Por Maria das Dores do Rosário Almeida*

Imagem: Marcello Casal jr.

Assim como eu, você pode estar impressionada(o) com o aumento de mulheres negras e quilombolas, de todas as regiões do Brasil, que se candidataram ao pleito eleitoral de 2022, como Matintas Pereiras, ao lançarem seus nomes, suas histórias, seus corpos e suas experiências de vida, profissional e de ativismo para concorrerem a uma vaga no legislativo. 

São trajetórias que se entrelaçam com a identidade dessa anciã guerreira da narrativa brasileira, muito presente no imaginário e nas histórias amazônicas — a Matinta Pereira. Com a capacidade de se transformar em pássaro à noite, ela voa de um lado para o outro, vigiando as matas, os rios e lagos, arrebentando estremecedores assovios, que podem ouvidos nas mais longínquas distâncias, para denunciar os destruidores da biodiversidade, quer dizer, todas as formas de vida animal e vegetal. É o que inspira e incentiva essas candidatas a traçarem esse sonho desafiador.

No meu ponto de vista de mulher negra amazônida, para compreender o porquê dessa revoada para a representatividade na política brasileira, priorizando o voto em mulheres negras progressistas, sem esquecer o protagonismo de mulheres negras na III Conferência Mundial contra o Racismo, a Discriminação Racial, a Xenofobia e as Formas Conexas de Intolerância, realizada pela Organização das Nações Unidas (ONU), em Durban na África do Sul, em 2000, aponto como parâmetros quatro motivações dos últimos oito anos em que as mulheres negras foram potências e que impactaram direta ou indiretamente a vida da mulher negra e quilombola do Brasil. 

A primeira motivação foi a Marcha das Mulheres Negras contra o Racismo, a Violência e pelo Bem Viver, que aconteceu 2015, em Brasília, e foi idealizada na Amazônia nortista, pela ativista do Centro de Estudos e Defesa do Pará (Cedenpa), a Nilma Bentes. Essa marcha mudou a vida das mulheres negras brasileiras, por mostrar o seu poder de mobilização e sua força política, deu visibilidade à negritude feminina, atraiu a juventude para a estética negra e proporcionou o surgimento de vários grupos e coletivos de mulheres negras em todas as regiões do país. Logo, a Marcha de 2015 foi um convite às mulheres negras a seguirem seus passos ancestrais para lutar por direitos e assumir o protagonismo de suas próprias histórias.

A segunda motivação foi a morte da vereadora negra Marielle Franco, assassinada em 2018 por defender a maioria sub-representada nas políticas públicas e por denunciar a corrupção em sua cidade, ameaçando a estrutura política da elite da Câmara de Vereadores do Rio de Janeiro daquele momento. Como aponta Maria Luiza de Carvalho Nunes, contadora de histórias e militante do Cedenpa, a Matinta Pereira é uma mulher negra, pobre, solitária, o seu grito de socorro é em forma de assovio. Do mesmo modo, o grito de Marielle surpreendeu seus algozes, que imaginavam que a vida de uma mulher negra seria insignificante, a sua morte seria apenas uma estatística. Ao contrário do que imaginavam, a repercussão tornou público o debate da violência política da mulher negra, com a questão de sua representação política.

Você conhece alguma mulher negra candidata (cis ou trans) nesta eleição? Não precisa ser cientista político para falar que as candidaturas de mulheres negras são solitárias, sofridas e abusivas, principalmente as de mais idade que ousam disputar o poder legislativo. Mesmo aquelas que encontram a energia vital na família, chegam ao final do processo eleitoral fragilizadas, com a saúde mental em frangalhos, pois a violência política tem diversas formas de revelar-se.

Julie Ballington, na Cartilha de Prevenção à Violência Política contra as Mulheres em Contextos Eleitorais, diz que: “a violência contra as mulheres na vida política pode ser entendida como qualquer ato ou ameaça de violência de gênero que resulte em danos ou sofrimento físico, sexual ou psicológico às mulheres, que as impeça de exercer seus direitos políticos, seja em espaços públicos ou privados, incluindo o direito a ocupar cargos públicos, ao voto secreto, à associação e reunião, a realizar campanhas livremente e a exercer sua liberdade de opinião e expressão”. 

Assim, hoje, o grito de Marielle é expresso na rebeldia que fortalece a mulher negra, fazendo germinar, em todas as regiões do país, assovios de Matintas Pereiras, com o desejo de dar continuidade ao seu legado e à sua agenda no legislativo. 

A terceira motivação foi a pandemia da covid-19, que ceifou mais de 680 mil vidas brasileiras. Este momento pandêmico vivenciado pelo mundo impactou direta e indiretamente a vida de todas(os). Principalmente das mulheres negras, que tiveram de mostrar sua resistência por estarem entre a população mais impactada, lembrando, ainda, que a primeira pessoa vítima da covid-19 no Brasil foi uma mulher negra. Além de tudo, não se pode deixar de mencionar a situação de vulnerabilidade econômica em que elas permanecem mesmo após a pandemia, ocasionando desemprego e fome.

Dados da Rede Brasileira de Pesquisa em Soberania e Segurança Alimentar e Nutricional (Rede Penssan), de novembro de 2021 a abril de 2022, mostram que, no Amapá, 32% da população padece de insegurança alimentar. Porém as mulheres negras tiveram importantíssimo papel para que essa porcentagem não fosse maior. O Instituto de Mulheres Negras do Amapá (Imena), durante os anos de 2020 a 2022, com apoio de instituições parceiras, ofereceu diretamente ajuda humanitária a 560 diferentes mulheres.

Ainda na pandemia, houve seguimento da rotina de violências contra as mulheres e aumento considerável de feminicídios. A cada oito minutos, uma mulher sofreu violência, sendo mais da metade negra. Além disso, o acesso a direitos básicos, como a saúde, também foi dificultado ou negado nesse período. 

Pelo fato de a região Norte ser vista como a periferia do Brasil, no Amapá, as mazelas da covid-19 não tiveram repercussão nacional. Como o transporte para o estado é realizado somente por avião e barco, consequentemente, faltou álcool, luvas, máscaras, equipamentos de proteção individual de primeira necessidade. Ademais, os governantes não deram a merecida atenção à pandemia, foram medíocres as orientações, mesmo básicas, como procurar os serviços de saúde apenas no caso de estar com falta de ar. Nesse cenário, as mulheres negras, com a sabedoria ancestral de seu povo, recorreram aos conhecimentos empíricos, através das plantas medicinais e seus produtos balsâmicos (elixires, xaropes, chás e outros), que foram imprescindíveis para curar as dores e aumentar a imunidade de muitas(os), salvando vidas.

Agora, pensa comigo, as mulheres negras, as Matintas Pereiras, estão conscientes do alcance que seus assovios podem chegar? Acredito que sim. Com projetos desenvolvidos em alcance local, podem torná-los de alcance macro. Estão prontas para assumir cadeiras nos legislativos para atender os anseios dos menos assistidos por conhecerem as suas realidades.

A quarta motivação vem da mobilização de redes nacionais negras, a exemplo da Articulação de Organizações Mulheres Negras Brasileiras (AMNB), da Coalização Negra por Direitos, da Coordenação Nacional de Articulação de Quilombos (Conaq) e organizações estaduais como Imena, no Amapá, o Odara – Instituto da Mulher Negra, da Bahia, e Instituto Update, de Pernambuco, por meio de iniciativas de formação sobre conteúdo das eleições, sobre a atual conjuntura, visando o fortalecimento de candidaturas de mulheres negras, trans e indígenas e o combate às desigualdades político-regionais-eleitorais no país.

Essas iniciativas lançaram mensagens de incentivo, a exemplo da Carta Aberta à sociedade: Questões Inegociáveis para Mulheres Negras e Indígenas na Disputa por Poder, escrita durante o Encontro de Mulheres Negras Nordeste-Amazônia: Qual o Nosso Projeto de Nação?, organizado pelo Odara. O encontro reuniu mulheres negras e indígenas das regiões Nordeste e da Amazônia do Brasil, e a carta destaca que essas mulheres têm um projeto de nação, orientado na cosmologia da ancestralidade e no Bem Viver, capaz de respeitar a igualdade entre os povos. 

Também trouxe mensagens reflexivas para quebrar o silêncio do nosso povo preto, das mulheres negras sobre as candidaturas negras. A reflexão, grosso modo, diz assim, se negros e negras são a maioria da população, não podemos aceitar ser a minoria a ocupar espaços de poder, não podemos aceitar a ser a maioria silenciada no poder.

O psicodramista Maurício Camilo diz que parece que estamos desautorizados a refletir sobre política ou mais grave ainda, de nos convertermos pela representação política daquelas mulheres que protagonizaram a atual conjuntura. A fala de Maurício é preocupante, refere-se ao que a violência política, o racismo estrutural, o machismo e o sexismo fazem com candidaturas de mulheres negras e também com as pessoas que estão ao seu redor, desautorizando-as a enxergar as mulheres negras como potências, que compõem o grupo da maioria silenciada no poder. 

Isso se dá de várias maneiras: quando as pessoas viram os ombros para a política partidária, sem falar da força da representação política que essa mulher tem; por medo de serem canceladas, não curtem, não comentam, não compartilham informações de candidatas negras, sem pensar na força do alcance de sua representatividade política. Além disso, mulheres negras com cargos no legislativo têm suas ações para o coletivo vistas não como compromisso, mas sim como obrigação, no sentido do servir, e isso é cruel, enquanto a candidatura de homens e mulheres não negras é vista como privilégio a serviço da coletividade. 

Enfim, acredito que as Matintas Pereiras, estão prontas para a disputa pelo poder político para além do imaginário escravista, estão preparadas a desenvolver um projeto político coletivo de nação. Mas é necessário sempre se discutir a democracia representativa: qual é a democracia que nos sustenta? O que é democracia para nós? Quem está autorizada(o) a falar em nosso nome? 
Assim, as Matintas Pereiras devem sonhar e conquistar o legislativo. As motivações de protagonismo anteriormente citadas para reflexão, entre tantas outras, são provas do nosso potencial de transformar realidades excluídas. Por isso, ressalto a defesa de candidaturas negras comprometidas com a pautas das mulheres negras e da Amazônia.

Este artigo faz parte da Série de Narrativas: Maiorias Silenciadas no Poder! Uma realização da Plataforma dos Movimentos Sociais pela Reforma do Sistema Político, em parceria com a Revista Afirmativa, por meio da Campanha Quero Me Ver No Poder, com Coordenação Editorial e Curadoria de Alane Reis.

* Mestra em Desenvolvimento Sustentável junto aos Povos e Terras Tradicionais pela Universidade de Brasília (UnB); especialista em História e Cultura Africana e Afro-brasileira pela Faculdade Atual; licenciada e bacharela em Economia Doméstica pela Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro (UFRRJ); pesquisadora de origem comunitária; ambientalista; militante da Articulação de Organizações de Mulheres Negras Brasileiras (AMNB); cofundadora do Instituto de Mulheres Negras do Amapá (Imena) e da Rede Fulanas – Negras da Amazônia Brasileira (NAB); filiada à Associação Literária do Estado do Amapá (Alieap). E-mail: mulheresdoigarape@gmail.com.