Em mais um episódio de racismo religioso, a Polícia Militar além de interromper a cerimônia que acontecia no terreiro de Pai Emerson, ainda o conduziu à delegacia dentro do camburão policial e não lhe deu o direito de ir com sua indumentária religiosa, o eketé

Por Elizabeth Souza

Imagem: Reprodução/Vídeo

O terreiro de candomblé Ilê Asè Alaketu Oluwáie, localizado no município de Franca, em São Paulo, teve uma celebração religiosa interrompida pela Polícia Militar. O babalorixá da casa, Pai Emerson, foi levado à delegacia dentro do camburão do carro de polícia e proibido de estar com seu eketé, indumentária sagrada, durante a condução. Em nota, o Ministério da Igualdade Racial informou que recebeu a notícia com “indignação” e confirmou que será realizada uma audiência com Pai Emerson no dia 02 de fevereiro. 

A investida ocorrida na última sexta-feira, 26, contra o babalorixá Emerson foi filmada e presenciada por frequentadores do Ilê. Durante o vídeo, divulgado pelas redes sociais da Ponte Jornalismo, o líder religioso teve seu corpo revistado e não pôde ir vestido com o seu eketé. “Isso é uma indumentária religiosa… vai comigo”, diz Emerson, que é retrucado em seguida. “O chapéu não vai… eu vou te prender”, diz o policial se referindo erroneamente à indumentária. Em seguida, Emerson aparece entrando no camburão sem o eketé na cabeça. 

De acordo com informações contidas no vídeo, a violação da cerimônia por parte da polícia ocorreu após um vizinho da casa ter feito uma denuncia por perturbação de sossego. Nas redes sociais, o caso gerou revolta. “7h da manhã de domingo e pastor aos berros em culto evangélico pode, né?”; “Vão acabar com a gritaria das vigílias? Vai vendo! É o mesmo que deter um padre e pedir para tirar a batina”, escreveram dois internautas. Comentários que questionam a diferença de tratamento por parte do Estado com religiões de matriz africana, tendo em vista que não é comum tais atitudes com crenças cristãs, como o catolicismo e protestantismo.

Posicionamentos

Em nota divulgada nas redes sociais, o Ministério da Igualdade Racial disse ter “recebido com indignação as notícias” e afirmou estar acompanhando o caso desde que recebeu informações sobre o ocorrido. O MIR informou ter realizado contato com Pai Emerson e também e oficiou à Corregedoria, a Ouvidoria e a Procuradoria Geral do Estado de São Paulo para apuração dos fatos. Além disso, foi marcada uma audiência com o babalorixá, no próximo dia dois de fevereiro. 

Procurada pela Afirmativa, a Secretaria de Segurança Pública de São Paulo (SSP-SP) através de nota informou que a Polícia Militar atendeu uma “ocorrência de perturbação de sossego” e que chegando ao endereço “fez contato com as partes e todos foram encaminhados à CPJ do município para elaboração do Boletim de Ocorrência”. O texto também comunica que “a PM instaurou procedimento investigativo para apurar os fatos. A SSP ressalta que a Corregedoria da corporação está à disposição para a formalização de denúncias”. 

Racismo Religioso

Além do Ministério da Igualdade Racial, a subseção da Ordem dos Advogados do Brasil (OAB) em Franca por meio de sua Comissão de Igualdade Racial também se posicionou em favor da liberdade religiosa, evocando o artigo 5º da Constituição Federal.  Nesse sentido, a OAB ressaltou “que o Estado brasiloeiro é laico e tem como preceito fundamental a dignidade da pessoa humana, que se conecta ao direito maior de pertencimento e existência na sociedade”. 

A reportagem também tentou contato com o advogado do Babalorixá Emerson, mas não obteve respostas até o fechamento desta matéria.