Ser uma mulher gorda é algo inconcebível para a maioria das pessoas. É sempre um tal de conselho para lá, dica de dieta para cá, sugestão de academia e telefone de nutricionista. Na maioria das vezes nada disso foi solicitado. É assim: as pessoas se sentem muito livres e confortáveis em interpelar você, mulher gorda, para falar essas coisas… Com uma naturalidade que chega doer. A todo momento somos vigiadas, ora pela comunidade que nos rodeia, ora pelos transeuntes que cruzamos pelas calçadas da vida. Tudo ao nosso redor inspira controle e julgamento e haja resistência para vivermos nossas vidas em paz!
Recentemente, por exemplo, a atriz Guta Stresser virou notícia por ter emagrecido 15kg. A questão não é só essa, mas vejamos essa imagem:

O emagrecimento está sempre atrelado à um discurso de sucesso, de superação, de otimização da vida, não importa o que tenha lhe custado essa perda de peso: morte ou doença, seja de si mesma ou de alguém próximo. A mídia ainda transmite um discurso extremamente perigoso a respeito dos corpos das mulheres, principalmente quando se trata de emagrecer ou não. Com a atriz Guta Stresser não foi diferente, ela simplesmente foi colocada à reboque da própria sorte no texto que segue essa imagem acima. É descrito como ela foi engordando ao longo do tempo e que, sua saída da emissora golpista, se deu por conta do peso. Toda uma construção de pensamento leva a compreensão de que o os quilos “a mais” eram o grande problema ali. É interessante notar que a atriz não era uma mulher grande e gorda, ela só não era tão esquelética quanto aparece na foto pós transformação.

É perceptível o quanto a sociedade brasileira odeia gordura e, consequentemente, pessoas gordas; a multiplicidade de corpos das mulheres é o alvo predileto da mídia, principalmente para vender a ideia de “corpo perfeito”. Essa ideia, que é carregada ideologicamente de premissas substancialmente racistas, elege corpos para serem aceitos e corpos para serem excluídos. Nesse movimento desumano de descarte da vida em corpos, nós mulheres estamos constantemente susceptíveis à um entrelaçamento e sobreposição de discriminações. Ainda hoje vigora o antigo anúncio do jornal envelhecido que divulgava vaga de emprego onde exigia “BOA APARÊNCIA”.

Não é atoa que nós mulheres negras temos dificuldades em adentrar espaços de trabalho formal, nos restando a informalidade de mãos dadas com a precariedade, muitas vezes. Quando pensamos então, em como se articula a gordofobia com a questão de gênero no âmbito da empregabilidade, é necessário nos remetermos ao passado para compreender o presente, onde ainda precisamos refutar o mito da democracia racial, provar quantas vezes mais forem necessárias a nossas capacidade física e intelectual no labor e, concomitantemente, enfrentar os estigmas associados às pessoas gordas. Não obstante, essas barreiras cotidianas que nos impedem de acessar espaços de poder ou até mesmo de exercermos o mínimo de nossa autonomia, ainda é escamoteada nos espaços de debates políticos porque ainda pressupõe-se que falamos somente em “identidade” ou “multiculturalismo”, como se fosse algo menor que não contém urgências.

Acontece que para a população negra, sobretudo para nós mulheres negras, não se trata somente de nos apoderar das identidades políticas (mulher negra, lésbicas, gorda, sapatão, etc), se trata de debates mais profundos que dialogam exatamente pelo viés econômico (tal qual se expressa o capitalismo nos dias atuais: econômico, globalizado) pois são pelas identidades que carregamos e, principalmente, quando nos recusamos a sermos tiradas de tempo exatamente por causa delas, que se materializa ali os fundamentos racistas que nos impedem de exercer o bem viver em sociedade. Nesse sentido, é preciso disputas de narrativas internas e externas à nós mesmas para fortalecermos nosso íntimo, conseguindo expor as mazelas que nos atormentam constantemente.

Jéssica Ipólito

É mais conhecida como Jész Ipolito, Pesquisadora e escritora no blog Gorda&Sapatão; afrolatina y sórdida nos detalhes; sagitariana com ascendente em áries; graduanda no Bacharelado de Estudos de Gênero e Diversidade (UFBA).

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