O 1º Prêmio de Jornalismo Afirmativa é uma iniciativa do Coletivo de Mídia Negra Afirmativa, que premiou produções jornalísticas de jovens profissionais e estudantes de comunicação, selecionadas entre os anos de 2016 e 2017, cujo tema foi  “A Juventude Negra Comunica o Direito à Vida”.

“Essa onda de cantar pra mim é novo, tá ligado? Eu comecei com a intenção de expor algumas coisas que tavam me incomodando. Uma delas é que a maior parte da galera que cresceu comigo já não tá mais aqui entre a gente. Quando percebi, já tinham várias músicas escritas.” É com esse depoimento que Cilas Lessa inicia sua canção “Minha Conduta”. Mais conhecido como Macgyver MC, o rapper de Feira de Santana retrata nas suas letras e beats a vida, os sonhos e os desafios que a juventude negra enfrenta, seja no Feira VII – bairro onde ele mora – seja em qualquer outro canto do país.

O Atlas da Violência de 2018, produzido pelo Ipea e pelo Fórum Brasileiro de Segurança Pública (FBSP), demonstra um crescimento no número de mortes de jovens entre 15 e 29 anos no Brasil. Nessa categoria, 33.590 jovens foram assassinados em 2016, sendo 94,6% do sexo masculino. Esse número representa um aumento de 7,4% em relação ao ano anterior. A maioria dessa juventude é negra. Macgyver é um dos músicos que utiliza sua arte para retratar essa situação. Em “16 de Abril”, por exemplo, ele narra o momento em que soube que um dos seus amigos fora assassinado durante a greve da Polícia Militar na Bahia de 2014. “Passei a me apresentar cantando rap porque tenho desejo de mudar várias coisas na nossa realidade”, afirma. “O hip hop é uma ferramenta muito útil e pode ajudar não só os jovens como qualquer indivíduo a fazer essa transformação.”

 

Se a violência rasga a vida e os direitos do povo preto, a reação também é firme e combativa. Assim como Macgyver, a juventude negra está cada vez mais empoderada e em luta para resistir às diversas formas de opressão às quais é exposta. É ocupando ruas e escolas, se organizando em coletivos e utilizando a arte para a demonstrar toda sua rebeldia que os jovens negros e as jovens negras se levantam para defender seus direitos e exigir as transformações necessárias para a construção de uma sociedade mais justa.

A luta racial também é questão de classe

“O debate de raça e classe no Brasil é algo indissociável, porque se formos analisar a nossa formação social e econômica, está na gênese da constituição do capitalismo no país a escravidão”, afirma Thays Carvalho, 30 anos, também de Feira de Santana. “A classe trabalhadora, a juventude que está nas periferias em sua maioria é negra, e isso é resultado da nossa formação enquanto povo. O desafio é traduzir isso em organização e nas lutas concretas”, diz.

Thays é membro da Coordenação Nacional do Levante Popular da Juventude, movimento de jovens que se nacionalizou em 2012, e hoje está presente em 25 estados, inclusive na Bahia. O objetivo do grupo é organizar a juventude para construir um projeto popular de sociedade e defender os direitos dos trabalhadores, trazendo pautas como a luta contra o extermínio da juventude negra.  “O Levante desde o seu surgimento se afirmou como um movimento de juventude popular, que quer estar em todos os espaços onde a juventude está, mas principalmente nas grandes periferias.”

Na Bahia, o Levante Popular da Juventude tem experiências interessantes de formação, organização e luta envolvendo a temática racial. Um dos exemplos é o CAFIN – Contribuição Africana na Formação da Identidade Nacional, curso de formação organizado pelo movimento entre 2015 e 2016 que envolveu um público oriundo de cerca de 20 cidades baianas e até mesmo de outros estados. O curso debateu a influência da cultura afro-brasileira na formação da nossa identidade enquanto povo. Além disso, desde 2015 é realizada anualmente a Semana Nós por Nós. O evento promove atividades de solidariedade e trabalho voluntário nas periferias com o protagonismo de seus moradores, como reconstrução de praças e quadras de esporte, oficinas de grafitti e batucada.

 

Thays analisa a importância do empoderamento dos jovens negros e das jovens negras nas diversas lutas do país, sobretudo no último período. “A juventude negra tem se organizado e ocupado o espaço político, seja através da arte que é produzida nas periferias, a exemplo do hip hop, seja no movimentos de jovens ou estudantil”. Por fim, ela aponta: “Vai ser da juventude que irá surgir a síntese dessa articulação entre classe, raça e gênero e a construção de um projeto político de país.”

Gênero e Diversidade Sexual são transversais nessa luta

Negro e LGBT, William Martins, Coordenador-Geral do Diretório Central dos Estudantes da Universidade Estadual do Sudoeste da Bahia (UESB),  destaca a relação entre os debates racial e de diversidade sexual, problematizando que para o sujeito negro e LGBT as contradições sociais são ainda maiores. “O mercado de trabalho para a população LGBT é precário, mas com a população negra é ainda mais. Muitas travestis estão nas ruas se prostituindo, e elas são em maioria pobres e negras”.

Dados da Associação Nacional de Travestis e Transexuais (Antra) de 2015 são alarmantes: 90% desses sujeitos estão se prostituindo no Brasil, e uma das causas é o preconceito da sociedade com relação a elas. Para William, a principal saída para esse problema é a organização: “A juventude necessita se organizar junto com a classe trabalhadora para fortalecer a luta contra o racismo, machismo LGBTfobia e contra o capitalismo, e assim construir uma sociedade com novos homens e novas mulheres”.

O tema da prostituição também toca diretamente a vida e os direitos das mulheres. Para Leia Odara, da comunidade quilombola Barro Preto, em Jequié, e membro do Coletivo Feminista Maria das Virgens, a opressão sobre a mulher, sobretudo a mulher negra, pouco mudou desde a escravidão: “Ainda somos vistas, tocadas, pensadas, tratadas como entes sem consciência. Somos vistas como escravas (modernas) que não usam grilhões, mas que ainda são humilhadas, subjugadas pelas relações atuais de dependência e exploração disfarçada de democracia racial, de cordialidade, obediência, etc”.

Dentre as pautas que envolvem o feminismo e a mulher negra, Leia destaca: “O feminismo que se reivindica popular assume estas pautas e a tarefa de recolocar a mulher negra no campo do protagonismo histórico, reconhecendo o feminismo que brota da luta diária e real de nossas mulheres negras”.

Leia sintetiza de forma clara a necessidade do protagonismo da juventude negra nos nossos dias não só como questão de empoderamento, mas também de sobrevivência: “Nossa juventude negra precisa se desenvolver e se apropriar desse protagonismo histórico que só a ela pertence. Sem isso, continuaremos a encher os presídios, as filas do desemprego, da miséria, do analfabetismo, enchendo os cemitérios e valas comuns. Por isso a profunda necessidade de mobilização, organização e atuação de nossas meninas e meninos negros.”

Lorena Carneiro Almeida Andrade, estudante de Jornalismo da Universidade Federal do Recôncavo da Bahia e militante do Levante Popular da Juventude

MATÉRIAS DO PRÊMIO DE JORNALISMO AFIRMATIVA

Mídia, a sustentação do genocídio

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Meninas e jovens negras no alvo do genocídio*

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Minha palavra vale um tiro

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Desmilitarização: uma pequena revolução no Brasil

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O que há por tras das grades

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Equipe Afirmativa

A Revista Afirmativa chega para somar. Dar opinião e ser canal de opinião, dos silenciados pela grande mídia, a tradicional, a hegemônica. Somo mais um horizonte afirmativo para o jornalismo da diversidade e do direito à informação. Somos a Juventude Negra Voz Ativa! Há de ter mais verdade, humanidade e poesia nos jornais… Nós acreditamos!