O 1º Prêmio de Jornalismo Afirmativa é uma iniciativa do Coletivo de Mídia Negra Afirmativa, que premiou produções jornalísticas de jovens profissionais e estudantes de comunicação, selecionadas entre os anos de 2016 e 2017, cujo tema foi  “A Juventude Negra Comunica o Direito à Vida”.

Thiago, Wesller e Eduardo nunca se conheceram. Talvez, dois deles ainda viverão essa experiência no futuro. O terceiro não terá essa oportunidade – Eduardo foi assassinado. Os três chegaram a morar no mesmo solo, na cidade de Toledo, localizada na região oeste do Paraná. Uma cidade de pouco mais de 120 mil habitantes, fundada por colonizadores alemães e italianos. Um lugar tão pequeno como esse, aparentemente, não teria lugar para jovens pertencentes a classes tão negligenciadas – negros e homossexuais. E não teve. Thiago mudou de cidade, Wesller muda-se todo dia e Eduardo assiste a tudo de outro lugar.

Esses garotos não foram capazes de mudar a cultura de Toledo. Talvez, eles não sejam capazes de mudar o próprio destino. O que pode acontecer, porém, é uma mudança através da história. Thiago e Wesller, para não passarem pelo mesmo processo de Eduardo – que sofreu, sofreu e, no final do dia, acabou se tornando estatística – elegeram a arte seus advogados particulares. Toda a violência, toda a opressão sofrida, todo o cinza que tentou cobrir o preto da cor de suas peles, será combatida com cores, com arte e com vivência. Thiago é artista, Wesller é performista, Eduardo continua otimista.

O CASO EDUARDO SERENINI DE MOURA

Na manhã de sábado, 10 de abril de 2016, a população de Toledo foi surpreendida com um caso jamais visto nos noticiários locais: um jovem estudante de Pedagogia foi encontrado morto. A manchete em si não parece tão atrativa, tendo em vista que jovens morrem todos os dias em todas as cidades do país e a mídia banaliza o homicídio.

Porém, bastou um pouco de desenvolvimento na história para que o caso Eduardo Serenini de Moura não se tornasse mais um no quadro de estatísticas. O jovem era negro, assumidamente homossexual, portador de uma deficiência que o acompanha desde seu nascimento. Quem o conhecia, sabia de sua incapacidade em reagir a uma agressão. O rapaz não era capaz de correr, muito menos de desferir um soco. Esse mesmo jovem foi encontrado degolado, com visíveis sinais de tortura pelo corpo, estirado em uma rodovia no interior de Toledo.

Após investigação realizada pela Polícia Civil local, alguns fatos apontaram para aquilo que muitos tinham certeza: tratava-se de um crime de ódio. Eduardo se relacionava há algum tempo com o autor do crime. Na trágica noite, câmeras de segurança flagraram o jovem saindo de uma agência bancária minutos antes do ocorrido. Tudo levou a crer que uma suposta frustração financeira, aliada a um distúrbio muito comum em boa parte da população brasileira atual – o ódio – foram suficientes para que a vida de um jovem fosse interrompida.

Jovem foi brutalmente assassinado em Toledo no Paraná

A ARTE E A COR DE THIAGO

O ex-estudante de Publicidade e Propaganda Thiago Azambuja poderia ter tido um destino diferente. Negro, homossexual, foi vítima de agressões por parte de membros de sua própria família. Conceitos religiosos misturaram-se com a incapacidade de pensar. Essa combinação trouxe um resultado esperado: um caso de violência relevante, mas que cai no esquecimento popular.

Thiago, porém, decidiu que não cairia na mesmice. Não se tornaria audiência para portais policiais, nem seria homenageado por políticos conservadores. Thiago decidiu seguir em frente. Como ele mesmo conta, as repressões que ele imputava a si próprio, não o atrapalhariam mais. O ‘veadinho’ da escola, o garoto que precisou trabalhar em ambientes hostis para suprir a ausência do pai, que faleceu em meio a sua adolescência, esse garoto decidiu não aceitar mais as imposições que lhe colocavam.

“Quando eu descobri que eu gostava de moda e desenhar roupas, veio um clarão na minha cabeça onde toda minha vida fez sentido”, reflete. A barragem que viveu em frente aos seus olhos durante todo esse tempo estava sendo derrubada devagar. Thiago possui um brechó online. Nele, toda sua imaginação pode ser colocada em prática. Os traços desiguais, às vezes distorcidos, de seus modelos, talvez um reflexo daquilo que sua mente foi obrigada a processar durante todos esses anos, agora, são suas ferramentas de trabalho.

O trabalho, nesse caso, libertou Thiago de uma realidade comum para pessoas com histórias similares às suas. “Eu percebo uma relutância nas pessoas em aceitar certas coisas – como as roupas não terem gênero, por exemplo – e acho que a arte como meio de comunicação pode ajudar a mudar esse pensamento, essa construção social”, analisa Thiago.

Medo já foi uma palavra muito recorrente em seu vocabulário. Medo de morrer por conta de ódio, medo de preconceito, medo de apanhar, medo de não ser aceito pela própria família. Hoje, o medo de Thiago é outro. “Eu tenho um pouco de medo de morrer e não deixar nada de ensinamento ou alguma mensagem de mudança e resistência”, revela. Trata-se, agora, de um medo otimista. Um medo que impulsiona o garoto a seguir seu caminho.

Ilustração feita por Thiago Azambuja

O MEDO E A DOR DE WESLLER

Ao ser questionado sobre suas informações pessoais, pergunta primária em qualquer entrevista, Wesller não economizou. Falou sua idade, seu peso, sua altura e terminou com um ‘bicha, gordo e negro’. Um forte exemplo de auto aceitação, mas que nem sempre foi assim. Aliás, foi muito diferente disso. Nascido no Mato Grosso, Wesller teve grandes dilemas para enfrentar.

“Me entender enquanto negro foi outro desafio. Ouvir ‘você é moreninho, branco demais para ser negro’, mas sempre negando meus traços, ‘e esse nariz de batata? E esse cabelo, como você lava? Não fede?’, dentre tantos outros absurdos que se possa imaginar”, confidencia. Wesller não tem marcas corporais que venham a justificar agressões físicas. Militante político em favor da comunidade negra, pobre e LGBT, Wesller conhece bem seus direitos e os órgãos responsáveis para a proteção de seus semelhantes.

Hoje, estudante de Ciências Sociais, participante de diversos conselhos ligados à juventude e filiado a um partido político, Wesller possui intelecto e influência o suficiente para travar suas próprias batalhas. Porém, ele não faz isso sozinho, ele tem uma ajuda. Uma ajuda que só aparece à noite e atende pelo nome de Demônia Azul.

Antes de chegar lá, é importante contextualizar a vida de Wesller até o momento de sua transformação. Seja na escola, seja no emprego em uma indústria de alimentos ou em uma empresa de ônibus, Wesller sempre precisou ser alguém que ele não é. O cabelo sempre bem cortado. A roupa sempre bem passada. Os ambientes compostos, majoritariamente, por homens. Os conceitos já estabelecidos impedem que ele seja apenas ele. “O medo de existir, de andar de mãos dadas com meu namorado, de sair com batom vermelho. Sofro por criticarem meu cabelo, pedindo que eu o corte”, relata Wesller.

O medo de ser quem é, de certa forma, impulsionou Wesller a, finalmente, se tornar quem ele realmente é. Os trabalhos convencionais deram lugar aos trabalhos como dragqueen. As luvas descartáveis e o caderno de anotações deram lugar ao batom azul, aos adornos coloridos e muita agressividade. A Demônia Azul nasceu em um momento onde a opressão, às vezes, partia até mesmo de seus semelhantes.

“A Demônia surge em um contexto de violência e opressão. Na primeira vez que ela apareceu, soube que minha foto estava circulando em grupos de gays, em Toledo, chamando-a de Satanás. Percebi que não importa onde for, o combate às opressões se faz necessário e urgente”, aponta. A Demônia Azul, nada mais é do que uma resposta a tudo aquilo que o mundo moderno se tornou. Se as pessoas se sentem assustados, acuados ao ver um casal homossexual com seus dedos entrelaçados ou aos beijos, Wesller resolveu dar um motivo real para que o preconceito e a violência se assustem.

O FATOR PSICOLÓGICO

Casos como o de Wesller e Thiago não são anormais. Todos os dias, pessoas ao redor do país sofrem preconceitos das mais diversas espécies. Vítimas desse tipo de violência costumam passar por processos que levam a diferentes desfechos. Alguns sucumbem à pressão e colocam um fim em suas próprias vidas. Outros carregam fardos pelo resto de suas vidas. Existe uma terceira via que é a arte.

Vítimas de violência canalizam suas dores e mágoas e colocam tudo no papel, em forma de pintura, desenho, música, textos, enfim, uma enormidade de possibilidades. A psicóloga Kelin Fuhr, especialista em assistência social e abuso sexual, corrobora Thiago ao afirmar que a arte, aliada ao sofrimento, auxilia no combate a futuras violências. “A arte empodera, dá visibilidade às causas e chama atenção para aquilo que está sendo dito, mostrado ou manifestado”, explica.

Muito se fala a respeito de como as vítimas de diversos tipos de violência devem proceder. A discussão, porém, deveria voltar-se a origem do problema: agressores não devem agredir. Kelin conta que crimes relacionados ao ódio, sejam eles ódio à sexualidade ou cor de uma pessoa, muitas vezes condiciona-se a uma condição mal esclarecida dentro do próprio agressor. “É um mecanismo de defesa, ‘escondendo’ os próprios conflitos. Porém, nem todos agem dessa maneira. Muitos internalizam o preconceito e o pratica de forma velada”, comenta a psicóloga.

Wesller continua em Toledo, enquanto Thiago mora em Curitiba. Ambos fazem questão em compartilhar que a violência do dia a dia, lentamente, perde força. Os olhares tortos na rua, os cochichos ao pé do ouvido no ônibus não machucam como machucavam. Hoje, eles possuem uma armadura. Uma armadura colorida, regida por traços, que vem sendo fabricada aos poucos. Se o Eduardo tivesse ao menos uma chance de usá-la…

Gustavo Vieira Nascimento

MATÉRIAS DO PRÊMIO DE JORNALISMO AFIRMATIVA

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