Por Júlia de Miranda

Para o jornalista e escritor, ser um corpo negro no mundo envolve militância, contar histórias através das narrativas de pessoas negras e se permitir fazer coisas que para os brancos são tão normalizadas e que para nós soam desafiadoras.

A fala mansa do jornalista, escritor e empreendedor Guilherme Dias entrega uma segurança de quem tem conteúdo de sobra quando o assunto perpassa por negritude, comunicação, viagens e ancestralidade. Ele é idealizador do site Guia Negro, que faz produção independente de conteúdos sobre cultura negra, turismo étnico e afrofuturismo; também é sócio da Black Bird Viagem, uma plataforma de turismo e representatividade, e apresentador do “Guia Negro Entrevista”, programa disponível no Youtube que conversa exclusivamente com personalidades negras. “Eu sou muito feliz, estamos construindo uma nova história. Acho que tem uma revolução em curso e ela não tem volta”, me contou ao som dos passarinhos cantando de fundo nos áudios trocados via Whatsapp em sua morada no bairro da Barra Funda, São Paulo.

Tem quem o considere paulistano, outros dizem que é baiano e tudo faz sentido, afinal, somos a soma de todos os lugares (no caso de Guilherme, são muitos) e pessoas que conhecemos pelo caminho. O jornalista nasceu e cresceu em Campo Grande, Mato Grossos do Sul, pedaço do Brasil com uma forte presença indígena e negra, porém ainda desconhecida por muitos brasileiros, e também por quem ali reside. Parte de sua família se encontra no estado pantaneiro e outra parcela, composta pelos amigos, se localiza na cidade de Salvador, lugar de forte conexão desde sua primeira visita, em 2005. Guilherme, que todo ano reside 3 meses na cidade (durante o verão de Salvador), se diz maravilhado com a força da cultura negra presente na região, diz que pisar no solo soteropolitano é estar em contato com uma energia que sempre lhe pertenceu, uma ligação ancestral.

Escrever é um ato político, podemos recuperar nossa história escondida numa possibilidade de ter a nossa fala pública como um lugar onde somos ouvidos. A teórica e artista interdisciplinar Grada Kilomba nos lembra que ser autor e autoridade da própria narrativa nos torna oposição absoluta do que o projeto colonial predeterminou. Confira na entrevista mais sobre os processos pessoais que o levaram a produzir conteúdo dentro de um universo jornalístico ainda tão branco e com muitas limitações de inclusão, tanto nos olhares interseccionais nas reportagens como no número de profissionais negros ocupando chefias nas redações de forma significativa.

 

RA- Pensando nas palavras de Conceição Evaristo “Tempo de nos aquilombar”, me conta como surgiu a iniciativa do site “Guia Negro” e quais foram (ou são) as inquietações pessoais que te atravessam e guiam por esse caminho de consciência racial (marcante em tantas áreas de nossas vidas).

Eu acho que o Guia Negro surgiu de uma urgência de falar desses corpos negros pelo mundo. Fiz um mochilão em 2016, eu tinha como jornalista a pretensão de escrever isso num blog para contar e dividir essa viagem que durou um ano. Quando eu voltei, acabei lançando um livro que chama “Dias pela Estrada” e por conta do livro eu comecei a ir mais para redes sociais, pois percebi que aquilo gerava vendas. Na sequência, fui morar no Atacama para trabalhar em agências de viagem que era como meus amigos viajantes faziam pra ganhar mais grana para continuar viajando, porém eu não conseguia trabalho.

Nisso eu percebi que um dos motivos que eram importantes para eu não conseguir trabalhar, era a questão racial no país. O Chile é um país mais racista que o Brasil e eu não via nenhuma outra pessoa negra trabalhando à frente dessas agências. Resolvi escrever um texto que chamava “Como é ser um corpo negro pelo mundo”, e esse texto foi bem marcante pra mim. Consegui digerir todos os casos de racismo que passei nesse um ano viajando e publiquei num grupo de mochileiros do Facebook, que naquela época era bem forte, e esse texto parou o grupo, foram mil comentários em poucas horas e metade daqueles comentários era dizendo que aquilo era mimimi. A outra metade dizendo “cara que foda, nunca vi uma pessoa negra falando sobre viajar” e aquilo me incentivou. A partir dali, pessoas negras que já faziam esse trabalho vieram falar comigo e a gente começou a trocar.

Apesar de ser um negro de pele clara, a minha consciência racial é muito antiga. Desde criança eu me entendia como uma pessoa negra, óbvio que politicamente isso foi vindo mais tarde, na adolescência, com 19 anos eu já militava em prol de direitos humanos e a questão racial era uma das questões que estavam ali postas, mas não era a questão principal.  Ela veio mais forte quando me mudei para São Paulo, em 2009.

Quando eu mudo pra cá, começo a militar com a Comissão de Jornalistas pela Igualdade Racial (Cojira),m junto a pessoas negras e começo a pensar a questão racial de uma forma mais sistemática e política, porém, isso ainda não era o meu trabalho como jornalista. Eu trabalhava com economia, depois trabalhei com educação e só depois desse mochilão em 2017, que meus textos começam a refletir a militância que já existia e que já era muito forte pra mim. A partir do momento que muitas fichas vão caindo, eu também quero fazer uma mudança estética, eu passo a usar mais tecidos afros, passo a me comunicar mais com esse universo, começo a ter mais amigos negros por meio dos trabalhos que eu vou fazendo. Então, tudo isso vai se tornando mais forte na minha vida e chega um momento que eu não consigo mais escrever sobre outra coisa, eu preciso, tenho essa urgência de escrever sobre as nossas histórias e o Guia Negro surge dessa urgência. Ter o próprio veículo é dizer “Isso é importante sim, eu vou escrever e vai ter um público que vai ler”.

RA- O meio jornalístico aqui no Brasil ainda é chefiado e ocupado majoritariamente por pessoas brancas. Isso limita muito ainda questões de interseccionalidade dentro das pautas e também interfere numa falta de diversidade (outras narrativas) no corpo do time que produz conteúdo. Você já passou por vários veículos, como você enxerga essa mudança gradual na imprensa que aos poucos vai mexendo em estruturas coloniais que ainda vêem pessoas negras e a população indígena como subalternos?

Eu costumo dizer que essa mudança ela ainda é muito tímida, né? Porque principalmente nesse ano, que eu chamo “o ano do antiracismo”, vi algumas contratações tímidas de veículos de comunicação para estagiário e repórter. Não vi nenhum veículo contratando editor, nenhum veículo tendo poder de chefia, o poder de mando na mão de uma pessoa preta. Então eu acho que a gente ainda caminha a passos lentos. Tentaram-me contratar como repórter num determinado veículo grande para ganhar abaixo do piso eu falei: “cara, isso não é inclusão, eu tô há dez anos no mercado, obrigado”. Acho que essa tentativa ainda é muito tímida e às vezes surge para cumprir uma tabela de que os veículos são diversos, quase como uma cota, mas uma cota  “vocês ficam aí, a gente fica aqui e tudo vai continuar assim”.

Eu acho que a questão racial não é mais tão ignorada, ela ganhou uma urgência. Falta ter mais fontes pretas falando nas matérias, não só sobre racismo, mas sobre qualquer outro assunto. Falta ter matérias de personagens negros em notícias positivas, isso é um caminho que a gente ainda precisa conquistar.

RA – Mesmo estando em alta questões de antirracismo, existe uma resistência quando profissionais negros buscam patrocínios para suas produções.  Fazer conteúdo independente também envolve muitos desafios como o dinheiro mais limitado, o alcance das postagens diante de um algoritmo racista, etc. Entretanto, também possui fatores interessantes. Gostaria que você comentasse sobre esse o “ônus e bônus” da sua caminhada.

Nossa, essa questão do produtor de conteúdo independente é muito interessante, porque ao mesmo tempo que você tem uma liberdade de produção (tanto o Guia Negro quanto o Guia Negro Entrevista são projetos feitos sem grana) muitas vezes as pessoas acreditam que tem um patrocínio por trás, mas são projetos que a gente acredita e que não faço sozinho. É feito por amor, mas é óbvio que a gente quer ser remunerado pelo nosso trabalho, é óbvio que adoraria viver disso e não ter que fazer outros tipos de trabalhos para ganhar dinheiro. Acho que o bônus é ter essa liberdade.

Já o ônus é não poder se dedicar mais, pois tem que ter um tempo para fazer outras coisas, ganhar dinheiro, é sentir que às vezes esse assunto não é interessante paras marcas ou para um maior número de pessoas. Existe uma frustração de você fazer um material que você sabe que tem um potencial, que é um conteúdo bom, mas aquilo só chegou a 500 visualizações no YouTube, por exemplo, ou só 300 pessoas leram. Aos poucos vou entendendo que o meu público é mais qualitativo do que o de quantidade. Gosto de fazer o que eu faço e vou continuar, assim, independente de ter apoio financeiro ou não, independente de ter dias que eu penso em desistir, eu não me vejo fazendo outra coisa hoje.

RA- Você está à frente da Black Bird Viagens, uma plataforma de turismo e representatividade que oferece experiências em locais onde a cultura negra é extremamente viva. Porém, muita gente (negros e brancos) nem sabe que, por exemplo, o bairro da Liberdade, em São Paulo, foi a primeira periferia da capital, habitada por escravizados libertos nos séculos 18 e 19. E vocês fazem esse tipo de passeio que na verdade são verdadeiras aulas. Como viajante, a iniciativa de empreender na área surgiu com as suas vivências pelo mundo? Como é feita a escolha dos locais e todo roteiro de viagem que vocês oferecem? Quais são seus lugares favoritos no mundo?

A Black Bird surgiu de uma necessidade de contar a nossa história. Quando morei no Atacama, que eu contei o episódio de não conseguir trabalho, eu inventei um trabalho pra mim. Lá no Atacama as pessoas não sabem da cultura indígena, que é muito forte, das lendas, dos mitos, de como é viver no deserto e tudo isso eram coisas que estavam me povoando naquele momento e que eu precisava contar. Daí, elaborei um citytour pra fazer essa caminhada pela cidade, foi um sucesso, as histórias foram sendo enriquecidas pelas pessoas locais e pelo meu trabalho de jornalista. Quando eu voltei pra São Paulo, eu voltei com essa necessidade de contar a história preta da cidade, porque eu tinha ouvido parte dessas histórias em 2009. Quando eu ouvi pela primeira vez do bairro da Liberdade, de outros lugares, outros personagens que a gente conta na caminhada, eu tive uma impressão de que eu não conhecia aquilo, porque eu não sou paulistano, não nasci em São Paulo. Com o passar dos anos eu percebi que ninguém conhecia aquelas histórias e eu pensei que estava na hora da gente contar e aí surgiu a vontade de fazer a “Caminhada São Paulo Negra”. Foi o primeiro produto da Black Bird, e a gente começou esse trabalho coincidentemente no mesmo mês que a estação e a Praça da Liberdade mudaram o nome pra Japão-Liberdade, que era um novo apagamento histórico.

Depois fomos para Salvador exatamente por eu passar tanto tempo na cidade. A gente contou as histórias do Pelourinho sobre esse ponto de vista da negritude, das histórias e assim os nossos passeios falam do período da escravização, falam das dores, mas também a gente fala das delícias. E aí a gente também quis ir para periferia de Salvador, a gente foi pro subúrbio ferroviário e agora estamos preparando novos roteiros, porque a gente quer continuar essa expansão em novos bairros.

Sobre um dos meus lugares preferidos no mundo, eu gostei muito da África do Sul, foi um país que eu me conectei muito e acho que é um país muito parecido com o Brasil. As pessoas são muito amáveis e parecidas com a gente fisicamente, é um país diverso, têm pessoas brancas, têm pessoas negras retintas, têm pessoas negras de pele clara, indianos, chineses, pessoas de várias partes do continente africano. A África do Sul economicamente é um dos países que tem uma das economias mais fortes, então é uma boa miscelânea e também uma mistura de paisagens. E Salvador é o meu lugar no mundo, acho que é um dos lugares que eu me sinto em casa, é engraçado isso, eu me sinto voltando pra casa todas as vezes que eu volto para Salvador.

Não posso deixar de falar do centro de São Paulo, quando eu descobri que a região da República era uma pequena África, eu passei a frequentar mais os bares africanos, os restaurantes, comprar tecidos, camisetas, roupas, eu passei a interagir mais com essa nova cultura que é tão forte, tão rica, tão bonita e que é tão pouco falada e às vezes marginalizada pelos grandes veículos.

RA- Viagens, livro, programas de entrevista, reportagens… Quais são seus projetos futuros?

Estou com muita vontade de fazer um podcast, eu sou essa pessoa inquieta que não está contente com o que tem, quero abraçar o mundo. Fiz uma segunda edição do “Dias pela estrada”, que é o meu primeiro livro,  quero contar a história preta de São Paulo em livro e também sobre ser um corpo negro no mundo. O Guia Negro Entrevista continua, a gente não tem previsão de parar as novas temporadas. Meu sonho era ter um programa de viagem, um “Guia Negro Viagens”.

RA- Por fim, a clássica pergunta feita para todos os seus entrevistadores. Durante esse 1 ano de “Guia Negro Entrevista”: Guilherme, o que é ser um corpo negro pelo mundo?

Essa resposta do ser um corpo negro no mundo ela é uma resposta em construção, cada vez a gente vai responder alguma coisa porque a gente está se entendendo como esse corpo negro no mundo, e cada dia ele é uma coisa.

Eu acho hoje ser um corpo negro no mundo, é ser esse corpo possível. Eu sou muito feliz de ser quem eu sou, eu sou muito feliz de poder me conectar com as minhas histórias e de poder ver as minhas histórias quando eu encontro um outro irmão preto, de ver que a gente carrega essas histórias no nosso corpo, na nossa fala, no nosso DNA, na maneira como a gente se veste, nos nossos cabelos, eu sou muito grato por essas conexões. Eu sou muito feliz, estamos construindo uma nova história. Acho que tem uma revolução em curso e ela não tem volta.

Nunca fiz questão de falar sobre o racismo, porém não quis ser paralisado por ele, eu acho que a gente precisa discutir, entender todas as formas que o racismo tenta nos paralisar, mas a gente precisa valorizar as nossas belezas e precisa também entender que a gente é muito potente e muito revolucionário. Então, eu acho que ser um corpo negro no mundo hoje é também o que eu aprendo dessas entrevistas, dessas matérias.

Lembrei agora da resposta do ator Antônio Pitanga para essa pergunta, ele fala que ia ser um capoeirista mental. Eu vou te responder isso fazendo uma viagem para me divertir e contando sobre isso num blog. Acho que é essa a minha revolução também, me permitir fazer coisas que para a branquitude são tão normalizadas e que para nós negros são tão desafiadoras.

Por isso que eu não gosto muito dos adjetivos “forte”, “resistente” e “lutador”. Eu gosto de ser uma pessoa e eu sei que o corpo preto é um corpo político, então ele nunca vai conseguir ser só um corpo ou só uma pessoa, ele sempre vai ser uma pessoa negra e nessa negritude eu quero que esteja carregada não só o ônus do racismo, mas eu quero que esteja carregada toda a herança cultural e toda a riqueza e todo o sistema de pensamento que veio nessa diáspora africana.