Por Maya Quilolo* / Imagem: CNN US

O mundo tem um jeito escroto de brincar com os sentidos da gente. Quando tantos pulmões param de respirar e as pessoas se trancam em suas casas amedrontadas pela morte, probabilidade de becos e esquinas do cotidiano negro, um grito negro ressoa nos EUA, inflamado pelo fogo urgente da morte eminente e constatada. A pandemia que atinge o mundo branco (ainda pouco para o tamanho do mal do mundo), metaforiza o estado permanente a que as pessoas negras são condenadas: a sufocação do okan, uma parada cardíaca a cada notícia de morte, a palavra engolida, a revolta sufocada, a mágoa estacionada para sempre na traqueia.

O ar que nos resta é pouco, mas ainda suficiente para que reclamemos nosso direito a viver. Uma multidão em Minnesota  ressoa o grito negro de Fanon no icônico Pele Negra Máscaras Brancas: ” realmente não posso respirar”. I CAN’T BREATHE! (Eu não posso respirar!), gritam as pessoas negras em Minnesota, proclamando a vida assim rarefeita, para sempre aprisionada na bolha sufocante da plantation[1].

No pouco ar do sistema asfixiante restam poucas escolhas, e respirar não é uma delas. Como anunciado pelo revolucionário martinicano, há tempo vivemos num mundo onde respirar se tornou impossível, uma vez  que a cripta do capitalismo insiste em pousar seus pés de máquina mortífera sobre nossas gargantas.  No tempo da revolta, instante quase inexpressivo frente ao acúmulo de terror e morte,  nossa narinas emergem à superfície, expandindo os gesto do pouco existir para gritar I CANT BREATHE (Eu não posso respirar).

Que o ar aceso pelos nossos irmãos do norte passe também por aqui, animando as janelas das casas de João Pedros, Ágathas, Kauês, Kauãs, Cleitons, Robertos, Wesleys, Wiltons, Jenifers entre tantas outras que velam o corpo assassinado de filhos, filhas, pais, tios, avós. Que Oyá carregue esse sopro negro, corrente de ar atlântica, para atravessar a linha do equador adquirindo um pouco a moção tropical e suas cinzas amazônicas.

I CAN’T BREATHE (Eu não posso respirar), nenhum de nós pode. Nossa câmara de gás se realiza todos os dias a cada 23 minutos, não é preciso mais dados para medir, pois a balança está sempre desequilibrada. Quantos meses o COVID 19 levaria para matar à medida do Estado brasileiro ? Não sei dizer. Em meio a pandemia, nosso peito de mágoa sufocada permanece como alvo certo, de vírus ou de fuzil, na política de morte conduzida pelo que chamamos de democracia. Para vencer a asfixia do sentir negro, nós como povo preto precisamos alargar ainda mais as narinas e sentir o cheiro ocre, ferruginoso, do sangue que alimenta a máquina Brasil.

I CAN’T BREATHE (Eu não posso respirar), quero poder gritar. I CAN’T BREATHE (Eu não posso respirar), alargo as narinas para a dizer. I CAN’T BREATHE (Eu não posso respirar), digo. I CAN’T BREATHE (Eu não posso respirar), Fanon disse. I CAN’T BREATHE (Eu não posso respirar) disse George Floyd 46 anos, uma vida interrompida, o ar esmagado de todos nós, o grito de todos nós, o apelo pelo ar pouco, mas de direito.

 

Referências :

FANON, Frantz. Pele negra, máscaras brancas. Salvador: Ed. UFBA, 2008

[1] Sistema agrícola baseado na exploração de mão de obra escrava utilizado pela colonização europeia na América, África e Ásia. Sugestão de leitura: Memórias da plantação: Episódios de racismo cotidiano de Grada Kilomba

 

*Maya Quilolo é quilombola, antropóloga, artista e mestranda em Comunicação pela UFRB. Trabalha no entrocamento entre arte, antropologia e povos e comunidades tradicionais.