Por Monique Rodrigues do Prado* / Imagem: Estevão Ribeiro

A branquitude só ganha solo fértil de discussão quando o lugar tem conflitos de caráter étnico-racial, ou seja, seria possível discutir relações étnicas se não há brancos, negros, indígenas ou orientais? Com efeito, a branquitude apresenta-se como player das relações raciais.

Segundo aponta Ruth Frankenberg a branquitude é produto da história e se manifesta em uma dimensão para além do individuo, visto que compõe um sistema que formata a identidade racial. Nessa estrutura construída historicamente o sujeito branco assume a identidade de “ser humano universal” marcando a representação do “ser humano ideal.” Dada essa universalidade, Edith Piza elucida que esse sujeito se coloca na condição de “não-marcado” ou “invisível” já que não se enxerga-se como racializados.

Assim, o individuo que se assemelha com ela beneficia-se da estrutura de dominação e superioridade, sistema este que aparta tudo que é diferente, negando a pluralidade em seus espaços de poder, reservando ao outro o lugar de subordinação.

De outro lado, o “outro” é aquele que não se parece com a estética de mundo imposta pela branquitude e, portanto, ele não deve ser reconhecido como ser humano. Por isso, as condições de escassez de humanidade “do outro” não causa espanto.

Me lembro na infância: quem era negro era chamado de “neguinho”, mas quem era branco era chamado de “alemão”. No contexto descrito veja que “neguinho” não tem nacionalidade. O tratamento pejorativo visa destituí-lo de humanidade ou pelo menos diminuí-lo enquanto menos humano. “Alemão” não só constitui aspectos diretos relacionados à identidade fenotípica do sujeito branco, como também denota o caráter da nacionalidade europeia.

Vale dizer que a branquitude pressupõe uma perspectiva eurocentrada, isto é, o fenótipo do sujeito branco europeu foi o modelo adotado pelo ocidente como ideal para se alcançar o poder e o prestígio. Em poder leia-se: a predominância nas narrativas, nas instituições, nas religiões e nos territórios.

Para funcionar, a branquitude precisa negar o seu privilégio. Isto é, como detém a hegemonia do estado político-jurídico e dos meios de comunicação, a branquitude opera a partir da esterilização do aparato histórico, estético e narrativo do negro, razão pela qual o negro vai aparecer estereotipado no seu conto narrativo do mundo, seja como “passivo”, “manso”, “vadio”, “servil” ou “bandito” e, especialmente, distante da racionalidade.

Do ponto de vista prático, a branquitude enfatiza que não está vendo tais vantagens históricas, naturalizando a superioridade como consequência do seu próprio esforço ou mérito. Entretanto, o mérito cai por terra, pois além dela ser a detentora da narrativa, promovendo reiteradamente a opressão, a branquitude também opera à luz da passividade quando lhe é conveniente. Exemplo disso é a ocultação dos personagens negros, omitindo a cor de personalidades históricas como Machado de Assim, André Rebouças, Virgínia Bicudo e Chiquinha Gonzaga.

Outras consequências flagradas nessa estrutura é a ausência ou aparição qualitativa e quantitativa no audiovisual de narrativas em que negros apareçam de outras formas que não pegando em armas ou sendo presos. No caso das mulheres em condições de serviencia doméstica ou sexual.

Nas instituições, sobretudo no alto escalão do poder publico e das grandes corporações as pessoas negras não aparecem ou se aparecem são em minoria. Nesses espaços mais uma vez a branquitude reserva a subordinação ao “outro”.

Há também a demonização das religiões que não fazem parte da hegemonia, como no caso das comunidades tradicionais e de matriz africana, as quais são hostilizadas ou viram motivo de chacotas e desrespeito.

Sobre territórios, sempre me ecoa a frase da atriz e poeta Elisa Lucinda na série Diálogos Ausentes: “Se tem territorialidade, tem apartheid. Sem tem onde encontrar preto e onde encontrar branco, tem apartheid. A gente fica fingindo que não vê, mas é porque não vê mesmo. Tem uma cegueira.” (sic). Onde estão os negros nos Jardins, no Itaim Bibi e em Higienópolis. Se eles estão lá, por que estão servindo café ou nas portarias?

Uma resposta sintomática poderia estar diretamente relacionada à ausência de instrução de pessoas negras. Ocorre que, o IBGE já deu conta de que os negros fazem parte dos 50% das pessoas que ingressam nas universidades.

Para ser antirracista e pensar políticas a este respeito, é fundamental compreender a dialética entre branquitude e racismo constituindo o que os intelectuais têm chamado de “branquitude crítica”, ou seja, ser alguém que desaprova tirar vantagens de um sistema que produz não só a discriminação direta – aquela que promove o xingamento e humilhações, mas que não compactue com o racismo estrutural, de forma a rechaçar a manutenção de seus privilégios trabalhando ativamente para desatar esse sistema, pois compreendeu que os pontos de partida estão historicamente desiguais.

 

*Advogada. Integrante da Comissão de Direitos Humanos da OAB – Subseção Osasco. Participa do Comite de Igualdade Racial do Grupo Mulheres do Brasil e da Educafro.