Por Lecco França*

A produção cinematográfica de diretoras(es) negras e negros tem crescido exponencialmente no Brasil nas últimas décadas, redesenhando o cenário da cinematografia nacional hegemônica, marcada por segregações, apagamentos, invisibilidades e estereótipos. Os filmes produzidos por profissionais negros, de um lado, têm oferecido novos estilos de abordagem e outras narrativas que enfatizam as diferentes vivências e experiências das populações afro-brasileiras; de outro, evidenciam, a partir das posições que estes agentes ocupam neste campo, intensas disputas internas, diante das relações de poder que ainda configuram a indústria e o mercado cinematográficos brasileiros, em diversos âmbitos (financiamento, formação, profissionalização etc.). Em uma perspectiva regional, cineastas do Nordeste brasileiro, por exemplo, encaram outros desafios e enfrentam dificuldades ainda maiores, o que denuncia preconceitos também nesse aspecto.

Entre os diferentes setores do audiovisual brasileiro, a distribuição e recepção desses filmes também não refletem formas justas e equitárias de circulação, tais como as mostras e festivais de cinema. As mostras, em especial, além de contribuírem para a formação de plateias para os filmes “provenientes de outras práticas cinematográficas ou com temas específicos”, como ressalta o professor e pesquisador Mahomed Bamba, preenchem lacunas recorrentes nos sistemas de distribuição comercial e têm demonstrado grande potencial na mediação que fazem entre os filmes e os públicos. Essa situação tem mobilizado diferentes profissionais do audiovisual negro a realizarem eventos especificamente dedicados à promoção dessas produções, oriundas de todo o país. Um recente levantamento feito por integrantes da Associação de Profissionais do Audiovisual Negro (APAN), seção Nordeste, identificou algumas mostras e festivais de cinema negro realizadas nesta região, como Negritude Infinita, no Ceará, Mostra de Cinema Negro de São Félix, na Bahia, Mostra Quilombo de Cinema Negro, em Alagoas, Mostra Ousmane Sembene, na Bahia, Semana do Audiovisual Negro, em Pernambuco, Mostra Pilão, na Paraíba, Mostra Itinerante de Cinemas Negros Mahomed Bamba, na Bahia, e Egbé – Mostra de Cinema Negro de Sergipe. Ainda segundo Mahomed Bamba,  que enfatiza a necessidade e importância de mobilizações como essas, o contato com filmografias provenientes de outras práticas cinematográficas ou com temas específicos, normalmente ocorre com base em uma consciência política que marca a particularidade dessas mostras, assim como possibilita a formação de uma comunidade de usuários com preocupações e interesses comuns, no período curto em que dura esses eventos, em um “contexto sociocultural e político brasileiro marcado por intensos debates sobre a valorização e reafirmação da herança das culturas e das artes de matrizes africanas (bamba, 2010, p. 8).

Das mostras citadas, duas terão novas edições a partir do segundo semestre de 2020, dessa vez, em formato online:  a Egbé – Mostra de Cinema Negro de Sergipe e a Mostra Itinerante de Cinemas Negros Mahomed Bamba (MIMB). A mostra Egbé (palavra iorubá, que significa comunidade, sociedade) teve sua primeira edição em 2016 e foi criada a partir da necessidade de um grupo de cineastas negros locais de tornar acessíveis as produções audiovisuais negras ao público sergipano, na tentativa de democratizar o acesso a vasta e potente produção cinematográfica negro-brasileira contemporânea, além de proporcionar conhecimento, através de oficinas, cursos e debates em torno do audivisual negro brasileiro e estimular o potencial da produção audiovisual negra de Sergipe. Tendo como uma das idealizadoras a cineasta e produtora Luciana Oliveira, a cada edição do evento um ou mais cineastas negros e negras são homenageados, principalmente mulheres, a exemplo de Adélia Sampaio, Everlane Moraes e Cristina Amaral. A 5ª. edição do evento, com o tema “Afrofuturismo”, ocorrerá entre 3 e 30 de setembro de 2020. Os 33 curta-metragens oriundos de todo o país serão exibidos de forma online pela plataforma da VídeoCamp. Destaque para os filmes “A mulher do fim do mundo” (2019), dirigido pela baiana Ana do Carmo, “Egum” (2020), produção do Rio de Janeiro, realizada por Yuri Costa, e “Perifericu”, de São Paulo, dirigido por Nay Mendl, Rosa Caldeira, Stheffany Fernanda e Vita Pereira.

Na sequência da mostra Egbé, virá a 3ª edição da Mostra Itinerante de Cinemas Negros Mahomed Bamba, que também ocorrerá no formato virtual, entre 30 de setembro e 9 de outubro de 2020, com uma programação de filmes a ser exibida também na plataforma da VídeoCamp. A MIMB, idealizada pela produtora e cineasta baiana Daiane Rosário, cuja primeira edição foi em 2018, homenageia o professor e pesquisador de cinema da Faculdade de Comunicação (FACOM/UFBA), Mahomed Bamba, nascido na Costa do Marfim, e naturalizado brasileiro, que faleceu precocemente em 2015. Ele propunha e defendia em suas aulas e textos diferentes leituras sobre as narrativas fílmicas produzidas nas periferias globais, sobretudo as realizadas no continente africano e na diáspora. Comandada por seis mulheres negras, além de Daiane, Taís Amordivino, Julia Morais, Kinda Rodrigues, Loiá Fernandes e Naymare Azevedo, que se dividem nas funções de coordenação geral,  curadoria nacional e internacional, produção e produção executiva, o objetivo do evento é ampliar as espaços de reprodução e visibilização de conteúdos audiovisuais nacionais e internacionais, produzidos por realizadores negros, estimular a discussão sobre a produção, distribuição e acesso do audiovisual brasileiro e reivindicar a afirmação política da população negra no país. Nas duas edições, realizadas em 2018 e 2019, foram mais de 100 fimes exibidos em diferentes localidades da cidade de Salvador, Bahia. Desde sua primeira edição, além da exibição de filmes de diversos gêneros, a mostra também apresenta em sua programação mesas de debates, oficinas e cursos. O tema da terceira edição é “Árvores ancestrais – Tempo e cura”. Durante os dez dias de programação serão exibidos entre 15 e 20 filmes, além de oficinas, cursos, apresentação cultural e um concurso de produções audiovisuais de jovens negros e negras periféricos.

É importante ressaltar que os desafios para as organizadoras desses eventos ainda são grandes, especialmente pela questão financeira, diante dos custos que envolvem ações dessa proporção. Iniciativas como essas são frutos de um longo processo de luta pela afirmação do povo negro, em diferentes setores da sociedade brasileira, incluindo setores extremamente segregadores, ainda hoje, como o audiovisual, aliados a políticas públicas dedicadas a essas populações, como ações afirmativas e editais especificos, por exemplo. Por isso, o conceito de aquilombamento é  representativo desses movimentos que fortalecem os coletivos e abalam a estrutura sociocultural brasileira racista e eurocêntrica.

 

* Lecco França é professor universitário, pesquisador, escritor, curador e crítico de cinema. Membro da Associação de Profissionais do Audiovisual Negro (APAN). E-mail: leccofranca@gmail.com.