Baiana e primeira médica negra do país, Maria Odília tem sua história contada em documentário

Resultado da parceria entre a Maré Produções e a cineasta soteropolitana Mariana Jaspe, o filme foi lançado neste fim de semana na Mostra Olhar de Cinema - Festival Internacional de Curitiba (PR)

Por Andressa Franco

O documentário “Quem é essa mulher?”, resultado da parceria entre a Maré Produções e a cineasta soteropolitana Mariana Jaspe, foi lançado no dia 15 de junho na Mostra Olhar de Cinema – Festival Internacional de Curitiba (PR). A obra retrata a vida de Maria Odília Teixeira, a primeira médica negra do Brasil. O filme é um road movie, ou filme de estrada, filmado na Bahia, apresentando a jornada de uma figura histórica como elemento central da narrativa.

A história de Odília é contada através dos olhos de Mayara Santos, mulher negra, oriunda da periferia de Salvador e mestra em História pela Universidade Federal da Bahia (UFBA). No documentário, Mayara desvenda a vida de Maria Odília, nascida em São Félix do Paraguaçu, no Recôncavo Baiano, em 1884, apenas quatro anos antes da abolição. Filha de um homem branco, proveniente de uma família rica e tradicional, com uma mulher negra e filha de uma ex-escravizada.

A historiadora conta que Maria Odília se aproxima da medicina por intermédio do pai, o doutor José Pereira Teixeira, que já era um médico renomado quando sua filha nasceu. Odília, assim como seu irmão Joaquim Teixeira, seguiu os passos do pai. Legado familiar que se perpetuou, tendo os descendentes de Odília continuado o seu percurso na medicina, chegando à sexta geração de médicos e médicas.

Médica negra em um período ainda escravocrata 

Mayara ressalta ainda os desafios do período vivido por Maria Odília, no contexto pós-abolição, onde o Estado brasileiro não ofereceu nenhum projeto de inserção e reparação para a população negra.

“Odília viveu num período em que eram perpetuados, pela classe dirigente brasileira, o cerceamento de direitos, a repressão, a violência e a tentativa de continuidade da subalternização da população negra brasileira. Então, não é difícil pensar o quanto foi desafiador para uma mulher negra neste momento se tornar médica, além de desenvolver clínica e retornar à faculdade onde se formou para ser professora”, explica.

Filmado em cinco cidades baianas, o documentário traça um paralelo entre as trajetórias de Maria Odília e Mayara, duas mulheres separadas por um século. Mayara, uma mulher contemporânea, atualiza questões que Odília viveu, enfrentando também conflitos próprios do presente.

Um ponto alto do filme é a entrevista com o filho primogênito de Odília, que tinha 100 anos quando foi entrevistado e faleceu pouco tempo depois.

A diretora soteropolitana Mariana Jaspe, ganhadora do Kikito de Melhor Direção no Festival de Gramado, em 2023, enfatiza a importância dessa imersão na história de Odília.

“Levar a trajetória de Maria Odília, e grandes mulheres como ela, para as telas é essencial para nossa identidade. É parte do exercício de desconstrução de uma historiografia colonizada para a construção de algo nosso, brasileiro, do nosso povo.”, avalia. 

Através das lentes de Jaspe, o projeto busca oferecer uma perspectiva envolvente sobre a vida e a trajetória da médica pioneira. A diretora é conhecida por obras como: “Flordelis: Questiona ou Adora”, e o multipremiado curta-metragem “DEIXA”, protagonizado por Zezé Motta.

“Maria Odília é uma mulher negra que nasce com um sobrenome e uma posição social muito distinta do lugar que as mulheres como ela ocupavam. Ela era uma mulher negra circulando em espaços destinados apenas à alta sociedade em um Brasil ainda escravocrata”, observa Mariana.

A diretora conta que, além de primeira médica negra do país, Odília também foi a primeira professora negra do curso de medicina. “Quando menos se esperava, ela toma uma decisão sobre sua vida profissional e pessoal que hoje certamente seria lida como polêmica, muito pelo status que ela alcançou. A sensação é que Maria Odília era uma mulher que fazia o que acreditava que deveria fazer.”, completa. Anos depois, a médica torna-se ainda primeira-dama de Ilhéus, no Sul da Bahia.

Bahia como pano de fundo

A produção levou três anos para ser concluída, e a Bahia desempenha um papel crucial não só como cenário, mas como um elemento vivo que permeia toda a narrativa. Para Mariana, por se tratar de um filme de busca, o território já seria fundamental. Mas não para por aí. Foram diversas cidades visitadas: Ilhéus, Irará, Cachoeira, entre outras, em um processo que transformou Mayara.

Especificamente sobre Odília, a diretora acredita que as cidades denotam sua capacidade de reinvenção e altivez. O que fica claro em pelo menos duas situações. Quando, junto com o pai, parte para estudar em Salvador e segue sozinha lá. Depois, quando convence o marido a morar em Salvador. 

“Enfim, a transitar por essa Bahia não litorânea, nem imediatamente sertaneja, enseja formas de invenções e reinvenções das personagens em suas distintas construções narrativas”, reflete a diretora.

O filme tem roteiro de Mariana Jaspe, Muriel Alves com a colaboração de Flávia Vieira e Ricardo Gomes, que também assina a montagem. A direção de fotografia é de Fernando Marron e trilha sonora original de Fábio Stamato. A trilha sonora também conta com a canção despreconceituosamente, de Mateus Aleluia, uma reflexão sobre o amor.

‘Quem é essa mulher?’ é um projeto apresentado pelo Ministério da Cultura e Drogaria SP, através da Lei Federal de Incentivo à Cultura e patrocínio da Bayer. Conta com coprodução da CARNEFILME, realização da Maré Produções Culturais, Ministério da Cultura, Governo Federal da União e Reconstrução.

Além disso, o documentário recebeu apoio da Lei Federal de Incentivo à Cultura, com o patrocínio da Bayer e Drogaria São Paulo. 

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