“Em geral, minha sensação era de que nada que eu fizesse estaria certo.”

Por Sacha Aguiar Ventura*

Este desabafo poderia ser meu ou de qualquer uma das mulheres negras habitantes do mundo, mas foi da ex-primeira-dama dos EUA, Michelle Obama, em autobiografia. Ao ler este trecho, assim como a sequência dele, imediatamente senti aquele misto de pertencimento e agonia: era exatamente como eu me sentia e ao mesmo tempo, não queria fazer parte disto. Os marcadores que acompanham a linha da escravidão perpassam, é verdade, as fronteiras dos países menos e mais desenvolvidos.  Mas, seria possível que eu, nos derradeiros meses dos meus vinte anos, poderia me sentir tão próxima de uma figura pública histórica como o é a primeira mulher negra a habitar a Casa Branca?

E seria realmente necessário que nós, mulheres negras, só nos encontrássemos, de todos os  pontos existentes, neste, de opressão e revolta? Seria então necessário que todas nós, mulheres negras do mundo, sofrêssemos a mais profunda humilhação e opressão, para que assim nosso cansaço e revolta pudessem ser ouvido por outras mulheres negras, igualmente cansadas e revoltadas, para que algo pudesse ser feito a respeito? Pois está resolvido, então.

Por tempos nós temos feito parte de todas as piores estatísticas possíveis: de classe, de gênero, de desemprego, de abandono familiar, de acesso à educação e informação, de saúde, e pelo mesmo tempo, temos sido silenciadas. Nossos gritos, por mais altos que sejam, nossos argumentos, por mais embasados que sejam, nosso conhecimento, por mais ancestral que seja, nossos corpos, por mais cuidados que sejam, nada disso tem vez ou valor.

Eu não sei vocês, mas eu estou exausta. Mas não de lutar, eu carrego dentro de mim uma força impensável. A força de milhões de outras mulheres cansadas e revoltadas, que vieram antes de mim, mulheres que não puderam falar, como eu posso agora, mulheres que não puderam assumir estarem cansadas, como eu assumo agora, mulheres que não puderam gritar, como eu grito todos os dias. E outras mulheres, que o fizeram antes de mim, para garantir que eu também tivesse a oportunidade.

Nós somos a base da pirâmide social, e podemos, como Ângela Davis vem repetindo  incansavelmente, abalar toda a estrutura da sociedade. A história pode e deve ser reescrita a nosso modo, devemos criar perspectivas de comportamento, onde sejamos ouvidas e levadas a sério. Onde possamos tomar decisões por nós mesmas, onde nos caiba, onde a altura de nossas vozes seja suficientemente alta para chegar em todos os ouvidos e onde nosso discurso possa ser entendido.

Se você é, assim como eu, uma mulher negra exausta, vamos nos levantar. Eu dou este momento e lugar como ponto de partida. Você deve saber, melhor que eu até, por onde começar. Que passo deveremos dar, e qual deveremos retomar, a quem deveremos nos unir ou apartar, em qual porta deveremos bater e qual derrubar, que caminho deveremos tomar, para que amanhã, diferente de hoje, estejamos exaustas, mas apenas de lutar?

 

*Bióloga e especialista em Gestão de Empresas e Negócios.