“Eu voto em negra” é a chamada da campanha que pretende mudar a cor e o gênero da política na Região Nordeste

Por Eduarda Nunes

Participação política é tema das movimentações sociais negras há muito tempo.  Abdias do Nascimento, Lélia Gonzalez, Carlos Alberto de Oliveira (autor da Lei Caó, que tornou o racismo inafiançável), Leci Brandão, Benedita da Silva são os atores mais simbólicos quando o assunto é população negra e política partidária.

Enquanto sociedade civil também temos marcos importantes, como a Convenção Nacional do Negro na Constituinte, em 1986, que organizou uma série de demandas a serem incorporadas à constituição de 1988, batizada como Constituição Cidadã. Ou a histórica Marcha Zumbi dos Palmares, em 1995, que  reuniu mais  de 30 mil pessoas em Brasília para celebrar o tricentenário do líder quilombola e entregar a Carta Zumbi dos Palmares ao presidente Fernando Henrique Cardoso, que assinou o documento. Foi a primeira vez que, institucionalmente, um líder do executivo nacional reconheceu tanto o racismo no Brasil, como os anos de políticas eugenistas e de invisibilização o povo negro.

Mesmo sub-representados na política institucional, a passividade nunca foi postura da (maioria negra) da população brasileira. Novamente em 2005, os movimentos negros tomaram as ruas de Brasília na Marcha Zumbi +10. Dez anos depois, em 2015, foi a vez da Marcha das Mulheres Negras, que levou mais de 100 mil pretas do Brasil inteiro à capital federal. Ambos os acontecimentos reuniram queixas e demandas do povo negro em documentos que foram entregues ao líderes máximos do país. Tanto Lula quanto Dilma foram “notificados” e essas ações foram importantes para que a políticas sociais que dão início a um processo de reparação histórica pudessem ser desenvolvidas.

A renovação política tem sido uma pauta cada vez mais latente nos momentos de eleição: reivindica-se que sejam eleitas mais mulheres, pessoas negras, povos originários, LGBTQIA+, mas ainda somos representados majoritariamente por homens brancos de meia idade.  Recentemente, iniciativas que estimulam a participação política de pessoas negras tem se levantado cada vez mais e este ano, em Pernambuco, o projeto  Mulheres Negras e Democracia lançou a campanha “Eu Voto em Negra”, que estimula e fortalece a candidatura de mulheres negras no pleito de 2020 em toda Região Nordeste.

 

A iniciativa é organizada pela Casa da Mulher do Nordeste (CMN), Centro de Mulheres do Cabo (CMC) e o Movimento de Mulheres Trabalhadoras Rurais (MMTR), com a assessoria técnica e parceria da Rede de Mulheres Negras de Pernambuco e do Nordeste.

Mulheres Negras e Poder

O projeto Mulheres Negras E Democracia está em seu segundo ano e no último mês de fevereiro realizou o Fórum Nordeste Mulheres Negras e Poder, que reuniu mulheres de toda a região, e outros estados do Brasil, para organizar e estimular articulações para eleger mulheres negras no Nordeste. O forúm reuniu cerca de 120 mulheres, entre pré-candidatas e lideranças de movimentos sociais, e criou uma carta política demandando um olhar mais apurado para as candidaturas negras que se formam no interior dos partidos.

No último 8 de março – Dia Internacional das Mulheres, no ato pela vida das mulheres que aconteceu na cidade do Recife, a campanha Eu Voto em Negra teve seu pré-lançamento. O lançamento oficial da plataforma aconteceu no dia 23 de julho, durante a 8ª edição do Julho das Pretas, com uma live que contou com 20 lideranças de todo o Nordeste dialogando sobre a importância das mulheres negras ocupando cargos políticos.

Piedade Marques, coordenadora da Rede de Mulheres Negras de Pernambuco, conta que “a experiência e o sentimento da gente foi de uma confiança muito grande de estar nesse momento. As pessoas se disponibilizaram, ninguém deixou de falar”. Durante as 3 horas de evento, cerca de 2.300 pessoas participaram do debate.

Atualmente 65 pré-candidatas de todo o Nordeste estão sendo assessoradas pela campanha, com cursos de formação em mídias digitais, edição de vídeos, fala pública e outros processos de preparo para disputar a eleição. “Os homens brancos, os homens que já tem carreira política de muito tempo, que tem herança política, já tem todo esse treinamento e preparação. As mulheres que estão se colocando não”, comenta Itanacy Oliveira, assistente social e diretora do Programa Mulher, Trabalho e Vida Urbana, da Casa da Mulher do Nordeste. “Nossa sociedade é muito exigente para as mulheres negras. O que nós falamos, como falamos e o que queremos comunicar”, complementa indicando que a campanha sensibiliza as candidatas que para além das boas intenções de gestão, é necessário estar segura e saber se colocar na disputa, nos debates e conversas.

Itanacy Oliveira

 

Espalhando a palavra

 Outro objetivo da campanha é poder contar com pessoas que se proponham a ecoar a mensagem que eleger mulheres negras (e não necessariamente a uma candidata em particular) é um caminho para que a democracia e a cidadania universal no Brasil sejam fortalecidas. Cerca de 20 mulheres compõem o time de articuladoras voluntárias da campanha.

Na plataforma é possível se inscrever para receber o material de divulgação da campanha em qualquer estado do Nordeste, bem como, seguir no engajamento pelas redes sociais. Além das articuladoras, a campanha Eu Voto em Negra também tem parceria com outras iniciativas que estimulam e fortalecem a eleição de mulheres e pessoas negras no campo progressista, é o caso do Enegrecer a Política, Meu Voto Será Feminista, A Partida e o Elas por Elas.

Itanacy Oliveira, que é parte da coordenação do projeto Mulheres Negras e Democracia, acredita que o vínculo com essas iniciativas promove o fortalecimento mútuo das ideias e reforça a urgência das pautas. Há muita pressa em fazer com que temas que atravessam substancialmente a vida das mulheres, população negra, pessoas periféricas, LBT+ e os povos originários sejam debatidos por atores sociais que tenham interesse honesto em construir uma democracia pluri-racial e com equidade de gênero. “Entre as várias questões trazidas pela campanha Eu Voto em Negra, a mais importante é esse movimento de tirar a sociedade da zona de conforto”, comenta Itanacy. Ela acredita que quando as mulheres negras do campo progressista alcançarem expressivamente os lugares de poder político, toda a sociedade brasileira ganhará com isso.

 

Juventude na disputa

 Na Região Metropolitana do Recife, a juventude tem se colocado cada vez mais à disposição no campo político partidário, mas a pandemia interfere bastante na atuação das pré-candidaturas e candidaturas negras que colocaram “a cara a tapa” para disputar com os homens brancos de meia idade que ainda são majoritariamente eleitos.

O empecilho financeiro se mostra uma constante, mas Biatriz Santos, candidata a vereadora em Camaragibe (PT – PE), Flávia Hellen, candidata a vereadora em Paulista (PT – PE) e Maria Janielly e Letícia Carvalho, da chapa coletiva Revolução Preta, na candidatura à vereadoras de Jaboatão dos Guararapes (PSOL – PE), identificam que a localização geográfica também interfere muito na perfomance das campanhas.

Biatriz Santos, candidata a vereadora em Camaragibe (PT – PE)

Biatriz conta que a participação política feminina em sua cidade é muito pequena e que, mesmo com muita gente apoiando sua candidatura, são pouquíssimas as que passam a contribuir efetivamente a campanha em Camaragibe. “Até os partidos tendem a priorizar e investir mais nas candidaturas que disputam a capital”, conta a assistente social. Flávia Hellen endossa esse pensamento e afirma que “o sistema político não foi pensado pra receber a classe trabalhadora. O poder econômico dita quem é competitivo ou não e a gente, candidatura popular, que vem que comunidade, não tem estrutura financeira, nem estrutura técnica, como um advogado, um contador, pra ter as devidas orientações pra entrar no pleito”.

Flávia Hellen, candidata a vereadora em Paulista (PT – PE)

A primeira candidatura coletiva de Jaboatão dos Guararapes, segunda cidade mais populosa de Pernambuco, se formou quando Maria Janielly, estudante de jornalismo e produtora cultural, que estava mobilizada com outras pessoas para lançar uma chapa conjunta, se viu sozinha no projeto. “Eu não queria que ela desistisse porque acho muito importante uma candidatura nesse perfil aqui na cidade. Já que muita gente reclama que só votamos em determinado tipo de político aqui por falta de opção”, conta Letícia Ferreira, ilustradora, que abraçou a ideia e entrou na disputa. Elas encabeçam a candidatura Revolução Preta, que destaca a reivindicação da laicidade do Estado e a defesa dos direitos das mulheres. Para se ter ideia do cenário político onde as jovens candidatas atuam, o prefeito de Jaboatão, Anderson Ferreira (PSC), que foi deputado federal duas vezes é o autor do Estatuto da Família no Congresso Nacional, que tem o objetivo de institucionalizar valores familiares cristãos e interferir na vida pessoal dos brasileiros.

Maria Janielly e Letícia são mulheres que são mães, estudantes universitárias e trabalhadoras informais, “nosso contexto são as dificuldades”, ironiza Letícia. A pandemia tem sido um entrave tão grave como a falta de recurso financeiro para fazer uma boa campanha. Para elas, cuidar da casa, dos filhos, da vida acadêmica, do casamento e de uma campanha (na frente de uma tela de computador) não tem sido fácil, mas a forma como a política vem sendo feita e como é interpretada pelo povo também não é.

“Quando a gente pensa em política a gente só enxerga homens brancos ocupando aquele espaço e tendo decisões que não abrangem nossa comunidade. Quem não vai no postinho (de saúde) de Santo Aleixo, ou no posto (de saúde) da UR-11, não tem como saber se por lá atendem mal, que não tem obstetra, enfermeira”, comenta Maria Janielly.

Maria Janielly e Letícia Carvalho, da chapa coletiva Revolução Preta

A compra e venda de votos é outra realidade que tanto elas como Biatriz Santos e Flávia Hellen também buscam reverter com o diálogo de ideias e proposições que tocam diretamente a vida das trabalhadoras e trabalhadores. A experiência nos movimentos sociais, onde a política é vivida e interpretada como cotidiana, é o que diferencia essas mulheres de outras candidaturas. Garantir Bem Viver para pessoas negras e em outras condições de vulnerabilidades sociais norteiam as propostas de campanha e possível atuação na Câmara Municipal das duas cidades.

“A gente precisava forçar esse processo e não esperar que ele acontecesse naturalmente e o momento é agora. E é por isso que estou me lançando também, por entender que o nosso movimento [negro] tem um projeto político pra esse país e é um projeto pra todos”, afirma Biatriz Santos, que reforça a importância da participação política de mulheres jovens na disputa.