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Prontuários do Juquery revelam como racismo e eugenia marcaram a história da psiquiatria em São Paulo

Pesquisa mostra que pessoas negras internadas no antigo hospital psiquiátrico morriam mais e recebiam menos altas. Especialistas apontam uso da medicina como instrumento de controle social
Imagem: Complexo Hospitalar de Juqueri, em Franco da Rocha-SP. Crédito: CONDEPHAAT – Conselho de Defesa do Patrimônio Histórico, Arqueológico, Artístico

Por Catiane Pereira*

Um artigo publicado pela Folha de S. Paulo revelou como práticas racistas e teorias eugenistas influenciaram os tratamentos realizados no antigo Hospital Psiquiátrico do Juquery, em Franco da Rocha, São Paulo, uma das maiores instituições psiquiátricas do país durante o século XX. Documentos analisados por pesquisadores mostram que pessoas negras internadas no local eram tratadas a partir de concepções que associavam raça à degeneração moral e mental.

Estudo conduzido pela socióloga Rosana Machin Barbosa, da Faculdade de Medicina da USP, analisou prontuários das duas primeiras décadas do Juquery e apontou desigualdades raciais nos índices de mortalidade e cura. Pessoas negras internadas morriam em proporção maior do que pacientes brancos e recebiam menos altas médicas. A pesquisadora também identificou casos de pacientes que passaram anos sem atendimento médico adequado.

Segundo o levantamento, quase todas as internações eram feitas por ação do Estado, e não por decisão familiar. Para Barbosa, o modelo psiquiátrico da época estava ligado a uma lógica de “limpeza social”, que buscava retirar das ruas aqueles considerados indesejáveis pela elite paulista.

Os prontuários do início do século passado trazem descrições marcadas pelo racismo científico da época. Em um dos registros, uma mulher negra internada em 1911 foi descrita como exemplo de “alcoolismo da raça preta”. Outro documento classificava um homem negro como “degenerado”. As expressões refletiam a influência das teorias da eugenia, corrente pseudocientífica que defendia o “aperfeiçoamento racial” e teve forte impacto sobre a medicina brasileira no período.

Inaugurado em 1898 como Asilo de Alienados do Juquery, o hospital surgiu em meio às transformações urbanas e sociais provocadas pela expansão econômica paulista após a abolição da escravidão. Para especialistas ouvidos pela Folha, a psiquiatria passou a ocupar um papel de vigilância e exclusão social, principalmente sobre pessoas pobres, negras e marginalizadas.

A historiadora Maria Clementina Pereira Cunha, autora do livro O Espelho do Mundo, afirma que o hospital foi criado em um contexto em que a recém-instalada República buscava estabelecer mecanismos de controle social apoiados na ciência. Segundo ela, a medicina passou a legitimar práticas de segregação em nome da ordem pública.

A expansão dessas ideias ganhou força em 1926 com a criação da Liga Paulista de Higiene Mental, organização instalada dentro do próprio Juquery. O grupo promovia campanhas públicas contra a mistura racial, religiões afro-brasileiras, imigração considerada “indesejada” e relações homoafetivas.

O historiador Gustavo Tarelow, pesquisador da história da psiquiatria, destaca que a entidade defendia medidas como esterilização compulsória de pessoas com deficiência e exames pré-nupciais obrigatórios. A organização foi liderada pelo médico Antônio Carlos Pacheco e Silva, diretor do Juquery entre 1923 e 1937.

Embora a teoria eugenista tenha perdido força após a Segunda Guerra Mundial e a condenação internacional das práticas nazistas, o modelo manicomial permaneceu por décadas no Brasil. O Juquery funcionou até 2021 e se tornou símbolo das violações cometidas em instituições psiquiátricas baseadas no isolamento e na exclusão.

Para os pesquisadores e movimentos da luta antimanicomial, revisitar a história do Juquery também significa reconhecer como o racismo atravessou as políticas de saúde mental no Brasil e deixou marcas profundas sobre populações negras.

*Com informações da Folha de S.Paulo

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