Programação da 9ª Festa Literária das Periferias acontecerá de forma digital com mesas no Rio e em seis cidades do globo

 

Tradicional por reunir poetas, escritores, pensadores e comunidade em um mesmo lugar, a Festa Literária das Periferias (FLUP) chega a sua 9ª edição repleta de novidades. Dessa vez, o Festival se reinventa, embarca no universo do streaming e rompe as barreiras geográficas propondo um diálogo importante não só para o Brasil. Esse ano, o evento acontecerá nos dias 29, 30 e 31 de outubro; e 1, 6, 7 e 8 de novembro, com mesas acontecendo no Rio de Janeiro, é claro, mas também com debates em outras seis cidades espalhadas mundo –  Paris, Edimburgo, Madrid, Lisboa, Berlim e Joanesburgo – que terão como norte de discussão os impactos na sociedade pós George Floyd.

Tendo em vista o atual cenário mundial por conta da Covid-19, toda a programação será oferecida de forma virtual, com exibições através da página da FLUP no Facebook e canal do Youtube. “Os festivais estão perdendo uma de suas principais características, que é o lugar dos encontros, das trocas, da criação da rede de relações. Por outro lado, estão ganhando um público que nenhum festival do mundo sequer sonhou em ter. Apenas para dar um exemplo do que foi o ciclo de debates “Uma revolução chamada Carolina”, o processo formativo que organizamos entre maio e agosto, não houve nenhuma live em que falamos para menos de mil pessoas. Esse público, além de numeroso, tem sido muito mais diverso e diversificado. Agora, estamos falando para pessoas de todos os estados do país e mesmo de outros países lusófonos. Com as mesas internacionais, certamente falaremos para os países de que essas pessoas vêm, como a Espanha e o mundo hispânico na mesa da Rita Bosaho e da Lucía Mbomio, a França e o mundo francófono na mesa da Assa Traoré e a África do Sul e todo mundo anglófono na mesa do Achille Mbembe.”, explica Júlio Ludemir, um dos fundadores da FLUP.

Slam Cuir

Uma das atrações mais esperadas em todas as edições da FLUP desde 2014 é o Rio Poetry Slam, primeira competição de poesia falada da América Latina. Ao longo dos anos, tanto a forma de expressão como o perfil dos competidores foi ganhando novas formas: começando pelos jovens inspirados pelo rap de Mano Brown, passando pela forte presença da mulher negra, em seguida pela voz poderosa da mulher negra homossexual e, em 2020, destacando a emergência de uma geração de artistas Cuir nessa cena.

Diferentemente dos anos anteriores, a edição traz também, além dos 16 competidores, uma banca de jurados formada por personalidades LGBTQIA+. Outro diferencial para 2020, além da competição, que acontecerá a distância, é que cada chave será aberta por performances de poetas de países como Argentina, Colômbia, República Dominicana, Chile e outros – uma prévia para o Slam das Américas, competição prevista para 2021.

Para fechar em grande estilo, a semifinal e a final serão exibidas também no Toronto International Festival of Authors (TIFA) – o maior e mais antigo festival de palavras e ideias do Canadá.

O Slam Cuír tem a curadoria de Roberta Estrela D’Alva e Tom Grito – este último um homem trans, que como Letícia Brito foi uma das criadoras do Slam das Minas do Rio de Janeiro. O Slam Cuír será apresentado por Dani Nega e Marcio Januário, ambas pessoas LGBTQIA+.

Grandes vozes estrelam os debates

Tradicional pelos debates com nomes importantes no diálogo com as periferias, a FLUP 2020 inova e promove, além das já aguardadas mesas brasileiras, painéis internacionais de peso com o auxílio de parceiros como o Just Festival – o festival da justiça social e dos direitos humanos de Edimburgo – e o próprio TIFA.

Em maio desse ano, o mundo assistiu ao último suspiro de George Floyd, morto covardemente em uma ação policial em Minnesota, nos Estados Unidos. O episódio, que causou uma onda de indignação e protesto em boa parte do globo, trouxe para as ruas novas discussões, vozes e características sobre a luta pelas vidas negras e seus direitos. Simbolizando um marco na causa antirracista, o mundo pós George Floyd será o tema central dos painéis internacionais da FLUP 2020.

No dia 6 de novembro, a mesa “E se ele se chamasse George?” traz Cristina Roldão e a deputada Beatriz Gomes para uma discussão sobre o assunto. No mesmo dia, o debate “Meu corpo é meu país” tem como voz uma personalidade importante na batalha contra o racismo: Mamadou Ba. Ativista, nascido no Senegal, Ba mora hoje em Portugal e vive constantemente ameaçado em função de sua incansável luta pelos direitos dos negros. Intelectuais e ativistas negros de todo o mundo, como Angela Davis, Achille Mbembe e Felwine Sarr, têm assinado manifestos em defesa de sua integridade física.

No dia 7, Assa Traoré e Priscillia Ludosky debatem com mediação de Mame Fatou Niang. Traoré é uma ativista francesa com importante participação no movimento de luta contra a violência policial e o racismo desde a morte de seu irmão, Adama Traoré, em 2016. Sua atuação ganhou grande dimensão no mundo após a morte de George Floyd. Já Priscillia é uma das fundadoras do conhecido movimento francês “Coletes Amarelos”, nascido em 2018, da contestação ao governo do presidente Emmanuel Macron.

Um dos destaques do dia 8 é o filósofo camaronês Achille Mbembe, autor de “Crítica da Razão Negra” e “Necropolítica” – ensaio tema da mesa de discussão. Já em solo brasileiro, o Ciclo Lélia Gonzalez coloca em pauta o conceito de “amefricanidade”, suas problemáticas e desdobramentos. Para as rodadas, vozes poderosas como Djamila Ribeiro, Carla Akotirene, Juma Xipaya, Dorinha Pankará e Cacique Babau.

Homenageadas 2020

Anualmente a FLUP homenageia nomes importantes para a história e luta das periferias. A escolha de nomes como Lima Barreto, Abdias Nascimento, Maria Firmina dos Reis e Solano Trindade para edições anteriores aponta a conexão direta entre a questão racial e o diálogo com as periferias. Com uma programação cada vez mais negra, as homenageadas desse ano são Carolina Maria de Jesus e Lélia Gonzalez, autoras que estão na origem do cada vez mais potente do feminismo negro brasileiro.

Para Carolina, foi dedicado um ciclo de debates que culminará com a publicação de um livro em que cerca de 200 mulheres negras de todo o país, em diversas situações, fizeram uma releitura do clássico “Quarto de Despejo, que celebra 60 anos em 2020. Aproveitando o aniversário, a obra será lançada pela primeira vez em Portugal, em uma articulação feita pelo site FrontFiles, parceiro da FLUP nas ações em Lisboa. O livro será publicado pela VS Editor. A mesma Carolina será homenageada com uma exposição, que terá a curadoria do site Afrotometria, com 60 rostos de mulheres negras do mundo lusófono.

Já o Ciclo Lélia Gonzalez traz para o centro da discussão vozes que retratam a categoria político-cultural apresentada por ela nos anos 80: a amefricanidade. Personalidades negras, indígenas e LGBTQIA+ se reunirão para um amplo diálogo chamado “Lélia Gonzalez, uma intelectual amefricana”, que será dividido por mesas dentro da programação. Além disso, a Companhia das Letras publica, no segundo semestre, uma coletânea dos ensaios mais importantes de Lélia, que será lançada na noite de abertura da FLUP. As organizadoras da coleção, Flávia Rios e Márcia Lima, fazem a mesa de abertura.

Laboratório de narrativas negras e indígenas para o audiovisual

Parte do extenso processo de formação da FLUP 2020, o Laboratório de Narrativas Negras e Indígenas para o Audiovisual oferece uma formação para potenciais roteiristas autodeclarados negres, com encontros virtuais semanais com alguns dos mais importantes nomes do segmento, alguns deles da TV Globo.

As edições anteriores contaram com números expressivos de inscritos e participantes, tendo inclusive 21 deles contratados pela emissora e um especial de Natal veiculado em 2019. Atualmente, pelo menos cinco argumentos concebidos no Laboratório estão em processo de adaptação para filmes ou séries em produções envolvendo outros parceiros.

O Laboratório de Narrativas Negras e Indígenas para o Audiovisual tem como objetivo suprir parte dessa lacuna na produção audiovisual brasileira e incentivar a produção de obras potentes e criativas, partindo do princípio que somente essas pessoas podem reinventar seu lugar na dramaturgia brasileira.

Festa Literária das Periferias (FLUP) 2020
Data: 29/10/2020 a 08/11/2020
Programação: acesso remoto gratuito
Para mais informações, visite o site da FLUP: http://flup.net.br/
Facebook: https://www.facebook.com/FlupRJ/
YouTube: https://www.youtube.com/user/FluppRJ

 

PROGRAMAÇÃO COMPLETA

29 de outubro

18h – Solenidade de abertura

19h – Ciclo Lélia Gonzalez

Lançamento do livro “Por um feminismo afrolatinoamericano”, de Flávia Rios e Márcia Lima com mediação de Alex Ratts.

21h – Exibição do documentário Quadro Negro, de Bruno F. Duarte e Sil Bahia, produzido pela FLUP.

30 de outubro

15h – Slam Cuir

Abertura: Comikk MG (México) e Walter Gonzalez (Guatemala)

Chave A: Patricia Meira, Luiza Loroza, Bicha Poética e Maya Dourado

16:40h – Slam Cuir

Abertura: Adriana Corredor e Pedro Montes (Colômbia)

Chave B: Abigail Campos, Márcio Rufino, Auritha Tabajara e Patricia Naya

 

18:20h – Slam Cuir

Abertura: Alexéi Tellerías (Rep.Dominicana) e Oscar Di (Bolivia)

Chave C: Léo, Andrezza, Ana Moura e Julian

20h – Slam Cuir

Abertura: Diego Arbit, Maia Duek, Mhoris Emma, Vero Stewart (Argentina)

Chave B: Nega Preto, Níve, Bixarte e Bathália

31 de outubro

15h – Slam Cuir

Abertura: Guillermo (DN) e Santiago Riquelme (Chile)

Competindo: 2 primeiros colocados da chave 1 e 2 primeiros colocados da chave 2

16:40h – Ciclo Lélia Gonzalez

Lélia Gonzalez e o pensamento do feminismo negro – Carla Akotirene e Djamila Ribeiro com mediação de Flávia Oliveira

18:20h – Slam Cuir

Abertura: Karen Chavez (Perú) e Luz de Cuba (Cuba)

Competindo: 2 primeiros colocados do G3, 2 primeiros colocados do G4

20h – Ciclo Lélia Gonzalez

Luiz Eloy Terena e Elisiane dos Santos com mediação de Eugenio Lima

01 de novembro

15h – Ciclo Lélia Gonzalez

Juma Xipaya e Sandra Benites com mediação de Majoí Gongora

16:40h – Ciclo Lélia Gonzalez

Dorinha Pankará e Cacique Babau com mediação de Eugênio Lima

18:20h – Ciclo Lélia Gonzalez

Renata Tupinambá e Jaider Esbell com mediação de Majoí Gongora

20h – Slam Cuir

Abertura:  Pabloski Zzi (URU) e Shepsa Nzinga (Costa Rica e Cuba)

Grande final!

06 de novembro

15h – Mesa 1

O Mundo de Joelhos – Angela Davis com mediação de Roberta Estrela Dalva (A CONFIRMAR)

16:40h – Mesa 2

Por que sempre que falamos em feminismo só pensamos em corpos brancos – Silvia Federici e Yuderkis Espinosa com mediação de Silvia Capanema

18:20h – Mesa 3

Meu corpo é meu país – Anderson França e Mamadou Ba com mediação de Raquel Lima

20h – Mesa 4

E se ele se chamasse George? Cristina Roldão e a deputada Beatriz Gomes com mediação de Carla Fernandes

07 de novembro

15h – Mesa 5

Esse não é um país para negras – Rita Bosaho e Lucía Mbomío com mediação de Vanesa Cadenas

16:40h – Mesa 6

Corpos dissidentes – Eunice Olumide e Shola Von Reinhold com mediação de Isabel Moura Mendes

18:20h – Mesa 7

A França diante de si mesma – Assa Traoré e Priscillia Ludosky com mediação de Mame Fatou Niang

20h – Mesa 8

Afropean – Lançamento seguido de debate de Afropean, último livro de Leonora Miano

08 de novembro

15h – Mesa 9

TIFA na FLUP –  Grada Kilomba com mediação de Desmond Cole

16:40h – Mesa 10

Necropolítica – Achille Mbembe (a confirmar)

18:20h – Mesa 11

TIFA na FLUP – O Livro dos Negros – Lawrence Hill

20h – Mesa 12

Boaventura de Sousa Santos – 50 anos de resistências populares

Homenagem aos 50 anos da tese de doutorado do pensador português, que fez trabalho de campo na favela do Jacarezinho, no auge da ditadura militar.