Dificuldades, estratégias, posições políticas e necessidades de jovens artistas negres

Por Kizzy Lumumba, Lorena Sampaio e Luiza Nascimento*

O cancelamento de peças teatrais, shows e outros eventos culturais em decorrência da pandemia da covid-19, trouxe não só um novo modelo de consumo da arte, como também escancarou o descaso do Estado, empresas e fundos de fomento com artistas negros e periféricos. Enquanto alguns cantores cobram altas quantias para divulgar marcas em suas lives, outros se preocupam e usam a arte para conscientizar as pessoas e combater violências raciais, machistas, lgbtfóbicas e de qualquer cunho discriminatório.

A desvalorização da arte enquanto profissão se intensificou mais com a crise sanitária e o isolamento social. Se de um lado há artistas sendo patrocinados por grandes empresas para continuar divulgando seu trabalho, por outro temos artistas que contam com doações através de vaquinhas online, auxílios ou até precisam ir às ruas – como os poetas que recitam nos ônibus e locais públicos de Salvador – para conseguir a grana do dia a dia, o que evidencia que ‘ficar em casa’, infelizmente, não é opção para todos.

Em lives do ramo sertanejo, a maioria dos artistas não só desrespeitaram as recomendações da Organização Mundial da Saúde (OMS) ao reunir amigos, familiares e grandes equipes técnicas em suas casas, como também exageraram no consumo de bebidas alcoólicas, sem qualquer recomendação sobre os riscos do uso abusivo de álcool. Em contrapartida, cantoras como Bia Ferreira, poetas como França Mahin e outros artistas negros lutam para continuar divulgando sua arte na quarentena, sem patrocínio ou espaço que as grandes marcas oferecem.

Arte como política

Ficar em casa tornou-se parte da rotina de 57% da população brasileira em abril deste ano, segundo o Índice de Isolamento Social feito pela empresa In Loco. Neste período, para muitas pessoas a arte se tornou uma válvula de escape para suportar os dias de confinamento e abrir nossos olhos para questões que não são abordadas profundamente pela grande mídia. É o que faz a cantora e compositora Bia Ferreira, trazendo em suas canções letras que abordam o racismo.

 

Para a cantora, a sensação de trabalho cumprido aparece quando sua música transforma opiniões, como ocorreu com uma moça branca que era contra as políticas afirmativas de combate ao racismo, mas percebeu o equívoco ao ouvir uma de suas músicas.  Ou quando crianças negras a conhecem e se identificam, como aconteceu com a pequena Manu (de 5 anos) que aprendeu a tocar todas as músicas de Bia. “Sinto que tenho o compromisso de usar minha arte como ferramenta de informação para as pessoas, de pautar minha arte na luta antirracista e como tecnologia para emancipação de mentes e sobrevivência de corpos”, comenta a artista.

Dessa forma, a musicista usa sua arte como ferramenta de disputa contra discursos racistas e sexistas, contribuindo com um processo de quebra da cultura de “pão e circo” – metáfora que costuma para denunciar atitudes de governantes que pretendem distrair a população dos problemas sociais com “espetáculos” musicais. “Quando uma pessoa dá play no som da Bia, essa pessoa tá silenciando um discurso machista. E toda vez que essa pessoa ouve esse discurso machista, ela silencia o que eu estou falando, o que a Doralyce está falando, o que a Preta Rara está falando. Por que é uma guerra de narrativas”.

Desde sempre seu objetivo têm sido alcançar o número máximo de pessoas e deixar um legado através da oralidade, o que ela chama de “tecnologia diaspórica”. Bia se define como ARTivista, movimento crescente de artistas que usam a arte como instrumento de ativismo, e defende que a emancipação do povo preto passa também pela economia. “Dassalu, como chama esse conjunto de tecnologias, significa tornar prioridade o consumo do trabalho de pessoas negras, para que o dinheiro circule entre a população, fortalecendo ainda mais a nossa renda. Por isso, fomentar o trabalho de artistas negros merece atenção maior de quem o consome, visto que as empresas tradicionais não têm interesse em se comprometer com esse discurso”, relata Bia Ferreira.

A artista lançou em 2019 Igreja Lesbiteriana, seu primeiro álbum – Foto: Reprodução

 

Artista também paga boleto

Utilizar a arte como ferramenta de debate sobre problemas sociais é também o trabalho de poetas de ônibus como os jovens soteropolitanos Vanessa Coelho e França Mahin. Eles usam as rimas como ferramenta de denúncia sobre questões que afetam diariamente a população negra. “Eu não posso falar de arte sem partir do pressuposto que arte para mim é política, ela tem uma identidade racial e vem com intuito justamente de pautar debates e problemáticas sociais e de denunciar questões que são invisibilizadas socialmente”, afirma a poeta Vanessa Coelho.

Vanessa Coelho, recita poesias nos ônibus da capital baiana – Imagem: @lispedreirafoto @dialogosinsubmissos

Mas em tempos de Covid-19, ir às ruas é se expor ao perigo, principalmente para os artistas independentes que têm o transporte coletivo como palco.  Por isso, muitos tiveram que se reinventar para conseguir fazer com que a resistência, presente em suas poesias, continuasse alcançando o público.

A ameaça do coronavírus fez com que muitos poetas de ônibus parassem de recitar nos coletivos. No entanto, o ficar em casa nem sempre é uma opção para todos como foi o caso do poeta França Mahin, que pegou covid no exercício do seu trabalho e precisou ir para o abrigo público para se cuidar. Quando ainda estava transitando nas ruas, França encontrou um amigo, que também é poeta, e estava recitando nos ônibus. Apesar de estar abalado com a situação e ciente do risco que seu amigo corria por estar nas ruas e nos coletivos ele não se sentiu no direito de mandá-lo ir para casa. “Como é que eu vou dizer man[sic], volte pra casa que o auxílio emergencial vai salvar sua vida? A ideia da galera é que o auxílio emergencial é o salvador da pátria, que 600,00 dá pra salvar o mundo”.

O “poeta de buzão” França Mahin contraiu Covid-19 no exercício do seu trabalho – Imagem: Diney Araújo

 

Sabemos que o auxílio, exclusivamente, é insuficiente para suprir as necessidades básicas da maioria das pessoas. É assim também com os artistas independentes que não podem contar com a assistência do atual Ministério da Cultura. No dia 29 de junho de 2020 foi sancionada a lei Aldir Blanc, que garante o repasse de recursos para os setores culturais dos municípios, com o objetivo de auxiliar os artistas locais. Apesar do auxílio do governo, artistas ainda lutam para resistir a esse período. O coletivo Zeferinas, do qual Vanessa é integrante, propôs a campanha Troca poética: Arte é profissão, com o objetivo de arrecadar capital para um fundo emergencial de auxílio aos artistas de baixa renda de Salvador e região metropolitana.

Foram iniciativas como essa que ajudaram França no início da pandemia, quando ele recorreu a uma geladeira comunitária para ele e outros artistas e assim conseguir se alimentar. Hoje, após recuperar uma parte da sua renda, o poeta fala sobre a importância de colaborar: “No momento que eu não tive, eu tive que tirar de algum lugar. No momento que eu comecei a ter, foi o momento que eu comecei a botar”.

 

Por trás dos palcos

Assim como os artistas independentes, os trabalhadores responsáveis por auxiliar artistas e fazer funcionar o setor cultural também estão sendo afetados pela pandemia. Como é o caso do roadie Sopa Santana, que ao perder uma série de trabalhos sofreu uma diminuição extrema em sua renda, e precisou voltar para a casa de sua mãe. Quando a situação se complicou, Sopa contou com a ajuda do projeto Backstage Invisível Salvador, que fornece cesta básica para minimizar o impacto financeiro de técnicos, produtores e os demais profissionais da parte de organização, execução e técnica de shows e eventos locais.

Sopa Santana é roadie e sofreu uma diminuição extrema em sua renda – Imagem: Heder Novaes

Mas apesar da dificuldade, Sopa relata que trabalhou duro durante anos para alcançar o seu espaço no mercado: “Eu acredito que esse ano a gente vai ter que viver com o auxílio emergencial, sem trabalho, sem nada. Meu pensamento hoje é que a vacina venha pra pelo menos amenizar essas mortes, eu nem penso mais no trabalho. Trabalho a gente corre atrás e faz acontecer. Fiquei sete anos da minha vida ralando tanto, passei por tantas dificuldades. Por que não esperar?”, relata Sopa Santana.

O grande mercado das lives não abarcam as equipes de produção que os acompanhavam na velha rotina dos shows, pois normalmente a equipe de produção é definida pelo próprio patrocinador. E no “novo normal” as desigualdades da indústria cultural seguem piores que antes. Os profissionais da produção (como os artistas) negros e periféricos não são assistidos nem pelos patrocinadores, nem pelos órgãos públicos de incentivo à cultura.

A ilustradora e grafiteira Annie Ganzala sente-se prejudicada, sobretudo por ser microempreendedora, e os profissionais da arte não serem sequer mencionados em nenhuma categoria do Microempreendedor Individual (MEI), o que reflete diretamente na invisibilidade do seu trabalho. Porém, seu questionamento vai além e ela faz uma leitura sobre o cenário em que está incluída. “Eu não conheço nenhuma pessoa preta periférica que é artista porque quis sempre, que desde criança foi preparado pra isso”. Annie, que estava acostumada a ir para as ruas exercer a sua arte, hoje tem ainda que aliar a produção em casa ao seu papel de mãe. “Como mãe e artista tenho que dar conta de uma criança em casa, com as demandas dela, com alimentação, com limpeza. Afeta profundamente a nossa força, a nossa energia vital e interfere também no processo criativo, interfere também nas contas, nos boletos, pois estamos consumindo mais”, afirma Annie Ganzala.

 

E o processo criativo?

A ilustradora Annie Ganzala relata as dificuldades de se encontrar inspiração nestes tempos de isolamento social – Imagem: Reprodução

Manter a criatividade e produção quando se passa 24 horas em casa pode ser complicado. Para produzir, as pessoas precisam de inspirações, de elementos do dia a dia para ajudá-las no desenvolvimento, principalmente para quem tem um público que procura na arte sinais de amor e afeto. As ilustrações feitas por Annie são voltadas, sobretudo, para mulheres negras e ela afirma estar enfrentado dificuldades na criação: “É bem difícil pra mim que faço muito trabalho voltado para o afeto, sobre a felicidade de mulheres negras. É muito difícil gerar algo que a gente não está alimentando. Como é que eu posso oferecer acalanto, afeto, se é uma coisa tão escassa? Como é que a gente vai falar de afeto, se estamos vivendo a solidão?”, reflete Annie Ganzala.

Em meio às dificuldades, quem depende exclusivamente da arte para se manter está precisando se reinventar para conquistar o estímulo de produzir e voltar a conversar com o público. O produtor Ziati Franco está sabendo lidar bem com a situação e estar sozinho nesta quarentena despertou ainda mais seu lado produtivo. Durante esses meses, ele criou uma página no instagram chamada “Quarentena Trans”, um diário no qual escreve sobre seus sentimentos acerca de sua transição, já que em abril deste ano ele se reconheceu como homem trans. Na música, Ziati criou recentemente o projeto Show Black Composer. “Convidei algumas meninas daqui de Salvador para criarem um texto de até 300 caracteres, com títulos de suas composições e foi incrível. Muitas delas não se conheciam entre si, então gerou essa panela de barro com as compositoras”, afirma Ziati.

Ziati Franco criou em meio a quarentena o projeto Quarentena Trans em seu Instagram – Imagem: Arquivo Pessoal

O rapper baiano Hiran lançou seu álbum Galinheiro durante a pandemia – Imagem: Fernando Young

Com um álbum lançado na quarentena, o rapper baiano Hiran também arranjou uma solução para colher bons frutos durante esse processo. “Quando eu tava produzindo eu tinha expectativas e planos e eu me esforcei muito pra fazer esse disco. Quando a pandemia começou, eu tive que mudar tudo. Mas eu tô bastante tranquilo, tô muito satisfeito com a obra”.  E não é pra menos. Inspirado no amor e em suas experiências pessoais, seu álbum Galinheiro conta com a participação de artistas como Majur e Tom Veloso, com direito a música na lista As 50 virais do Brasil, no Spotify.

 

Likes e Vakinha – quem curte e pode, deve contribuir

Não é novidade para a maioria dos artistas o uso das redes sociais como forma de gerar visibilidade para seus conteúdos, mas neste período, estas plataformas se tornaram ainda mais fundamentais. E se de um lado há pessoas que já se sentem familiarizadas, há outras que precisaram se adaptar rapidamente a essa nova realidade, para não serem deixadas para trás. “O uso das redes sociais é mais do que uma escolha, cada dia mais tá sendo uma exigência do mercado. São mudanças muito grandes e em muito pouco tempo, então pra mim mais um problema nessa pandemia tem sido a demanda de que eu só vou realmente poder viver de arte se eu fizer as pazes com as mídias”, desabafa Annie Ganzala.

No entanto, mesmo se reinventando e procurando atender as demandas das redes sociais, o público é o principal mecanismo de propagação e contribuição da arte. Ou seja, para que o artista alcance mais pessoas, é fundamental a contribuição de quem gosta do seu trabalho. Esse é o exemplo do “chapéu virtual” adotado por Bia Ferreira em seu Instagram, para receber apoio do público enquanto não pode realizar shows. “Essa foi a única forma que encontrei de ser monetizada, ressarcida pelo trabalho que faço”. O público percebeu a necessidade de investir na sua arte que, infelizmente, não está nos radares de grandes empresas patrocinadoras das lives.

Bia Ferreira sempre chama atenção do seu público para que eles se atentem sobre a realidade dos artistas que admiram. “Eu não quero contribuir na construção desse imaginário de artista intocável, que é muito feliz e não tem problemas”, conta ela.

O engajamento nas redes sociais dos artistas negros, sobretudo dos que ainda não possuem tanta visibilidade, tornou-se mais importante agora com a quarentena e o isolamento social. “Curtir, compartilhar, comentar, fazer a parada ser vista para que exista interesse de investimentos em cima daquilo. Quem tem voz tem que fazer as pessoas entenderem que dar a mão é uma parada necessária”, afirma o rapper Hiran.

O que para alguns pode não fazer diferença, para um artista pode ser fundamental. “Tem uma colega do lado que faz desenho? Não vai cair a mão se apertar no compartilhar e botar no status”, reforça França Mahin. Essas atitudes refletem não só no lado financeiro, mas dão força para a continuidade do trabalho, como no caso de Annie, que tem fortalecido o reconhecimento do seu público alvo. “Quando a gente encontra pessoas que se identificam com o que estamos fazendo é a resposta de que tá dando certo, de que o que a gente faz toca, chega em algum lugar e tem eco. É muito mais do que dinheiro, é ter retorno e respeito enquanto artista. Nesta quarentena o que mais me tocou foi ver mulheres pretas comprando meu trabalho. Muitas falaram assim: ‘espera que o benefício vai cair e eu vou poder comprar uma impressão sua’. Ouvir isso foi muito importante pra mim”, declara Annie Ganzala.

 

*Esta reportagem foi feita sob a orientação de Alane Reis, e é um dos produtos do Lab Afirmativa de Jornalismo. Clique na imagem para saber mais