Por Francileide Araujo

 

No último sábado (23) uma situação surpreendeu os moradores do Corredor da Vitória, em Salvador (Ba). Na igreja Nossa Senhora da Vitória, localizada no Largo da Vitória, uma cerimônia de casamento que aglomerou mais de 30 pessoas sem máscaras. A situação causou revolta em todos que passavam pelo local.

Não é novidade o que aconteceu: sujeitos, ou neste caso uma família branca de classe média alta, sendo irresponsáveis e extremamente negligentes quanto a saúde do próximo, se importando somente com seus próprios. Pois a eles já é garantido os melhores acessos desde a invasão de 1500.

Em ligação ao 156, órgão municipal que acolhe denúncias de aglomeração em Salvador, os mesmos informaram que há um decreto municipal que permite a realização de casamento e cultos religiosos desde que tomem os cuidados necessários. Entretanto, não era a situação ali presente, onde aproximadamente 30 pessoas se aglomeravam dentro da igreja sem nenhum tipo de proteção, inclusive o padre. Os únicos que adotaram os métodos preventivos eram os trabalhadores que atuavam na cerimônia. Na primeira meia hora de cerimônia, em ligação para o 156, a atendente notificou que já havia outras denúncias sobre o mesmo evento, mas em nenhum momento alguma fiscalização foi até o local para conferir as denúncias.

Ao longo da cerimônia, vizinhos estavam em suas varandas observando indignados a movimentação, onde era visível que nenhuma norma de segurança estava sendo respeitada. Convidados sentados um ao lado do outro, padrinhos e madrinhas entrando abraçados sem nenhum cuidado. A viatura da polícia militar parou em frente a cerimônia, observou e seguiu pela Rua da Graça sem se dar o trabalho de atender o chamado da vizinhança. Os carros que passavam registravam em fotografia a cerimônia, moradores da Vila Brandão, comunidade resistente da região, olhavam chocados com a situação. E se fosse na Vila Brandão? As autoridades iriam passar pela frente e se isentar da situação? Pois o que acontece diariamente é que a polícia desce para Vila Brandão sem nem precisar de denúncia. Ela invade. Sem motivos. Somente invade.

Quando os noivos saíram a vizinhança se manifestou diante daquele absurdo. Foi explanado que já haviam mais de 20 mil mortos do Brasil, que o sistema de saúde estava em colapso, que havia mais de 340 mil infectados em nosso país. Ouvimos de uma madrinha, uma jovem mulher branca, que eles estavam celebrando a alegria. Alegria para quem? Para as mais de 20 mil famílias que choram por perderem seus entes queridos? Pelas pessoas que estão morrendo sem ter acesso a um leito de UTI? Dos corpos negros, indígenas, quilombolas e LGBTQ+ que estão mais uma vez como as principais vítimas? Do aumento expressivo do feminicídio e violência doméstica? Por ser o único país que não tem um Ministro da Saúde ocupando o cargo? Por um presidente que acha que o vírus que matou mais de 200 mil pessoas no mundo é só uma gripezinha? Não existe alegria nenhuma para aqueles que não têm como se proteger, para aqueles que dependem do SUS, para aqueles que mais uma vez são as principais vítimas desse projeto genocida do governo bolsonarista.

Eles sabem disso, eles fazem parte desse projeto. Pois se algum deles se contaminar terão condições de construir uma UTI na sala de seus apartamento luxuosos. Podem bancar um jatinho UTI. Acessar a rede privada de saúde. Por isso que eles se aglomeraram. Foi a elite branca que trouxe o vírus para o Brasil. Vírus que está matando a população vulnerável. A segunda infectada pelo Coronavírus na Bahia foi uma empregada doméstica que não foi dispensada após sua patroa, recém chegada da Europa, testar positivo para COVID-19. Consequentemente, a terceira e quarta vítima foi a mãe e o padrasto dela, que eram do grupo de risco.

Hora em que os convidados estão entrado na igreja, visivelmente sem nenhum equipamento de segurança.

Enquanto os moradores estavam manifestando suas revoltsa, os corpos negros que ocupam e resistem no Corredor da Vitória, foram hostilizados pelos convidados, os chamando de “maconheiros”, de serem “sem alegria” e tantas outras coisas. O que eles não entendem é que não dá para ter alegria com 1.000 famílias chorando todos os dias a perda de seus entes, pensando diariamente que pode ser alguém que conhecemos, que não teremos acesso ao SUS que está com seu colapso declarado desde o início da pandemia. Não dá para ter alegria quando somos as principais vítimas do projeto genocida.

Como estratégia para diminuir a imagem da aglomeração, os convidados foram divididos em grupos onde cada um saiu por um lado da igreja, a fim de disfarçar o número de convidados ali presente. Mas foram vistos e registrados. Foi registrado mais um capítulo da História do Brasil onde a branquidade atentou novamente contra a população preta e indígena e não foi penalizada. Não teve carro da fiscalização, não teve polícia, não teve nenhum tipo de repressão. Mas pergunto novamente, e se fosse na Vila Brandão? Se fosse num Terreiro em vez de uma Igreja? Se fosse pessoas negras em vez de pessoas  brancas? Será que não haveria repressão? Será que não haveria camburão?

Quando os brancos saíram da igreja e entraram em seus carros de luxo para deixar a cena do crime contra saúde pública, fizeram questão de abaixar seus vidros para reforçar os xingamentos contra aqueles que protestavam. Passavam sem pressa, sem medo e sem fuga. Toda a situação durou menos de 5 minutos, mas foi o suficiente para registrar mais um capítulo em que a branquidade reforça o projeto genocida. Foi o suficiente para entendermos quem atenta sobre os grupos socialmente minoritários.

Enquanto os bairros que tem mais concentração de pretos, como a Liberdade, sofrem ações mais duras de isolamento, o bairro da família do prefeito ACM Neto continua com o funcionamento normal. O Corredor da Vitória mantém sua rotina, com trabalhadores domésticos aglomerados nos pontos de ônibus indo para suas casas após o expediente, pois não foram dispensados pelos seus patrões, os idosos continuam levando seus cachorros para passear toda manhã e final de tarde, os jovens brancos, após suas aulas online, continuam se exercitando ao longo do dia. Tudo normal, sem repressão. A única preocupação das autoridades são as pessoas em situação de rua que não tem celular para baixar o aplicativo e acessar o auxílio do governo. São esses corpos que incomodam. Enquanto isso o metro quadrado mais caro do município está seguido a sua rotina normal. Rotina de desigualdade e racismo. Até quando?!