Por Andreza Anjos*

O termo CTS[1] (Ciência Tecnologia e Sociedade) é cunhado no Brasil ainda nos anos 70. Se considerarmos a história mundial da revolução industrial parece tarde, mas se nos apegarmos ao fato de que o Brasil da mesma forma que foi o último a abolir legalmente a escravidão, também foi um dos últimos a aderir à industrialização, é legítimo destacar que o retardo no processo tem relação com a manutenção do sistema escravocrata. Com isso, a CTS não ganha espaço dado às condições materiais e espaço-temporais, de forma que falar em alfabetização científica seria uma consideração utópica.

Em um país que se estrutura a partir de um sistema que exclui as sociedades tradicionais, a ciência moderna nos põe do outro lado do abismo equatorial. Enquanto produtoras de ciências, a única universalizada é academicista, que por sua vez é fundada no crivo da colonialidade.

Se não existe ciência a partir dos “outros”, a implicação é que a alfabetização científica não conseguirá alcançar o objetivo de cumprir função social, para que os cidadãos tenham visão crítica sobre a incidência das ciências e tecnologias sobre suas vidas. Esse processo de colonialidade nega a bagagem cultural dos indivíduos, os destituindo da possibilidade de se formarem sujeitos. A ciência pensada a partir da Europa é dualista, e com isso ela coloca as ciências sociais em oposição às que chamam de exatas.

Mulheres negras como Bárbara Carine e Katemari Rosa, executam as ciências da natureza em um pensamento que remete aos valores civilizatórios afro-brasileiros que remetem a ancestralidade. É a partir disso que se pretende quebrar o paradigma dualista e colocar o ser humano como integrante da natureza e não como usuário e expectador.

Quando Vanda Machado, pedagoga, escreve em sua obra Irê Ayô sobre a aprendizagem significativa, eu como professora de ciências da natureza tenho a ideia de que o resgate da memória biocultural e o valor da ancestralidade são a chave para ensinar e aprender na forma “espiralar” que precisa ser. A mitologia yorubá traz um processo de CTS em que Ogum é o patrono, responsável por desenvolver tecnologias materiais para proporcionar o bem viver da comunidade.

Neste período de pandemia sentimos muito a ineficiência que as ciências da natureza tem tido em cumprir seu papel pedagógico de alfabetizar cientificamente. O desespero e ingenuidade das pessoas diante uma crise sanitária pandêmica abre o alerta para nós que temos esse papel social pedagógico. Falar nisso é tocar no auxílio emergencial, que está ameaçado de não durar até o fim da pandemia, é refletir sobre a falta de esgotamento sanitário e acesso a água (que tal a escola parar de fazer dia da água com músicas catequistas e falar sobre o acesso a água potável?), é sobre o uso indiscriminado de remédios e objeção em usar as plantas medicinais.

A CTS, se não aliada aos saberes ancestrais e de forma que dialogue com as comunidades tradicionais, não vai conseguir alfabetizar cientificamente. A colonialidade do saber funciona demais para o genocídio das populações racializadas, o projeto da branquitude só diz respeito a eles mesmos. Negros, indígenas, ciganos… estão morrendo em massa. Ou voltamos pra fazer como nossos mais velhos nos ensinaram ou seremos exterminados. Assata Shakur alerta sobre isso.

 

*Mãe, candomblecista, quilombola, professora de ciências da natureza, educadora social, agricultora, feminista negra. Malokera mesmo.

 

 

 

 

[1] Os estudos sociais da ciência e da tecnologia, também denominados estudos sobre ciência, tecnologia e sociedade ou estudos de ciência, tecnologia e sociedade ou estudos de ciências-tecnologias-sociedades (CTS) se dedicam a investigar as relações entre estes três campos. Estes estudos partem do entendimento de que ciência e tecnologia são atividades sociais, feitas por pessoas, situadas no tempo, no espaço, na cultura e na sociedade, sendo, portanto,  impossível considerá-las  e compreendê-las separadamente (Fonte: Wikipédia)