é sabido de todos/todas/todes, no final de semana passado o então secretário de saúde do estado da Bahia, Fábio Villas Boas, agrediu verbalmente Angeluci Figueiredo, proprietária do restaurante Preta, na Ilha dos Frades, chamando-a de “vagabunda”. A empresária reagiu, publicou uma reposta dura e o classificou como machista e misógino, e o secretário pediu desculpas e a exoneração do cargo. Houve muitas manifestações de apoio a Angeluci nas redes sociais, mas até agora nenhuma palavra do governador ou de representantes das instâncias superiores que indique uma posição do governo do estado frente ao ocorrido. Os tempos mudaram, ou estão mudando, não sei exatamente como conjugar o verbo diante de uma realidade que se transforma e que clama pelo estabelecimento de novos códigos e valores sociais. De diferentes maneiras estamos dizendo “não” ao machismo, ao racismo e às históricas formas de opressão.

Em 2015, denunciamos a falência do processo civilizatório no Brasil na Marcha das Mulheres Negras, realizada em Brasília, e indicamos passos importantes para construirmos um novo pacto civilizatório. Não aceitamos mais a manutenção dos privilégios masculinos brancos e elitistas para a manutenção da ordem que subjuga a nós, mulheres. Essa ordem, dentro da desordem que mantém uma hierarquia e assegura privilégios, precisa ser interrompida. Provavelmente, as instâncias governamentais apostaram na estratégia do silêncio, mas não contaram com a repercussão que o caso acabou ganhando nas mídias e redes sociais. Visto que outros fatos ocorreram durante a semana, dado a continuidade histórica da violência contra as mulheres no Brasil e dado a crise sanitária e política que vivemos, certamente eles tentaram desviar as atenções do público interessado numa resposta governamental frente ao ocorrido, o secretário de saúde misógino era integrante deste governo.

Enfrentamos cotidianamente o machismo e o racismo, vídeos absurdos e retrocessos presentes na proposta do novo Código Eleitoral, que retira a conquista das cotas de 30% da participação das candidaturas das mulheres dos partidos, bem como da recém conquista da paridade de recurso de campanha para candidatos negros e negras, com vistas ao combate ao racismo estrutural na política.

Vivemos um momento de perda de valores e de acirramento de comportamentos agressivos em diferentes setores da sociedade. Os índices de violência contra as mulheres têm crescido significativamente. Encontramos inúmeras demonstrações do atual presidente que atestam a misoginia e o seu desprezo pelas mulheres, mas não podemos admitir o silêncio e a falta de ações de um governo de esquerda, conhecido por uma maior afinidade com as causas e os direitos sociais e das mulheres, pelo menos na teoria. Entendemos que todos esses fatores são parte de um mesmo processo que reflete as desigualdades de gênero e o machismo.

Mais do que a exoneração do secretário, queremos ações efetivas de combate à violência contra as mulheres, sobretudo um investimento real na educação para as relações de gênero. Queremos poder educar os nossos filhos com exemplos positivos de masculinidade, o secretário de saúde do estado é uma pessoa pública que quase todos os dias adentrava nossas casas através das emissoras de TV para falar das ações frente à pandemia, sobre o programa de vacinação do estado. Como podemos desejar o fim das masculinidades tóxicas e educar nossos filhos para a igualdade de gênero tendo exemplos públicos tão negativos?

Silenciar não é a solução, governador!

*Professora e pesquisadora da UFRB, ativista, feminista negra, Coordenadora do Coletivo Angela Davis e da Escola Internacional Feminista negra decolonial e integrante do Fórum Permanente de Formação política Marielle Franco. Autora de livros e artigos sobre desigualdades raciais e de gênero, feminismo negro e descolonização do conhecimento.