Por Rosane Borges*

Ilustração: Cassio Tisseo

2022 é um ano de efemérides: Bicentenário da Independência, Centenário da Semana de Arte Moderna, 200 anos de Maria Firmina dos Reis (mulher negra, autora do primeiro romance brasileiro)… Entre esses acontecimentos, a eleição presidencial figura como a grande vedete, destacando-se como um evento decisivo para a repactuação do jogo democrático. Desde o processo de redemocratização, não se testemunhava um pleito eleitoral tão cercado de simbolismos e expectativas.

Os motivos para a excepcionalidade já são sobejamente sabidos: desde 2019 fomos lançados a um ambiente regressivo dinamizado por ataques à democracia e pelo fascismo à brasileira. As eleições de 2018, de caráter inequivocamente plebiscitário, abrigaram um variegado de interesses que, sob o manto do surto anticorrupção, revelaram um passado que não passa e, por ser perene, teve força espantosa de produzir o laço social: o racismo e o patriarcado de sempre não tiveram vergonha de dizer o seu nome. 

Passado o pleito de 2018, escrevi um artigo alertando para o fato de que desde 2014, pelo menos, Jair Bolsonaro tinha amplificado seu raio de ação, tocando em vários nervos da sociedade brasileira de tal modo que soube prometer o Eldorado para camadas aparentemente heterogêneas: aos cidadãos de bem, aos cristãos, acentuadamente os neopentecostais, anunciou uma cruzada em prol “da tradicional família brasileira”, o combate veemente da promiscuidade e depravação promovidas pela esquerda degenerada e pelos sujeitos desviantes (pessoas trans, lésbicas e gays); aos que se viram em estado de insolvência, ele prometeu a volta do “mérito”, uma vez que as perdas materiais dessas pessoas foram provocadas por “privilégios” concedidos a negros, mulheres e outras minorias, ao mesmo passo que disse que combateria o coitadismo no qual esses grupos se escoram para arrancar “benesses” do Estado.

Ilustração: Baptistão

Ao  mercado, que reagiu todo afirmativo à ascensão de Bolsonaro, a promessa, subscrita pelo economista Paulo Guedes, foi a de execução de um receituário neoliberal que se alastra em deserto de direitos e justiça social.  Parte do empresariado do setor produtivo é outra camada que também viu, com o “projeto de mudança” que despontava no horizonte plúmbeo, a real possibilidade de desobrigação com quaisquer direitos trabalhistas (fim do 13º salário? Reforma trabalhista a todo vapor? Reforma previdenciária radical? Que maravilha!). Donos de empresas como Havan, Riachuelo, Centauro, não nos deixam esquecer de como a banda toca.  

Cidadãos de bem, defensores da família e propriedade, os insolventes pertencentes às classes média e baixa, o mercado neoliberal, que se alimenta do capitalismo de crise, a elite empresarial predatória viram-se, todos, atados por um fio que os mantiveram coesos: o surto anticorrupção que encontrou no antipetismo todas as formas de negação da Política e de aniquilamento do Outro.

Mesmo com todos os indícios e sinais do pior que estava por vir, parte do setor progressista brasileiro desconsiderou a magnitude do problema. Apesar das evidências, muitos avaliavam, entre análises e apostas, que seria improvável o avanço e aprovação de uma extrema direita na presidência da República. Quando muito, se dizia que ela chegaria às raias das casas legislativas, resignando-se ao baixo clero, loteando as bancadas do boi, da bíblia e da bala; o ruidoso Jair Bolsonaro derreteria feito sorvete com as campanhas nas ruas, afirmavam alguns entusiasticamente.

Outros, mais assertivos ainda, insistiam que, para o segundo turno, melhor seria um confronto com o capitão do exército porque ele não resistiria a uma frente ampla (que não se compôs) e não teria tempo de TV suficiente para sustentar suas aberrações (mas a TV pouco ou nada significou nestas eleições). Já Bolsonaro, todo pimpão, dizia que o adversário dos sonhos seria um candidato do PT, descartadas as possibilidades de disputa com Lula, porque a vitória não só seria certa, como acachapante.

Como se vê, deu ruim. E muito ruim. Experimentamos quatro anos inimagináveis e que ganhou contornos ainda mais dramáticos e funesto com a emergência de uma pandemia. Perseguição a operadores dos direitos humanos; fome; pobreza; queda nas taxas de educação; sistema de saúde sucateado; colapsado por conta do tratamento da covid-19; rebaixamento da inteligência de uma nação; aumento da violência policial contra jovens negros; aumento exponencial do feminícidio; esgarçamento total da rede de proteção de direitos; ataques sistemáticos à imprensa e à ciência, desprezo pelo saber e cultura… Somando-se tudo e um pouco mais, setores e formadores da opinião pública  chegaram à conclusão tardia de que seria preciso salvar a democracia e o Brasil de um governo autocrático, cujo governante tem um perfil pedestre que porta os piores traços de uma sociopatia criminosa.

2022 bateu à porta: o que fazer?

Sem sombra de dúvidas, essa pergunta comporta uma única resposta: a deposição de quem é responsável direto pelas mais de 600 mil mortes da pandemia, pela construção de uma subjetividade regressiva talhada pelo ideal do jagunço: de um país já extremamente violento, conseguiu-se extrair a seiva da brutalidade e torná-lo ainda mais violento. Tapa e bala, desferidas contra vulneráveis (mulheres, negros, populaçào LGBTQIAP+), tornaram-se cifras que marcaram a sociabilidade brasileira. O imperativo da mudança de comando é incontornável!

Se o que está em jogo é a retomada de um governo com aspiração democrática, a vitória de Lula não significa um porto de chegada capaz de abrigar nossas reivindicações, sonhos e desejos. Ela deve ser vista como um porto de partida para um longo processo de manufatura de algo novo. 

Reconhecer que não se trata de um porto de chegada, mas de partida, supõe que com o governo eleito deveremos cultivar uma postura radical: “sejamos realistas, peçamos impossível”. A radicalidade e o impossível não significam extremismo e desconexão com a realidade. Pelo contrário. 

Considerando que “em várias partes do mundo, vemos pessoas lutando por bandeiras de transformação estrutural em todos os níveis, colocando sua imaginação a serviço da recusa radical da ordem que nos governa”, (Comitê Invisível, 2022) é preciso que dialoguemos com um governo democrático movidos por esse princípio. A vitória de Lula não pode nos dissuadir de que “ainda não é a hora”.

A hora é exatamente agora, uma vez repactuado minimamente o jogo democrático, já que  em governo autocrático não há diálogo e possibilidade de construção coletiva. Se a volta de Lula significa reacomodação da democracia, tal reacomodação deve significar o abrigo de propostas e projetos engajados na participação efetiva de todos. 

2023 representa, portanto, uma oportunidade ímpar para reivindicarmos ainda mais, pois quanto menos exigirmos, menos teremos. Quanto mais apontarmos as lacunas e os déficits daquilo que ameaça ou posterga a consubstanciação do jogo democrático, mais conseguiremos fazer deste país um território com possibilidade de se emancipar do passado que não passa. Reconhecer esse postulado como crível é tornar legítimas vozes e ideias que vocalizam projetos considerados inexequíveis pela lupa da realpolitik: estado plurinacional, Bem Viver, pluralidade institucional…

Os terrivelmente outros do mundo, com ênfase nas mulheres negras e indígenas, vêm, por meio da plataforma Bem Viver e de outros projetos, insistindo que é só quando enunciamos o impossível que se constrói aquilo que ainda não está formatado na rubrica já posta, é que conseguimos avançar do ponto de vista civilizatório. 

O porto de partida de 2023 exorta cada um de nós a sair das rubricas que subscrevem o já dado e a habitar lugares ainda não existentes, fazendo desses lugares um território de reinvenção da Política. Certamente esse topos ainda não mapeado se impõe como fonte de inspiração, respiração e aspiração para que a vida institucional brasileira se converta, em um tempo futuro, num porto de chegada. Enquanto não tivermos condições de aportar, radicalizemos!

Este artigo faz parte da Série de Narrativas: Maiorias Silenciadas no Poder! Uma realização da Plataforma dos Movimentos Sociais pela Reforma do Sistema Político, em parceria com a Revista Afirmativa, por meio da Campanha Quero Me Ver No Poder, com Coordenação Editorial e Curadoria de Alane Reis.

* Jornalista, pesquisadora do Colabor (ECA-USP), professora convidada do Diversitas (FFLCH-USP), coordenadora da Escola Longa, autora de diversos livros, entre eles: Espelho infiel: o negro no jornalismo brasileiro, Mídia e racismo, Esboços do tempo presente, e Fragmentos do tempo presente.