Temáticas de sexo abordadas no pagode baiano acendem o debate sobre sexualidade na infância

Por Andreza Cerqueira

Arte: Ani Ganzala

O pagode baiano faz parte de existências periféricas. Ele conecta noções de corporeidade, sensualidade e lazer. O ritmo também possui características próprias de consumo e difusão, sendo as redes sociais e as chamadas festas paredão, seus maiores veículos de espalhamento. Ao conectar realidades tidas como à margem da sociedade, o ritmo gera muitas controvérsias entre depreciação e empoderamento, principalmente por suas letras de conteúdo sexual, que acabam afetando e tendo como público, jovens negras. 

A professora e diretora Ilca Guimarães (35 anos, negra)  do Colégio Estadual Dionísio Cerqueira, no Nordeste de Amaralina, periferia de Salvador (BA), relata que em muitos momentos os alunos escolhem conversar com ela sobre temáticas de sexo e gênero. A educadora comenta que isso se deve mais por confiarem na figura dela, do que por considerarem aquele assunto de fato um tabu ou motivo de vergonha. Ela defende a educação sexual nas escolas.

Para Ilca, o pagode no ambiente escolar também é uma iniciativa válida, ainda que com ressalvas. A professora adota em sala de aula o uso de músicas de pagode – citando apenas a limitação de letras com conteúdo muito sexualizado ou que evoquem agressão física. Ao mesmo tempo, ela não cita as letras polêmicas em si como um fator de limitação, mas, a necessidade de tratar desses temas com mais cuidado. 

“Eu lembro de já ter desenvolvido um trabalho com eles [os estudantes] de recitar as músicas, independente da letra. Você acredita que quando era uma música muito ‘escrota’, eu deixava pra recitar. Sabe o que é que acontecia? Muitas vezes eles se recusaram a recitar. Eles diziam que não iam ler alto aquilo não”, relata. 

O pagode baiano é envolto de polêmicas, e tido para muitas pessoas como sexualizante e violento. Sofrendo grande repressão dos órgãos de controle e segurança pública, festas do ritmo em locais públicos em bairros de periferias, os chamados “paredões”, quase sempre são alvo de críticas e criminalização. Ilca é uma das defensoras do ritmo e considera que grande parte da repressão está associada ao racismo. “Quando eu penso na questão de ritmo, eu não consigo não pensar na questão do racismo. Eu tenho, já por intuição, que isso vai comandar de certo modo até a rejeição que muitos vão ter em relação a alguns tipos de música”, afirma.

Ilca Guimarães, Professora e Diretora da Rede Pública. Imagem: Acervo Pessoal

Na periferia tudo é cedo

Tertuliana Lustosa, mulher trans branca, de 25 anos, é cantora da banda de pagode A Travestis. Ela conta que sua própria infância foi marcada pelo ritmo: “O pagode sempre fez parte da minha infância, né? Tanto aqui na Bahia quanto no Piauí, eu me criei nesses dois lugares e são dois lugares onde o ritmo que prevalece nas periferias é o pagodão. Então, eu sempre curtia Saiddy Bamba, todo aquele samba de roda, aquele pagodão das antigas. Isso fez bastante parte da minha infância e mais recentemente o pagofunk, também.”

Ela afirma que em seus shows há uma presença constante de crianças, sendo isso uma realidade da própria periferia. “Nas periferias as crianças escutam o que toca nos bailes funks, o que toca nos paredões. Elas não vivem isoladas, elas vivem convivendo com a realidade da sociedade”, afirma a artista. Para ela, o contexto periférico faz com que muitas vezes as crianças desempenhem um papel diferente do que é construído socialmente. “A vida adulta chega muito antes, até o próprio tráfico é composto de muitas pessoas que tem de doze anos para dezessete, por exemplo. Então, a realidade de vida da criança na favela já perde um pouco desse conceito de infância que foi criado”, defende. 

Tertuliana Lustosa, Cantora. Imagem: Reprodução Instagram

Tertuliana comenta sobre as redes sociais ao falar sobre uma das suas músicas “Sento pro Moço do Gás”, evidenciando sua surpresa sobre a quantidade de visualizações no Tik Tok. Em sua opinião, a rede social é um dos veículos que permitem o público infantil acessar suas composições. 

Além disso, na visão de Tertuliana, que também é artista visual e educadora, ainda que fale sobre sexualidade – já gerando polêmica por isso, o pagode baiano ainda não abarca todas as performatividades de gênero e sexualidade, sendo ela inclusive,  uma das desbravadoras:  “Na minha visão, a sexualidade é falar abertamente. É muito importante porque faz as pessoas falarem sobre um tabu que precisa ser falado, né? E infelizmente, a sexualidade predominante no pagode baiano é heterossexualidade. Quando eu trouxe nas minhas músicas uma pegada LGBT e também cantado por uma cantora LGBT, eu acho que isso desmistificou também muitos tabus sobre esse tipo de sexualidade.”

O pagode baiano contém letras de músicas que quase sempre, ao serem enunciadas por homens, trazem discursividades sobre o sexo fixadas na heterossexualidade. Músicas que oscilam entre cantar sobre corpos de mulheres também informam sobre performances sexuais em uma abordagem cishetenormativa quase que em sua totalidade. Esse movimento vêm mudando, graças a presença de mulheres (cis e trans) e LGBTQIAP+, como “A Dama”, “Nininha Problemática”, “Aila Menezes” e a própria Tertuliana, que trazem em suas letras uma outra abordagem sobre sexo e sexualidades, além de um pouco de suas vivências,  de forma a pluralizar não apenas as letras mas, o ritmo – incorporando outras sonoridades e referências.

Um olhar a partir da Psicologia: Como nossos gostos são construídos? 

Flávia Fernanda (mulher negra de 34 anos), psicóloga clínica, também corrobora com o pensamento de Tertuliana, afirmando que a construção de gostos nas crianças é através da relação com outros sujeitos: “Como é que esses gostos vão se formando? Vou falar de um conceito muito psicanalítico, que é através da linguagem do outro. O sujeito se constrói através da linguagem. Então, a linguagem do outro. Aquele que diz, aquele que nomeia o que é certo, o que é errado, que vai inclusive colocando as normas sociais, infelizmente cheias de preconceitos, discriminações e isso vai perpassando também a noção de territorialidade”, pondera. 

Flávia nos traz apontamentos sobre de que forma abordar temáticas de sexo e sexualidade com crianças. “Nem sempre vai ser confortável. Mas, pode ser uma maneira possível para cada família. E que possa ser uma linguagem tratada ali com a criança, sem tanto constrangimento, sem tanto julgamento, sem tantos embaraços. E também respeitando a idade e a própria pergunta da criança”, afirma a especialista.

Flávia Fernanda, Psicóloga Clínica. Imagem: Acervo Pessoal 

O caminho é uma educação libertadora e inclusiva

Carla Souza e Kelly Castro são moradoras do bairro da Cidade Nova, periferia de Salvador. Ambas são negras, possuem a mesma idade – 33 anos, e são mães de uma menina e um menino de seis anos, respectivamente. Elas divergem quanto à temática do pagode na infância. Carla diz que na sua escola tocava pagode: “No Immanuel Kant, onde eu estudei, tocava os pagodes light. Era Harmonia e Mambolada. Esses [pagodes] pesados, não”. Já Kelly possui uma experiência oposta: “Eu não. Eu nunca ouvi pagode na escola. A não ser que a gente fizesse alguma zoada lá dentro”, afirma. 

Ao serem questionadas sobre como se posicionariam caso soubessem que a escola dos filhos estivesse tocando pagode, ambas relacionam isso à um posicionamento escolhido pela escola em si. Kelly mostra-se contra:  “Imagine? Eu ia achar um absurdo, mas tentaria ver de alguma forma pra não acontecer mais. Eu acho que eu ia ser minoria porque muita gente ia dizer ‘Ah, vai fazer o que?’’’, comenta. 

Carla e Kelly também comentam que seus filhos conhecem muitas músicas a partir das redes sociais, visto que, muitas das letras e temáticas em torno do sexo apresentam-se como vídeos e coreografias nas redes antes que elas consigam limitar o acesso. “É a geração Tik Tok, né? Só que tem algumas coisas que ela [minha filha] não tem noção. E aí eu recebi uma notificação [do aplicativo] que ia ser banida da minha conta. Acabou que eu perdi uma conta do TikTok por isso, porque disse que M. estava gravando o “não sei o que da Glock – balança, balança”, relata Carla, que não sabia que Glock é uma arma. “Outras também que tem, tipo assim, que xinga, aí eu falo ‘Filha, essa música não pode cantar porque xinga’. Aí pronto, ela já não ouve mais”, comenta.

Elas contam que não tiveram explicações acerca de sexo e sexualidade durante suas infâncias e juventudes. “Não teve não. Minha mãe falar sobre… Nunca! Eu tive meu primeiro namorado, foi passando o tempo, e ela sabe porque ela não é maluca. Mas não teve aquela conversa de dizer: ‘Olha minha mãe, eu dei’”, relata Kelly. Ela comenta que foi criada pelos avós, que não estabeleceram tal diálogo sequer com seus filhos.

Carla conta que nem depois da sua primeira experiência sexual teve suporte familiar com recomendações sobre contracepção, por exemplo. Ambas concordam que, parte dos seus aprendizados e informações durante suas primeiras experiências em torno de sexo e gênero vieram de outras amigas e outras pessoas que, ao contrário delas, tinham familiares que abriam esse canal de conversa. Essa ausência foi tão flagrante que elas sentem-se no compromisso de não repetir o mesmo com seus filhos. “O que a gente queria ter que não teve, a gente já vai querer dar diferente. Eu não tive, gente. É tanta loucura que eu fiz, se minha filha passar por tudo que eu… Ai você já quer fazer totalmente diferente”, comenta Carla. 

Na visão da psicóloga Flávia Fernanda o caminho é justamente o diálogo e não culpar fatores externos. Quando as crianças sofrem repressão isso apenas prejudica sua visão de mundo: “A construção da sexualidade, não parte apenas da condição de genitalidade. É a libido, é o que vai gerar pulsão de vida no sujeito. É o corpo, é a forma como esse sujeito se vê, se posiciona no mundo e localiza seu desejo”. A psicóloga afirma que  é um momento da vida em que os sujeitos estão construindo essa percepção de si e fazendo investigações sobre o mundo, sobre aqueles que cuidam dela. “E quando essas crianças sofrem repressões severas e até mesmo depreciações e julgamentos sociais, isso volta para ela como angústia, como culpa e conflitos sobre a sua subjetividade.”, declara.