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“Medo mesmo, de morrer”, relata Líder Comunitária sobre operação policial na Gamboa de Baixo, em Salvador (BA)

Moradora detalha rotina de terror vivida por moradores do bairro desde o dia 15 de janeiro, após morte  de um comandante da Polícia Militar
Imagem: Otávio Santos / Secom PMS

Por Matheus Souza

Uma operação policial realizada na última quarta-feira (21) levou medo e violência para o bairro da Gamboa de Baixo, em Salvador (BA). Apesar de ter se tornado um importante ponto turístico e cultural da cidade, a comunidade continua sendo alvo recorrente da truculência policial.

Ana Caminha, líder comunitária no bairro, é dona de um comércio na região e relata os dias de terror que os moradores têm passado desde a tradicional festa da Lavagem do Bonfim, realizada no dia 15 de janeiro. A pedagoga relata que após o homicídio de um comandante da polícia militar durante a festa, a polícia tem atribuído a autoria à supostos criminosos que morariam na Gamboa e utilizado isso para invadir residências e agredir moradores.

Quinta-feira (15)

O crime em questão ocorreu na noite da quinta-feira, na Avenida Lafayete Coutinho, conhecida popularmente como Contorno, que fica ao lado da comunidade da Gamboa. O capitão Osniésio Pereira Salomão, de 37 anos, foi vítima de uma tentativa de assalto e trocou tiros com um criminoso, que também foi a óbito.

“Após a festa do Bonfim ocorreram vários problemas, inclusive assaltos na região, e culminou na morte do comandante. Após a morte desse agente, houve a prisão de duas pessoas, e na televisão a polícia estava responsabilizando a comunidade por isso. Parece que eles precisavam dar uma resposta à sociedade, eles estavam precisando confirmar que a terceira pessoa estava na gamboa”, conta Ana.

A líder comunitária relata ainda que os tiroteios em operações policiais na Avenida Contorno são frequentes, e que após esse episódio a violência só piorou. “Os meninos estavam sendo retirados de dentro de casa debaixo de porrada, acusados de serem parte de facção, uma situação terrível.”

Domingo (18)

No domingo, pela tarde, a pedagoga explica que a comunidade estava tranquila quando foi surpreendida com tiros. Houve correria entre moradores e visitantes. Um dos disparos atingiu o freezer de uma moradora. Por ter problemas de visão, a mulher não percebeu o buraco deixado pela bala, que foi encontrada por um parente. 

“Quando a gente viu, a bala tinha pego dentro da casa, no freezer de uma senhora que trabalha com vendas. Ela tem baixa visão. No momento dos disparos, várias pessoas correram para baixo da casa dela. O genro acabou vendo a bala no freezer. A situação está nesse nível”, conta.

Quarta-feira (21)

Na quarta-feira ocorreu a maior operação até então, com uma grande equipe de policiais civis. Lanchas da Marinha também foram utilizadas. Ana relata que no caminho para a comunidade encontrou alguns agentes e pediu para que eles fossem mais cuidadosos durante as abordagens: “Encontrei com alguns dos policiais e pedi que eles tivessem mais cuidado com as pessoas da comunidade e segui meu caminho, fui abrir meu comércio.”

Pouco depois, os moradores souberam através de um telejornal que a Guarda Civil Municipal estava se dirigindo até a comunidade para fechar o comércio da região, numa ação integrada entre a Prefeitura de Salvador e a Secretaria de Segurança Pública da Bahia (SSP-BA). Sob o comando do Tenente-Coronel da Polícia Militar Gabriel Neto, a operação foi realizada pelo 18º Batalhão de Polícia Militar e pela 16ª Companhia Independente de Polícia Militar do Comércio.

“O pânico aumentou porque percebemos que [a ação] iria ser bem pior, envolvendo o fechamento de estabelecimentos por conta de alvarás. Passamos uma semana de pânico e de medo. As crianças não saíam mais na rua. Você subia e dava de cara com a polícia, era abordado, apanhava. Eu não tenho que dar conta de traficante, esse não é meu papel. A gente só queria que esse trabalho fosse feito de forma respeitosa. A gente tem medo mesmo, de morrer”, desabafa a líder comunitária.

Durante a ação, três ferros-velhos foram interditados, materiais foram apreendidos, um posto de gasolina foi autuado e outros três estabelecimentos receberam notificações para encerrar suas atividades. Um homem monitorado por tornozeleira eletrônica foi preso na comunidade, a polícia alega que encontrou porções de drogas e aparelhos celulares com o suspeito.

O secretário da Secretaria de Desenvolvimento Urbano (Sedur), Sosthenes Macêdo, afirmou à imprensa que as operações na região serão mantidas.

Clima de Medo

No último domingo (25), Ana relatou que a rotina na comunidade da Gamboa de Baixo está voltando ao normal, porém os moradores ainda temem ao sair na rua. “Hoje a gamboa está tranquila, o comércio está normal, mas as pessoas ainda estão com medo. Mesmo que não seja um morador ‘inocente’ a obrigação da polícia é conduzir à delegacia, não matar, agredir. Não é fazer o mesmo que o tráfico faz”, conta.

Na última sexta-feira (23), houve uma reunião de moradores da comunidade com o Conselho Estadual de Proteção aos Direitos Humanos da Bahia. Foi a primeira vez de uma reunião do Conselho nesse formato, acompanhada pela equipe técnica do PPDDH – Programa de Proteção aos Defensores de Direitos Humanos, Comunicadores e Ambientalistas. 

Os líderes comunitários da Gamboa apresentaram e protocolaram uma carta construída coletivamente por moradores e moradoras, denunciando as ações policiais irregulares e violentas efetuadas no bairro.

A reunião contou com uma escuta atenta por parte de conselheiros e conselheiras do Estado e da sociedade civil. Entre os encaminhamentos, foi definida a realização de uma escuta territorial na comunidade, com a presença do Conselho, no dia 29 de janeiro, além do agendamento de nova reunião para aprofundar o diálogo e discutir medidas de proteção.

“A gente está articulando uma visita na comunidade, tentando fazer um processo de proteção mesmo, porque do jeito que está, estamos temendo mortes”, finaliza Ana.

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