“Não poderia cruzar meus braços diante dessa situação”, afirmou Andreza Benguela

Por Anna Julia Fagundes

O curso de extensão para professores das escolas quilombolas do município Antônio Cardoso (BA), oferecido pela Universidade Federal do Recôncavo da Bahia (UFRB), foi palco  de um crime de racismo e intolerância religiosa contra a coordenadora de educação municipal quilombola, Andreza Benguela, de 26 anos.

Andreza, além de licenciada em educação no campo e ciências da natureza, também é poeta e ativista do movimento negro. Ela participava do curso, coordenado pelo grupo de pesquisa de agroecologia e relações inter-raciais do município, quando foi convidada a recitar uma de suas poesias, e logo foi interrompida por Márcia Maria de Oliveira, diretora do Colégio Estadual Genivaldo de Almeida Brandão, também localizada em Antônio Cardoso. Andreza conta que a diretora usou palavras preconceituosas durante a declamação. “Ela disse que era coisa de macumbeiro, coisa do demônio e que o povo da universidade era tudo Rastafari macumbeiro”, afirmou a vítima.

Nesta terça-feira (03) o crime será avaliado na audiência da Delegacia Territorial de Antônio Cardoso, na qual, possivelmente,  a vítima será acompanhada pela advogada Michele Caldas que também participa do Coletivo de Advogadas e Advogados Negros

Entidades repudiam o caso de racismo

Após o acontecimento, o Coletivo Tereza de Benguela, formado por estudantes da UFRB, juntamente aos coletivos, Coletivo de Estudantes Negros e Quilombolas Maria Felipa de Oliveira (CEQUIN), Ivannide Santa Bárbara, Moviafro (ambos de Feira de Santana – Ba), Terreiro ILÊ AXÉ GILODEFAN, Federação Nacional dos Cultos Afros e Umbandistas no Brasil (FENACAB), Coletivo de Advogadas e Advogados Negros da Bahia e a  Movimento Negro Unificado (MNU) realizaram uma reunião em apoio a Andreza. Na ocasião, o vídeo da aula foi analisado e conjuntamente as organizações lançaram uma nota de repúdio contra a acusada em questão.

O ILÊ AXÉ GILODEFAN, através da sua Ialorixá, graça de Nana e todos os filhos e filhas de santo, vem ao público manifestar seu profundo repúdio frente ao ato de racismo do qual sua filha de santo foi vítima. Nos deparamos, infelizmente, com um ato que tem se tornado rotina ver nossas cultura, nossos corpos e nossa religião sendo vítima da atitude desrespeitosa.”,  publicou em nota o Terreiro.

Andreza revelou que sempre fez questão de reafirmar suas origens e que tais preconceitos têm início na base educacional: “Quando nos deparamos em uma escola que atende estudantes de comunidades quilombolas ter uma postura dessas, vemos que o problema vem da base e está muito perto“. A ativista continua: “Não poderia cruzar meus braços diante dessa situação, ainda mais tendo provas e testemunhas”.

A poesia que sofreu o ataque racista traz versos como: “Mojubá!  Pra começo de fim de conversa, eu saúdo como yabás. De passo em passo, colhi como flores do caminho. Aprendendo, ensinei que nas folhas de Iroko não se levou sozinho”. Este ano os versos venceram o prêmio Ana Montenegro, onde faz referência às mulheres negras, historicidade do candomblé e a cultura pungente da Bahia.

Na Justiça

Segundo Andreza, o crime foi denunciado, inicialmente, à ouvidoria de educação do estado da Bahia, na qual a acusada atua como servidora. Além disso, também denunciou a profissional ao Ministério Público, ao Censo de referência Nelson Mandela (Órgão da Secretaria De Promoção Da Igualdade do estado da Bahia – Sepromi), à Ouvidoria Geral e ao Ministério da República Federal. Até agora essas denúncias não tiveram um retorno conclusivo. A ouvidoria geral só me respondeu que a denúncia foi encaminhada para a secretaria de educação”,revelou a ativista.

Apesar da UFRB ter emitido uma nota e já ter pedido uma reunião com os agentes da Secretaria da Educação, nenhuma ação foi tomada até o momento. Assim como no estado, que também não proferiu até então nenhuma medida administrativa em decorrência do crime.

A acusada envolvida pediu exoneração de seu cargo na diretoria, o qual foi aceito pela Secretaria Estadual de Educação, e publicou uma nota de esclarecimento, onde negou qualquer conotação preconceituosa em sua fala. A ex-diretora também afirmou grande equívoco da nota de repúdio publicada pelos coletivos e acusou Andreza de injúria, calúnia e difamação no âmbito penal.

Andreza conta do ineditismo do curso de extensão para professores das escolas quilombolas  para o município, que é carente de políticas de promoção da igualdade, mas conta ter ficado decepcionada, pois não esperava esse fim. “Fiz essa articulação com um grupo de pesquisa. Nós trouxemos um curso dessa envergadura, nunca antes tido em Antônio Cardoso, e acontece uma coisa dessas”,desabafa a coordenadora de educação quilombola.

O Colégio Estadual Genivaldo de Almeida Brandão foi contatado, mas até a data de fechamento desta matéria não retornou com um posicionamento.