Por Anunciação Silva*

 

Eu sou parte de você, mesmo que você me negue.

Na beleza do afoxé, ou no balanço no reggae. (…) 

A minha pele é linguagem e a leitura é toda sua.

(Jorge Portugal).

 

O mês de agosto, para os baianos, trouxe em sua primeira semana tristeza e comoção em função da morte de dois ícones negros, antirracistas ligados à educação e cultura: Jorge Portugal e Jaime Sodré. E, no sábado, quem se tornou mais uma encantada foi a maravilhosa Chica Xavier. A dor que nos rasga o coração pela partida desses griôs contemporâneos é realimentada, positivamente, em meio às inúmeras e merecidas homenagens nas redes sociais e nos veículos de comunicação impressos e televisivos que nos lembram suas trajetórias e seus legados. Os griôs são valorizados aqui por serem pessoas que dedicaram suas vidas à aquisição, constituição e transmissão de conhecimentos. No ano passado, o Conselho Universitário da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG) valorizou o conhecimento dos nossos mais velhos, muitas das vezes não diplomado, mas detentores de saber de relevância social e coletiva não apenas para suas comunidades, mas para toda a sociedade.

Sabemos que as lutas contra o racismo, em todo mundo, evocam sons e passos que vem de longe. Os notórios saberes científicos, artísticos e culturais estão presentes na poesia de quem vivencia a dor do racismo, mas sabe nos oferecer a reflexão sem a ardência do chicote. Nosso mais velho Jorge Portugal, com a maestria do bom griô, nos faz refletir: “a dor da gente foi[1] dor de menino acanhado. Menino-bezerro pisado no curral do mundo a penar. Que salta aos olhos iguais a um gemido calado”.  É a música do artista nos ensinando que na luta antirracista a nossa voz é tecnologia em nosso favor, pois, quando utilizada de diferentes formas, transforma-se em instrumento de denúncia e, também, de orgulho da raça.

De igual modo, os gritos do entregador de aplicativo Matheus Fernandes, de 18 anos, ecoaram no Ilha Plaza Shopping, na Ilha do Governador, Zona Norte do Rio de Janeiro pedindo socorro contra a violenta, perversa, truculenta e racista abordagem de dois homens brancos, acusando-o de roubo. O objetivo do jovem era apenas trocar o primeiro presente que daria ao seu progenitor, no dia dos pais, comprado com recursos provenientes do salário do seu primeiro emprego.   Embora, nada justifique a ação racista e covarde dos agressores, cabe lembrar que a nota fiscal do produto estava em posse da vítima e em seu nome. Ao perceber e sentir uma arma apontada em sua cabeça, não foi a tecnologia do papel que evitou que algo pior acontecesse, mas a tecnologia da sua garganta:  foram seus gritos que ecoaram pelo shopping, permitindo-lhe respirar e ser socorrido.

De forma objetiva e perversa, a branquitude racista produz símbolos, atitudes e manifestações sociais que tentam impor os lugares e o não lugares para o povo negro transitar, morar, comprar, estudar, divertir-se, trabalhar, (…). Uma forma de apartheid à brasileira, cujos determinantes estabelecem aos corpos negros uma cruel condição de subalternidade. Nesta lógica, o shopping é um não lugar como consumidor aos não brancos. Os corpos negros estão “autorizados” a transitar nesse espaço em duas condições extremas: na condição de algoz ou como trabalhadores e trabalhadoras, identificados de alguma forma, como tal. A própria vítima afirmou que sempre circula naquele espaço com a caixa de entrega identificada pelo aplicativo a quem presta serviço e nunca teve problemas.

E nesta lógica, a crença na supremacia racial branca, permite, que os atualizados feitores cotidianos, sintam-se no direito de avaliar, condenar e punir, a partir das suas ideologias raciais, um pseudo ladrão. Cientes dos seus privilégios, de gênero e raça arrasta o jovem pelo shopping na tentativa de ferir e esmagar a dignidade de mais um corpo negro que é salvo pelos próprios gritos de pedido de socorro.

 A sombra do mal-assombrado feitor versão 2020 é causadora de dores tão profundas que não nos permitem chorar, tampouco silenciar. A nossa voz é, também, nosso instrumento de luta. “No racismo, a negação é usada para manter e legitimar as estruturas violentas de exclusão social”, nos lembra a escritora, artista e intelectual negra Grada Kilomba.

Dias antes, 31 de julho, em um condomínio de luxo em São Paulo, o também trabalhador que presta serviço via aplicativo, Matheus Pires, de 19 anos, foi humilhado e agredido verbalmente ao emitir um comentário que desagradou um morador no condomínio onde foi fazer a entrega solicitada. O agressor, Mateus Abreu Almeida Prado Couto, ciente dos seus privilégios, tentou humilhar a vítima, afirmando que o mesmo tinha inveja por não ser branco e não morar no mesmo local que ele. Nada assustador, pois uma das características recorrente da branquitude para legitimar e fortalecer seus territórios, é utilizar mecanismos de exclusão, em especial a pseudo supremacia racial para desqualificar os corpos negros e reafirmar, a consciência dos seus privilégios. Contudo, o que chama atenção no vídeo é a reação da vítima.  De posse de uma argumentação lúcida, emocionalmente equilibrada para enfrentar o agressor, Matheus Pires interpela educadamente:  o senhor conseguiu o que tem por quê? O seu pai lhe deu ou por que o senhor trabalhou?

Mais uma vez, as palavras foram utilizadas para contrapor-se a situações de racismo e trouxeram, para a vítima, a possibilidade de ser visto, ouvido e continuar respirando. Sem dúvidas, nos dois casos, ambos os jovens foram “beneficiados” com o uso da tecnologia das próprias vozes para denunciar violências físicas e simbólicas. Em poesia, cenas semelhantes em outros tempos, mas de coragem igual, ganham vida: “os moinhos de homens que nem girimuns amassados não os tornam[2] mais Mansos meninos domados. Eles subvertem a massa de medos iguais. (…) Que esculpe, modela e não se permitem ser castigados como eram, no passado, a massa dos homens, negros, normais”.  Essa transgressão se deve graças aos caminhos abertos e aos legados de negros e negras antirracistas. Sim, nossos griôs, Jorge Portugal, Jaime Sodré, Luiza Bairros, Chica da Silva, Lélia Gonzales e tantos outros se fazem presentes e nos lembram que a nossa voz é tecnologia, é arma para diferentes formas de luta.

O Matheus racista e agressor mostrou como tantos outros brancos racistas fazem uso dessa estrutura de poder que a branquitude lhe imputa para agredir, controlar e excluir. Entretanto, Grada Kilomba põe a voz no mundo é diz que a boca simboliza a fala e a enunciação. É da boca dela que ouvimos que, no âmbito do racismo, a boca se torna órgão da opressão por excelência, representando o que as/os brancas/os querem – e precisam – controlar e, consequentemente o órgão que, historicamente, tem sido severamente censurado.

Os gritos dos Matheus, vítimas, revelam-se insubmissos, anunciando a dimensão transformadora da voz ecoar como estratégia de subversão à lógica de dominação da branquitude. Ao mesmo tempo nos asseguram, de forma inconsciente, que compreender os legados e os passos dos e das nossos/as  griôs é saber que o racismo sistêmico e perverso que atingiu os Mateus, entregadores de aplicativos, atinge diuturnamente, Maria, Joãos, Marcelas e tantos outros negros e negras  nos diferentes espaços da cidade,  qualquer que seja seu nível educacional, profissão, classe ou religião.

As vozes dos jovens como Matheus e Mateus evidenciam que aprendemos a lição desses e de outros tantos griôs que partilham esse tempo conosco e daqueles que nos deixaram. Há uma nova geração de jovens seguindo firmes, em passos largos, com corpos eretos e com vozes ativas ecoando que não aceitam a submissão. Altivos, negros e negras aprendem com outros Griôs que a consciência é o objetivo principal. “Queremos muito mais além de esporte e carnaval, natural.  Por isso! Chega de eleger aqueles que têm. Se o poder é muito bom. Eu quero poder também. E saiba. Se você está a fim de ofender, ie ie ie. É só chamá-lo de moreno pode crer! É desrespeito à raça é alienação. Aqui no Ilê Aiyê, e muitos outros lugares, há muito tempo, a preferência é ser chamado de negão”.

 Assumimos nossa identidade racial e temos orgulho disso. Temos história! Nossa também griô encantada Lélia Gonzalez nos lembra que “foi dentro da comunidade escravizada que se desenvolveram formas político-culturais de resistência que hoje nos permitem continuar uma luta plurissecular de libertação”. Sim, nosso processo de libertação acontece a todo dia, em cada desafio que subvertemos. Quer seja nos discursos racistas do feitor branco e morador do condomínio de luxo, em São Paulo, ou nos desafios diários, especialmente, do acesso à educação e ao mercado de trabalho, este, último, cada vez mais precarizado e excludente.

 

Imagem de Destaque: Mulheres guinesses  em uma festa popular local em Bissau, capital da Guiné Bissau 

 

* Professora efetiva da Universidade do Estado da Bahia – Campus II e doutoranda em educação da Universidade de São Paulo – USP. E-mail: marconceicao@uneb.br

 

 

Referências

Gonzalez, Lélia. 1988. “A categoria político-cultural de amefricanidade”. Tempo Brasileiro (Rio de Janeiro), nº. 92/93 (jan./ jun.): 69–82.

Kilomba, Grada.  Memória da plantação Episodio de racismo cotidiano. Editora Cobogó. Ano 2019.

 

[1] Alteração minha. Em diferentes momentos deste texto utilizarei de forma distinta trechos da música “A massa” de Jorge Portugal. Sem sinalizar para não quebrar a fluidez do texto. Para facilitar a compreensão farei uso do itálico.

[2] Todos os negritos e alterações são minhas.