Nossa Anônima Guerreira Brasileira de hoje diz aproveitar bem a melhor idade, já que a vida toda foi de muita dureza e trabalho

Por Andressa Franco e Patrícia Rosa

A terceira mulher da série Anônimas Guerreiras Brasileiras que apresentamos a vocês é a Dona Maria Hercília Barbosa, sagitariana de 65 anos, quilombola do Quilombo de Capoeiras, no Rio Grande do Norte. Filha de uma família de 10 irmãos, Dona Hercília nasceu, cresceu e vive até hoje em Capoeiras, comunidade formada no século XIX por negros libertos no interior do estado, na área rural de Macaíba, a 65 km da capital, Natal. O quilombo é considerado o maior do estado e atualmente conta com 350 famílias em seu território.

O povo de Capoeira tem como principais fontes de subsistência a agricultura, além da comercialização da mandioca e a fabricação de tijolos. Foi só nos anos 1990 que a comunidade começou a se mobilizar para ser reconhecida como um remanescente de quilombo, e hoje se intitulam com orgulho como os “negros de Capoeira”.

Dona Hercília não é de falar muito, prefere a objetividade nos diálogos, até quando recorda das memórias de sua infância, época que começou a ser chamada  de “Luiza”. Ela nos conta que é comum as pessoas serem chamadas por apelidos na comunidade, ela não lembra o porquê de Luiza, mas o aceita muito bem.  Aos 10 anos ela começou a trabalhar em casas de família, e aos 11 na roça. “Minha infância foi trabalhando, nasci e me criei trabalhando aqui. Eu, mais minha família, meu povo, minha mãe, a gente trabalhava pra comer, que não tinha, aí a gente trabalhava”.  

Dona Hercília, ou Luíza, estudou até o 2º ano do ensino médio. Ela conta que seus dias eram sempre cheios, mas o tempo que restava ela passava entre cantorias, brincadeiras de roda e de adivinhação também. “Eu vivia trabalhando na casa dos outros. A vivência da gente era essa. E quando não tinha nada pra fazer, a gente ia pescar, pegar peixe. Era isso. Eu pescava muito com minha família junta todinha, minhas primas, era muita gente”. Com uma rotina corrida, às 21h tinha que estar em casa e não podia deixar de rezar o terço antes de dormir.

Dona Hercília diz viver realizada, diante de tudo que passou. “À vista do que estamos agora, eu dou graças a Deus que estou aqui com meus filhos”. Ela conta que na juventude, para ir para as festas da região, como não tinha vestidos, ela costurava os vestidos de saco. Aos 20 anos foi morar na capital, Natal, onde seguiu trabalhando como doméstica. Ela rompeu as barreiras do estado aos 35 anos, quando foi para São Paulo, para mais uma vaga de trabalho, mas seu coração estava no Rio Grande do Norte, de onde só saiu por conta da necessidade, mas voltou três anos depois.

Apesar de nunca ter sido muito voltada para passeios, depois de jovem, o trabalho lhe permitiu frequentar algumas festas da região. Ela conta que gostava, mas sabia que às 23h precisava estar em casa, não por conta da violência, mas pelo regime dos pais. “Naquele tempo não tinha violência e era bom demais as festas, hoje as pessoas não podem sair de casa, mas antigamente não tinha violência nenhuma”.

Matriarca solo de uma família numerosa, Dona Hercília conta que nunca casou e sempre trabalhou muito para criar para dar conta de seus seis filhos. “Eu tive minha primeira criança aos 20 anos. Sou uma mãe solteira de 4 mulheres e 2 homens, criei tudinho graças a Deus, hoje em dia tá tudo criado em suas casas e mora tudo pertinho d’eu”. Ela fala orgulhosa da luta para conseguir sustentá-los, e tê-los ainda hoje vivendo próximos às suas asas. Ela diz que para completar a alegria da família, tem os 12 netos, e que há 4 anos mantém um relacionamento: “arrumei um viúvo”, brinca em um momento de descontração ao falar que hoje vive junto com seu companheiro.

Dona Hercília rememora que para sustentar a família sozinha ela levantava antes do sol nascer e trabalhava das 4h da manhã até 16h, enquanto o filho mais velho cuidava dos menores, dando banho e comida.“Eu batalhava pra colocar comida dentro de casa, eu passei fome, mas não queria ver meus filhos passar não. Eu trabalhava na roça, de enxada. Trabalhei uns tempos fora, voltei e fui pra roça de novo. Tudo nesse mesmo município e até hoje ainda estou na roça, eu sou uma roceira! A minha vida era trabalhar. Era trabalhar. A gente aqui começou trabalhando no roçado, com enxada e passava o dia no roçado trabalhando”, ressalta.

Contudo, ela diz se sentir feliz em ter superado as dificuldades da infância, principalmente por enxergar a nítida diferença entre a vida que levou, em comparação a vida que os filhos têm hoje: “Eles aqui tão bem de vida e eu também. Agora eu me sinto mais segura porque tô aposentada. Acho que minha vida melhorou muito depois disso”.

No ano de 2012, ela montou um bar que diz ser para o pessoal da vizinhança se divertir um pouco, e ela também. Mas, durante os tempos de pandemia, em que aglomerações não são bem vindas, a maior distração de Dona Hercília tem sido jogos de caça-palavras, “é terminando um e começando outro”. Ela é noveleira também, acompanha todas as tramas da  noite, das 19h às 21h sem falta.

“Mudou tudo, fico em casa, não posso sair, as meninas não me deixam sair de casa e até agora não saio não. Antes da pandemia não saía pra passear não, ia pra resolver algum problema, mas agora nem isso”.

Aos 65 anos, a quilombola ainda não tomou a primeira dose da vacina e aguarda ansiosa a sua vez, a expectativa é grande, e Dona Hercília não perde a fé: “Sou católica, frequento a igreja, sou legionária da Legião de Maria. Sempre me inspirei em Deus pra amanhecer os dias e já começar trabalhar”.

Uma curiosidade interessante da vida de Dona Hercília é que a segunda vez que ela saiu do Rio Grande do Norte, foi com uma caravana de mulheres do estado  para participar da Marcha das Mulheres Negras contra o Racismo, a Violência e pelo Bem Viver, em Brasília em 2015. Ela conta empolgada que foi uma  carreira só, um monte de gente, e que gostou de participar do evento histórico que levou 100 mil mulheres negras para protestarem juntas na capital federal. A vida de Dona Maria Hercília foi na base de muita luta pela sobrevivência, uma realidade similar a de milhões de anônimas guerreiras desse Brasil. Por cá, a gente segue, vive e luta, para que o racismo, o sexismo e todas as violências sistêmicas não marquem de tanta dureza a vida das mulheres negras brasileiras.