Por Roberto Barros*/ Imagem: Diogo Mirandela

O conceito de lugar pode transcender os aspectos geográficos. O antropólogo francês Marc Augé inseriu em sua obra, “Não-Lugares”, uma ideia de que estes seriam os espaços (intercambiáveis) e onde os seres humanos permaneceriam no anonimato. Parece ser algo paradigmático o fato de pensar que esse conceito de “não lugar”, pode estar intimamente relacionado a ideia de não sujeito. É um pensamento, mais do que recorrente, que os lugares possam ser constituídos por sujeitos e estes podem ser afetados e formados pelo mundo exterior.

Não é nova essa reflexão no âmbito da filosofia, como pode ser visto através do pensador francês Merlau-Ponty em sua obra: fenomenologia da Percepção, do qual o corpo não é entendido apenas como objeto de estudo, mas enquanto condição e base para a existência. Em suma, na visão Pontyana, de nosso corpo constituí a nossa percepção do mundo quanto a própria criação desse mundo. Entre consciência e corpo existe, assim, uma junção impossível de ser desfeita. O corpo, nesse aspecto, é um limite com o mundo. É desta corporeidade que se estabelece, no sujeito, o entendimento do mundo e a formação deste.

Partindo-se dessa premissa, cabe indagar quais os efeitos que a ruptura do espaço e dos lugares e, do mundo, causa na subjetividade e singularidade de quem busca ser percebido, ou busca perceber o entorno? Na obra do filósofo camaronês, Achille Mbembe, intitulado “A crítica da razão negra” o pensador elabora uma ideia da universalização da condição do “Negro” da qual surge, simultaneamente, com a instauração de práticas imperiais inéditas que devem tanto às lógicas escravagistas de captura e de predação como às lógicas coloniais de ocupação e exploração. Nesse contexto, do qual dialoga diretamente com outros autores das ciências sociais como Dipesh Chakrabarty e a sua obra “Provincializing Europe”, debate-se o lugar mítico da Europa como suposto berço da modernidade e a sua influência nos momentos de transição para o capitalismo. Nota-se, portanto, uma aguda crítica que esses autores lançam às ideologias colonialistas e, nesse aspecto, pode-se realizar uma observação de que as práticas coloniais que removeram o senso de pertença e de identidade do negro através das narrativas e das violências institucionais europeias, afetaram na construção da subjetividade do sujeito negro e impactaram, de sobremaneira, o tecido social, ao relegarem os espaços comuns do povo preto como um não lugar. Aliás, essa narrativa ‘não-lugar’, associada a ideia de “não sujeito” legitimou inúmeras ações violentas que vão da colonização à escravidão.

É nesse ensejo que a violência racista se estrutura e estrutura o tecido social brasileiro. Ocorre que essas construções ideológicas, das quais legitimaram as práticas coloniais, impactaram a própria formação nacional brasileira ao unir o conceito de escravo com o de “negro”, até estes tornarem-se sobreponíveis; como defende Mbembe. Associado este fato com o modelo econômico capitalista, pode-se perceber que tanto dentro como fora do capitalismo, o “Negro” passa de homem-metal (exploração mineira em África) a homem-mercadoria (tráfico negreiro de escravos) e, daí, a homem-moeda (como produto de troca no capitalismo). O racismo, nesse escopo, desenvolve-se como um fenômeno que legitima tanto a opressão como a exploração fincada na lógica do capital e por essa razão; é um dispositivo de poder que se constrói em uma estrutura hierárquica que supervaloriza uma etnia (a etnia próxima do capital, dos colonizadores europeus) e sujeita a outra (dos povos colonizados, africanos).

Esse processo explica o porquê do “Negro” ser estigmatizado como o não sujeito, pois, em toda lógica hierárquica existe quem sujeita e quem é sujeitado. Revela-se, nesse sentido, um fato quase sintomático de que ambos discursos construídos: (i) o de que o sujeito negro não era humano e (ii) a de que a exploração do capital seria a face humanitária do progresso; são míticos e constituem um cinismo coletivo de uma Europa que precisou animalizar o outro (povo africano) para se “humanizar”. Esse aspecto permite compreender as associações do colonialismo e da escravidão.

No caso brasileiro as consequências históricas deste período arrastam-se até hoje, embora com outras “roupagens”. Após a chamada “abolição”, a ideia de que nossos corpos e subjetividades não eram civilizados e nem humanos permaneceu-se. O racismo científico buscou legitimar as violências que permearam as estruturas sociais e as instituições que nasciam nesse período caracterizado como “modernidade”. Como resultado desse processo, foi-se removido o nosso direito de pertença a um espaço (escravos alforriados perderam o direito à terra) e os locais que fomos, compulsoriamente, levados a estar (surgimento das periferias, o sujeito negro é obrigado a sair da centralidade da cidade e ir à margem); foram convertidos em não lugar.

Essa origem histórica nos conduz a percebermos, portanto, que os espaços são atributos que transcendem os aspectos geográficos e são, portanto, inseridos em uma lógica mais antropológica. A ruptura de nosso direito a um lugar, a nosso direito de existir em um mundo, nos conduziu a uma das consequências mais nefastas do racismo: a perda de nossa identidade. Sem essa identificação do que nós somos, ocorre a manutenção das violências simbólicas e físicas dos quais somos vítimas seculares. Em outras palavras, continua-se a manter o stablishment e as violências das quais sofremos passam a ser banalizadas, pois, os locais onde nos encontramos não existe, pois, nós enquanto pessoas pretas também não existimos enquanto singularidade e, nesse sentido, enquanto dor. Portanto, a ideia de não lugar associado a ideia de não-sujeito revela o fenômeno de que qualquer movimento que rompa essa lógica imposta pelo racismo e classismo serão criminalizados ou combatidos da forma mais agressiva possível. Esse fato explica o porque é tão insuportável para a classe média e elite branca brasileira aceitar um preto ou uma preta dentro da universidade de medicina, ou como estudante de direito, por exemplo. De certa forma, a ideia de universidade para esse setor social e étnico, é a de um lugar que deveria pertencer, apenas, a eles mesmos. Da mesma forma, constroem-se narrativas que buscam desqualificar ou mesmo criminalizar o corpo preto dentro de algum espaço de poder.

Esses espaços negados ou esses espaços dos quais os eventos que ocorrem não se encontram na centralidade, são os não lugares e por essa razão, são associados ao não-sujeito. Portanto, essa relação do apagamento de lugares com o apagamento do “Negro” explica muito da dinâmica do racismo brasileiro e o porque somos tão invisibilizados em nossos pensamentos (vozes) e em nossos afetos corpóreos. O racismo brasileiro se formou assim, não veio de uma lei de estado, mas adentrou-se nas relações interpessoais, nos costumes desse país e, por essa razão a percepção que se têm de racismo nesse país é míope. Em suma: pode-se até concordar sobre a existência dessa violência estrutural, mas não se percebe quando a mesma se evidencia. Urge, portanto, a necessidade de uma tomada de consciência e, nesse sentido, a importância dos coletivos e da luta antirracista que põem na centralidade dos espaços novos narrativas que permitam subverter a lógica colonial europeia e evidenciar nossa potência enquanto preto.

 

*BiomédicoPós Doutor  Neurofarmacologia (ICB-USP); Doutor – Neurofarmacologia (FCFRP-USP) e pela Medicine School at King’s College London, Guys Campus (Inglaterra); Mestre – Patologia Experimental e Farmacologia – (FMRP -USPMembro do Comitê de ética da Faculdade de Nutrição da UFBA