Três jogadoras do Tijuca Tênis Clube e o técnico do América-RN denunciaram terem sido chamados de macacos por espectadores na arquibancada

Por Andressa Franco

Imagem: (Divulgação/FPV)

A última semana foi marcada por dois casos de racismo no voleibol brasileiro, ambas na Superliga B, segunda divisão da principal competição do esporte no país. 

O primeiro aconteceu em uma partida feminina, na última sexta-feira (26), quando três jogadoras do Tijuca Tênis Clube, do Rio de Janeiro, denunciaram ter escutado a torcida do time adversário, o Curitiba Vôlei, emitir sons de macaco durante partida, que aconteceu no ginásio do Círculo Militar do Paraná. A central Dani Suco, a ponteira Camilly Ornellas e a levantadora Thaís Oliveira gravaram vídeo juntas contando o ocorrido em suas redes sociais.

“Era o segundo set, teve um rali, nós ganhamos, e eu fui para o saque. No momento em que eu estava batendo a bola, escutei, em alto e bom som, barulhos de macaco mesmo”, lembra Dani. “Não acreditei, olhei para trás e vi que eram muitas pessoas, mas não consegui identificar ninguém. Quando eu saí da quadra, perguntei para as meninas se elas tinham escutado, e disseram que sim”, continuou.

Dani conta que apesar de ter relatado as ofensas aos responsáveis pela partida, nada foi feito e o jogo continuou normalmente. O Curitiba Vôlei informou ter solicitado abertura de inquérito policial para apuração dos fatos.

Mas é da Conferência Brasileira de Voleibol (CBV) a responsabilidade de incitar qualquer punição esportiva ao mandante pela atitude da sua torcida. 

Em entrevista ao Ubuntu Esporte Clube, podcast do Globo Esporte, as jogadoras afirmaram que não deixariam o caso passar batido, e já terem se reunido com diretores da CBV para reunir o máximo de provas para encaminhar às instâncias cabíveis. “Ação precisa vir junto com o discurso. Se as pessoas não forem punidas, de nada vale nossa voz ter confrontado”, declarou Dani. 

Em nota, a CBV afirma “não tem poder punitivo e nem de polícia” e que repudia “qualquer tipo de preconceito ou ato discriminatório”. A Confederação também garantiu estar reunindo um material que “será encaminhado aos órgãos competentes (principalmente Ministério Público, autoridade policial, STJD e Comitê de Ética), para que sejam tomadas todas as medidas cabíveis no âmbito esportivo e perante o poder público e demais instâncias”.

Técnico foi vítima de racismo no dia seguinte

No dia seguinte, sábado (27), a competição masculina também registrou um caso de racismo. A situação ocorreu durante uma partida em Goiânia entre Goiás e América-RN. O técnico da equipe do América, Alessandro Fadul, interrompeu o jogo para informar ter sido alvo de ofensas racistas, chamado de macaco por alguém nas arquibancadas.

A interrupção irritou o árbitro, que lhe puniu com um cartão vermelho, o que também significa um ponto para o time adversário.

O homem acusado por Fadul não foi retirado do ginásio, e a Associação Esportiva Vôlei Pró, mantenedora do time goiano, negou em nota ter acontecido qualquer tipo de injúria. Já a CBV disse aguardar um posicionamento oficial do América e de seu técnico para seguir os trâmites necessários.

Atletas do vôlei cobram punição

Pouco depois das denúncias, atletas do vôlei passaram a se manifestar e dar repercussão ao caso nas redes sociais, cobrando investigação e punição pelos crimes.

Em vídeo publicado nas redes sociais, a central e bicampeã olímpica Fabi Claudino desabafou: “Não dá para aceitar mais, não dá para admitir porque se não isso não vai parar, isso vai continuar. […] Cadê o respeito ao atleta? Cadê o apoio à menina? E atletas, vamos começar a falar, vamos começar a se posicionar e se proteger se não nada vai mudar. ”

A atleta cobrou ainda uma postura enérgica da CBV. “CBV, pelo amor de Deus! Acorda, acorda, dá um jeito nisso aí […] Racismo é crime, pronto e acabou!”.

Serginho, líbero da seleção masculina e medalhista em quatro edições dos jogos olímpicos, também se pronunciou. “Prisão para os racistas”, escreveu. A ponteira e também bicampeã Fernanda Garay criticou a impunidade. “Impressionante como a impunidade faz com que essas atitudes criminosas aconteçam”.

A atual capitã da seleção brasileira de vôlei feminino, Gabi Guimarães, também se manifestou nas redes sociais. “Até quando a gente vai diminuir a gravidade de uma atitude que é criminosa? Até quando vamos priorizar os agressores, ao invés de proteger as vítimas a todo custo?”

Diversos outros nomes da comunidade do vôlei e campeões olímpicos, como Fofão, Fabi Alvim, Bruninho e Thaísa Daher se uniram em um único vídeo para repudiar toda forma de preconceito. 

“Xingar uma pessoa negra de macaca é racismo científico” 

A professora e escritora Bárbara Carine também comentou as ofensas racistas sofridas pelas atletas em suas redes sociais. Em um vídeo, ela lembrou que apesar da recente equiparação do crime de injúria racial como crime de racismo através da Lei 14.532/2023, a legislação sofre com limitação no âmbito dos esportes, por ser “destinada ao sujeito”. 

“Se o sujeito chama alguém de macaco, pode ser detido, pagar multa, mas imagina um estádio inteiro. Existe uma limitação no grau de coletividade desse tipo de racismo.”

A professora lembrou dos códigos disciplinares que orientam a encerrar a partida com derrota automática do time cuja torcida praticou o ato racista, e lembrou que chamar uma pessoa negra de “macaca” pode ser considerado racismo científico.