“Eles arrumaram e não lavaram a calçada. É coisa de preto, né”, declarou o vereador

Por Anna Julia Fagundes

Imagem: Afonso Braga

Na última terça-feira (03), o vereador recém-desfiliado do PSB, Camilo Cristófaro fez uma declaração racista durante uma reunião na Câmara de Vereadores de São Paulo. O acusado estava com seu microfone ligado quando foi flagrado dizendo: “Eles arrumaram e não lavaram a calçada. É coisa de preto, né”.

Em consequência do flagrante, o responsável pela sessão, Adilson Amadeu (União Brasil), solicitou para que o vereador desligasse o seu áudio. Entretanto, a vereadora Luana Alves (Psol), rebateu a ordem e pediu para que a reunião fosse suspensa: “Não vai desligar, não. Porque acabou de ficar registrado […] Não, não, não. Acabou de ficar registrado, Gilson. Não. Não dá”, rebateu a vereadora.

O acusado, por sua vez, justificou suas atitudes na reunião do Colégio de Líderes da Câmara, afirmando que a fala se tratava de uma brincadeira com um amigo na qual tem intimidade. Posteriormente, declarou que cometeu um erro e pediu desculpas: “Eu peço desculpas a toda população negra por esse episódio que destrói toda minha construção política na busca de garantia à cidadania dos paulistanos. Apesar de ter tido uma fala racista, eu não sou racista em minhas atitudes e com o tempo vocês terão a oportunidade de constatar isso”, declarou o acusado.

Após o pedido de punição do vereador, o PSB de São Paulo desfiliou Camilo Cristófaro nesta quinta-feira (05), seguindo um pedido do próprio parlamentar. De acordo com informações divulgadas pelo partido, o pedido equivale a uma expulsão e foi tomado em comum acordo com as principais lideranças da legenda.

A Polícia Civil de São Paulo confirmou a abertura de inquérito para investigar o vereador Camilo Cristófaro pelo crime de racismo, também nesta quinta. Em documento apresentado à Delegacia de Crimes Raciais e Delitos de Intolerância (Decradi), as vereadoras Luana Alves, Érika Hilton, Paula Nunes e Celso Giannazi afirmam que “o termo ‘coisa de preto’ apresenta ofensa extensiva a toda a população negra”, tendo uma conotação depreciativa, assim solicitando que o caso seja investigado como crime de racismo.

Vereadora Elaine Mineiro aponta a impunidade como um limitador na luta antirracista

Em uma entrevista à Revista Afirmativa, Elaine explica que apesar da pauta racial existir, ainda não possui a abrangência e seriedade necessária nos espaços judiciais: “O que a gente espera é que o tema racial e o racismo em especial, seja tratado dentro da Câmara e nas instâncias do Judiciário, sendo tratado como ele é, como um crime. Racismo é crime, injúria racial é crime”, defende.

Elaine também aponta que estes comportamentos racistas só deixarão de acontecer a partir do momento em que os responsáveis não passem impunes pelos atos. “Somente a responsabilização destas figuras pode começar a fazer com que tenham uma percepção que cometer um crime como o racismo não os deixará impune, que a sociedade não tolera mais”, explicou.