Por Monique Rodrigues do Prado*

Tenho pensado bastante sobre o cubo mágico como uma ilustração da vida. Há um tempo escrevi o artigo “Afrofuturismo como potência da imaginação” que nos dá um norte sobre o que tem-se chamando de política da imaginação ou o que algumas pessoas têm intitulado imaginação como potência, cujo objeto é utilizar a imaginação como uma ferramenta para projetar o futuro.

Hoje em dia é ainda mais desafiador desenhar o futuro, pois os tempos sombrios não revelam outra coisa, senão uma distopia produto da indiferença humana que enseja em larga escala de desigualdades, esgotamento dos recursos naturais e retrocessos nas políticas sociais. O agravamento ainda é maior nesse período de pandemia que jogou holofotes para regeneração do capitalismo e todas as formas de opressão abrindo shoppings mesmo frente ao número elevado de mortos naturalizando essa monstruosidade chamando-a de “novo normal”.

Entretanto, mirar possibilidades de mudança exige de nós reflexões profundas já que a equação é complexa ao ponto da desesperança cegar qualquer perspectiva de mudança positiva. Por isso, a conversa sobre futuro exige certo nível de abstração e é nesse momento que entra o cubo mágico.

Para quem não conhece o cubo mágico ou cubo de Rubik foi um invento realizado em 1974 pelo arquiteto e professor Erno Rubik, nascido em Budapeste – Hungria que criou um quebra-cabeça tridimensional com 26 peças pequenas e uma central. Ele desenhou o objeto para levar para a sala de aula a fim de que os seus alunos promovessem a resolução de conflitos através da concentração, do raciocínio lógico e da potencialização da criatividade. O curioso é que o próprio inventor demorou 1 mês para conseguir recompor as peças no mesmo lugar.

Entretanto, o fato mais surpreendente sobre o cubo é que embora pequeno ele tenha uma variação de 43 quintilhões de combinações, ou seja, trilhões, quatrilhões e só depois quintilhões, dali zeros.

Se um objeto com 26 peças pode promover essa variação de combinações, o que 7 bilhões de cabeças pensantes não poderiam fazer para alternar o paradigma global de escassez, fome e excessos inconiventes?

A verdade é que o capitalismo como posto não aproveita a diversidade continental e muito menos fomenta o reconhecimento dos múltiplos talentos, primando pelo discurso individualista neoliberal que estimula a competitividade e a ordem, paradoxalmente, pautada pelo caos. Por isso vimos entregadores sendo chamados de “empreendedores” e bilionários sendo o modelo a ser seguido, gerando frustações e contrastes desnecessários às relações humanas.

Afinal, ócio criativo é benefício só da burguesia? Encorajar esse despertar, sobretudo da classe trabalhadora, é avançar as discussões sobre frear a máquina do capital que com a tecnologia não tem feito outra coisa senão fomentar a produção exacerbada que violenta os ecossistemas da natureza.

No fundo, essa falsa polarização estimulada pela grande mídia é uma ferramenta para que o pobre de direita acredite que vai se tornar o Bill Gates criando uma liturgia a favor do hiperindividualsmo.

Todavia, o cubo mágico nos oferece algumas lições traçando um paralelo com a vida: é imprescindível a mobilização da primeira peça para afetar o resultado final ainda que imperceptível; cada uma das peças precisa estar em harmonia com a outra para que todas as peças estejam no lugar; não só as grandes ações causam grandes mudanças na estrutura.

Nesse sentido, as várias convicções e visões de mundo são também positivas, visto que cada perspectiva contribui para a composição do todo causando abalo sistêmico. Assim, essas potências e talentos na escala micro demonstra que temos que estar atentos ao que cotidianamente podemos fazer para mudar o pacto social que na experiência contemporânea só tem dado certo para uma parcela bem pequena da sociedade, a qual escancaradamente vive a base da exploração dos demais. Sejamos a pecinha que se move trabalhando para o coletivo.