Por Juliana Dias*

Trabalhadora doméstica candidata a vereadora de Salvador. Percussionista de bloco afro professor de universidade pública. Estudantes profissionais do cinema, da fotografia. Jovens de favela funcionários públicos. Escolhi começar esse texto depositando o olhar em apenas um dos ângulos que representam a atuação do CEAFRO nesses 25 anos de história, celebrados em 2020.

Talvez os nascidos depois de 1995 não saibam nem o significado da sigla que nomeia o programa de educação e profissionalização para a igualdade racial e de gênero, mas direta ou indiretamente foram impactados com a atuação histórica pensada, executada e mantida por mulheres negras baianas.

O CEAFRO, programa vinculado ao Centro de Estudos Afro-Orientais (CEAO) da Universidade Federal da Bahia (UFBA), surgiu num momento em que a internet começou a ser operada comercialmente no Brasil e foi prevendo as mudanças estruturais que seriam causadas com esse aparecimento que as professoras Maria Nazaré Mota de Lima, Valdecir Conceição e Vanda Sá Barreto decidiram colocar em prática uma tecnologia social da qual as mulheres negras são baluartes: a formação.

Em mais de duas décadas, o CEAFRO foi responsável pela mudança da perspectiva de vida de milhares de jovens negras e negros, a partir da oferta de um leque de cursos profissionalizantes e educacionais, que embora tivessem como meta ampliar a participação desse grupo no mercado de trabalho, incidiram no assentamento da identidade negra revolucionária.

Essa incidência enraizada na ideia de pertencimento navega nas mesmas águas de um provérbio africano que diz: “Se quer ir rápido, vá sozinho. Se quer ir longe, vá em grupo”.  Coletivamente, o CEAFRO moveu estruturas que marcam o horizonte de lutas e conquistas políticas do povo negro, entre elas: a inclusão da história e cultura africana e afro-brasileira no currículo escolar, que culminou na Lei 10.639/2003 e a defesa das cotas raciais no ensino público superior.

Dentro do quadro de memória do movimento social negro brasileiro, o CEAFRO é base de uma genealogia que precisa ser replicada em diversos âmbitos da vida de uma pessoa que tem a consciência negra como projeto de emancipação. Esse marco histórico de 25 anos, atualmente formalizado como Instituto, se reflete no cenário como o de hoje, em que mulheres e homens negros se engajam no ensino de uma educação para libertação, seja através do crescente surgimento de mídias negras, no alcance de jovens influenciadores digitais e mais fortemente na eleições de 2020, que prevê um contexto amplo de candidaturas de mulheres negras na Bahia. As pegadas foram deixadas, sigamos o caminho trilhado.

 

*Jornalista e pesquisadora (@julianadias) – www.jornalistajulianadias.com