Ação busca cobrar respostas sobre o inquérito do caso Gamboa que está em curso na Corregedoria da Polícia Militar, cujo prazo limite de 60 dias está prestes a finalizar

Da Redação

Imagem: Felipe Iruatã

Na última segunda-feira (2), o IDEAS divulgou dados coletados sobre a letalidade policiais em Salvador e Região Metropolitana nos dois primeiros meses do ano. A organização da sociedade civil promove Assessoria Popular para ocupantes e trabalhadores de territórios negros e suas organizações. A organização registrou 104 mortes decorrentes de intervenções policiais, 60 óbitos ocorridos em janeiro e 44 em fevereiro.

A publicação acontece um dia depois de se completarem 60 dias da Chacina da Gamboa, no domingo (1), quando organizações da sociedade civil projetaram em prédios de Salvador imagens em memória de Alexandre, Cleverson e Patrick, em um ato simbólico.

A atividade é uma forma de cobrar respostas sobre o inquérito do caso Gamboa que está em curso na Corregedoria da Polícia Militar, cujo prazo limite de 60 dias está prestes a finalizar.  A mobilização também visa fortalecer a luta contra o genocídio do povo negro, as mães, familiares e comunidades periféricas mais atingidas pela letalidade policial.

O Governo do estado não disponibiliza informações a respeito dos homicídios praticados durante operações policiais, o que dificulta a compreensão das dinâmicas de violência no estado e a mobilização para que se mude essa realidade. De acordo com o Anuário Brasileiro de Segurança Pública, em 2020, Salvador foi o terceiro município com mais mortes por intervenção policial do país, atrás apenas do Rio de Janeiro e São Paulo. Foram 381 mortos, dos quais a SSP/BA divulgou apenas 23.

Em reunião com os familiares dos jovens mortos na Gamboa, representantes do movimento negro e Defensoria Pública do Estado da Bahia, no dia 08 de março, o Secretário de Segurança Pública firmou o compromisso de disponibilizar os dados de letalidade policial no Boletim Diário da SSP, o que não foi cumprido até o momento.

A falta de dados a respeito das mortes decorrentes da atividade policial da Bahia é um problema que dificulta a compreensão da dinâmica da violência no estado e, consequentemente, das análises e buscas por soluções eficientes. Por esta razão, o IDEAS Assessoria Popular, organização que assessora as famílias das vítimas, divulgou o apanhado de dados disponibilizados por veículos de comunicação a respeito das pessoas mortas pela polícia militar referentes aos meses de janeiro e fevereiro de 2022.

Dados coletados e resultados

Através de um apanhado de notícias disponíveis nos sites de veículos de comunicação, o IDEAS conseguiu reunir 104 mortes decorrentes de intervenções policiais, 60 óbitos ocorridos em janeiro e 44 em fevereiro nos municípios da Região Metropolitana de Salvador.

Das 104 mortes por intervenção policial, 103 vítimas eram homens, a exceção foi uma criança de 11 anos cuja família e a comunidade afirmam que foi vítima da letalidade policial. Destes, 55 ocorreram na Região Metropolitana e 49 nos demais municípios acima de 100 mil habitantes. Com destaque para Salvador (40 casos 38,5% da amostra coletada), Feira de Santana (10 casos – 9,6% da amostra coletada) e Vitória da Conquista (15 casos – 14,4% da amostra coletada). Juntos os três municípios respondem por 62,5% da amostra colhida.

O levantamento realizou uma classificação da raça/cor das vítimas, a partir de heteroidentificação sempre que haviam fotos das vítimas disponíveis, nos casos em fotos, 19 das 20 vítimas identificadas eram negras. Por ausência de fotografias, o levantamento não aferiu a raça/cor das demais 84 vítimas. Outro dado que chama atenção, aponta a pesquisa, é o fato de 91 casos da amostra não terem a identidade conhecida no momento do crime.

“Reconhecemos que os dados encontrados não dão conta da totalidade dos números das mortes por intervenção policial nas cidades apuradas”, diz um trecho do documento de contextualização dos dados do IDEAS. “Trata-se de uma tentativa de compreender a dinâmica da violência policial no estado, através de uma metodologia possível à sociedade civil. A SSP/BA possui a tecnologia para o processamento dessas informações com mais robustez, contudo tem se negado/omitido a disponibilizá-las”.

Ainda assim, a entidade afirma que pretende seguir atualizando e revisando as informações divulgadas e coletando novas nos próximos meses, a fim de contribuir para uma política de Segurança Pública baseada em dados.

Acesse a pesquisa completa aqui.

Relembre a Chacina da Gamboa

Uma ação policial tirou a vida dos jovens Alexandre Santos dos Reis, Cleverson Guimarães e Patrick Souza Sapucaia na madrugada do dia 01 de março. Os relatos das testemunhas informam que os policiais já chegaram atirando na comunidade, apesar das mães e moradores terem implorado para que Alexandre, Cleverson e Patrick não fossem mortos.

No período de oitiva na Corregedoria, testemunhas relataram que os policiais chegaram na comunidade atirando para cima e falando em tom de deboche para eles irem “até a mídia”. Chama atenção o fato de que um dos jovens havia sido torturado no ano anterior pelo mesmo policial que participou da operação que vitimou os três jovens na Gamboa em 2022.

Desde então, os familiares, amigos e comunidade da Gamboa de Baixo, apesar do sofrimento e traumas deixados pela perda desses jovens, têm se articulado clamando por justiça e para que não aconteçam mais operações violentas do Estado no território da Gamboa.