Texto: Divulgação
No domingo de Carnaval deste ano, o Bloco Apáxes do Tororó irá retornar às ruas de Salvador (BA) pelo Circuito Osmar, no Campo Grande, reafirmando a festa como território de disputa simbólica, racial e política. Criado em 1968, o bloco ocupa um lugar singular na história carnavalesca ao articular referências indígenas, afro-brasileiras e populares em um contexto marcado, historicamente, pela exclusão de manifestações culturais de base comunitária. Este desfile, com o tema “Carlinhos Brown – A Volta do Rei de Oyó à Tribo Americana Apáxes do Tororó”, marca uma retomada construída após anos de instabilidade, ameaça de não desfilar e ausência de políticas públicas voltadas à preservação de blocos tradicionais.
A presença de Carlinhos Brown se insere nesse processo. O artista, cuja trajetória dialoga com identidade negra, ancestralidade e experimentação sonora, passa a atuar como elo entre diferentes tempos do carnaval, sem deslocar o protagonismo histórico do Apáxes. A parceria surge em um cenário de desigualdade estrutural que afeta diretamente blocos que não se organizam a partir de grandes patrocínios ou lógicas empresariais, mas da mobilização comunitária.
Ao longo de quase seis décadas, o Apáxes do Tororó afirma que enfrentou perseguições policiais, racismo institucional e sucessivos processos de invisibilização. Ainda assim, consolidou contribuições estruturais para o carnaval de Salvador, como a adoção de trio elétrico próprio adaptado à sua estética, a criação de serviços de bar nos trios e a presença de equipes de segurança e enfermagem durante o desfile, práticas posteriormente incorporadas por outros blocos.
O desfile contará com a participação de coletivos indígenas das etnias Kiriri, Xukuru-Kariri, Kariri-Xocó e Tupinambá. Além de figurinos inspirados nas indumentárias cerimoniais de povos de Abya Yala e em referências da realeza africana de Oyó, transformando o circuito em espaço de memória viva e afirmação política.
A retomada do Apáxes ocorre por meio de um esforço coletivo liderado por Adelmo Costa, presidente do bloco, em parceria com o multiartista Caboclo de Cobre e com a contribuição de João Paulo. A proposta envolve reinserção no circuito cultural e mercadológico sem abrir mão da identidade ancestral, buscando sustentabilidade financeira em um cenário historicamente desigual. Para viabilizar o desfile, o bloco colocou à venda abadás a preços populares, R$150,00 individual e R$250,00 a casadinha, disponíveis na plataforma Ingresso Simples e no perfil do @apaxesdotororo no Instagram.


