Por Beatriz Almeida

Arte: Ani Ganzala

Por favor, levante a mão a mulher (as que se relacionam com homens) que nunca fez sexo sem o menor desejo genuíno. Vai me dizer que você nunca transou sem vontade? Seja sincera comigo, e consigo. Quantas vezes você não estava tão afim assim, mas cedeu para agradar o seu parceiro?

Nesse texto eu quero te falar sobre os impactos dessa modalidade de sexo na sua vida, tá pronta para esta conversa?

Durante a apuração desta reportagem eu conversei com duas mulheres que afirmaram vivenciar essa experiência, com um homem que me contou o que ele entende pela palavra “consentimento”. Também entrevistei três especialistas, uma terapeuta corporal, uma psicóloga afrocentrada e terapeuta integrativa sistêmica, e uma dupla de psicólogas especialistas em relacionamento.

Ilustração: Naira Bonfim

O que é consentimento nas relações?

Para começo de conversa quero te convidar a refletir sobre o conceito de CONSENTIR. Antes dessa rodada de conversas, falo de mim. Na minha experiência, consentimento tinha relação com permitir, deixar acontecer, dar autorização. Não só nas relações amorosas, mas nas amizades, negócios e vida em sociedade.

Apesar disso, para Paulo Gonzaga, um homem escritor de afetos que pensa sobre masculinidades negras, consentimento tem mais a ver com conexão do que com permissão. Para além da palavra de permissão dita, na sua experiência, ele percebe que precisa ser um convite de corpo inteiro de ambas as partes, não apenas da verbalização. 

Nesse ponto da entrevista minha cabeça explodiu e eu cheguei a conclusão que meus parceiros sexuais durante a vida poderiam ter estado atento aos meus sims pouco desejosos, muitas vezes não ditos com medo de desagradar ou ser vista por eles como “menos fogosa”. Paulo me mostrou que existem homens (mesmo que poucos) sensíveis aos sinais de negativa que o corpo de uma mulher pode apresentar em uma relação sexual, como pouca lubrificação, expressão de dor, falta de reações, etc, para além da minha fala atestando permissão.

Paulo Gonzaga é escritor de afetos e pensa sobre masculinidades negras – Imagem: Arquivo Pessoal

“Eu já cheguei a ter relação de fato sem querer, zero vontade e torcendo pra que aquilo acabasse logo, pra poder satisfazer a vontade do outro. Até às vezes… não vou me dizer me sentindo usada, mas assim é tipo ‘vá goze logo aí, goze e acabe com isso’, sabe?”, trecho do relato de uma mulher que preferiu não ser identificada.

Assista ao vídeo “O Único Tipo de Consentimento Aceitável é o Consentimento Entusiasmado”.

Fui em busca de outras mulheres que haviam passado pela peculiar experiência de transar sem vontade e estivessem dispostas a falar. Encontrei uma profissional de comunicação e uma empreendedora que toparam contar a suas experiências sem expor seus nomes, nesta reportagem vou chamá-las de Carla e Anne.

Carla conta que na gestação sua libido, que já não é das mais altas, desceu drasticamente, e por muitas vezes seu companheiro demonstrava certa insistência. Levando Carla a experiências constantes de sexo sem desejo. Experiências que algumas vezes terminavam em crises de choro.

Anne refletiu que muitas vezes se colocou em experiências que não queria estar, mas que acreditava que precisar fazer. “E aí foram transas agressivas, sem conexão, sem contato físico, onde eu me senti apenas um buraco para meu parceiro naquele momento”.

Segundo a psicóloga afrocentrada, Lizandra Aguiar, as experiências sexuais, são extensão da forma que nos relacionamos. Então, se no geral, temos anseio por agradar, na relação sexual esse traço se repete. “Esse comportamento pode ser fruto de padrões de vínculo de apego,  iniciados na infância e re-encenados no agora como possível consequência de um processo de percepções, sensações e julgamentos desde a fase intra-uterina”, explica Lizandra. 

Lizandra Aguiar é psicóloga afrocentrada e acredita que a questão tem forte relação como o medo de rejeição do parceiro – Imagem: Arquivo pessoal

Pensar na possibilidade de negar essa relação pode acionar os medos mais diversos e profundos destas mulheres.  O que abre um diálogo mental que traz questões como: “e se” eu negar e ele procurar outra; “e se” com o acúmulo dos “meus nãos” ele me ignorar; “e se” ele sentir-se magoado, entre outras ilusões que levam a raiz destes medos: o do abandonado e rejeição. “Nosso corpo carrega uma sabedoria de sobrevivência, que qualquer sinal análogo a dores já vividas, acionamos respostas para nos preservar. Ainda que essa resposta seja lida pela consciência moral como erro, que nesse caso seria a permissividade”, explica a matrigestora da rede @Iyami_terapias.

Vida sexual não é só sobre fazer sexo… ou pelo menos não deveria

Como diz o meme, preliminar começa fora da cama, oral e masturbação já é sexo. Pois bem, ele é a base do entendimento de que a vida sexual vai muito além do conjunto de relações que você, mulher que se relaciona com homens, terá com seu parceiro. 

Em uma sociedade patriarcal e racista que a educação sexual é censurada pelo próprio governo, nós crescemos sem repertório sobre sexualidades. O que nos leva a aprender na prática, através da pornografia e da experiência de outros, amigos e parceiros. Mas, o que uma profissional tecnicamente pronta para instruir diria é que as experiências sexuais são particulares e únicas. E que nem sempre cada pessoa terá o mesmo padrão de interesse no sexo, seja em intensidades e formatos. E isso é completamente normal.

Vivemos uma cultura que hipervaloriza o sexo. Mesmo que pessoalmente se interesse o tempo todo, esta não é a realidade para parte da população. Nesse momento trago rápidos exemplos como eu que (nos poucos dias que vejo meu namorado) passo mais dias sem transar do que ao contrário. E Paulo, que na entrevista compartilhou a sua experiência de ser “bem de boa quanto a sexo” relatando que normalmente suas parceiras são mais ativas nesse desejo. Condição que posteriormente descobriu ser biológica, por uma baixa produção de testosterona no seu corpo.

A terapeuta corporal Hundira Cunha  sugere que antes de patologizar esses traumas mais recentes, precisamos voltar à nossa infância, adolescência e lembrar como foi nosso primeiro contato com nosso corpo, e nossa compreensão de gênero e sexualidade. Como a menstruação foi recebida e explicada? Quais tipos de retaliação sofremos por transgredir alguma regra social impostas pelos adultos? Como sentar de pernas abertas, por exemplo. 

A ideia de não tratar os traumas como acontecimentos isolados, extraordinários e no lugar da patologização apareceu na fala das 3 especialistas que conversei. Hundira trouxe a perspectiva de que nascer já é um trauma e que ao longo da vida outros surgem, como os gritos que podemos vir a receber, as ordens, até a forma de pentear o cabelo dos nossos país. Por vezes traumas pequenos impactam mais do que alguns que, pela regra geral, podem ser maiores. 

A psicóloga Lizandra lembra que a traumatização ocorre a partir do que nós damos de significado às experiências vividas, e não do evento em si. Logo, se nessa relação sem consentimento, o corpo, à partir de antigas memórias, registra como limites invadidos, pode-se configurar uma traumatizacão – que terá impactos múltiplos e subjetivos para  cada mulher – que levará em conta sobretudo seu histórico de vida.

Como deve acontecer uma relação sexual, se consentimento não basta?

Desejada e prazerosa para ambos os lados. Dentro de um estado de conexão profunda no ato, seja entre desconhecidos ou companheiros, o diálogo precisa existir. Fluidos corporais e lubrificação.

Viaje comigo na analogia que Hundira fez para nos explicar a importância do querer e se molhar de vontade. 

“Imagine você comer uma comida sem salivar, sua boca seca e você mastigando para fazer essa comida entrar, você vai ter afta, pode ter uma garganta inflamada, engasgar, e isso acontece lá embaixo também.”

Para Anne é muito importante estar com pessoas que não tenham medo de reconhecer a grandiosidade da mulher que ela é. Pessoas que também acreditem que o sexo casual precisa envolver respeito, admiração, cuidado, que por ser casual não precise ser de qualquer jeito. 

“Uma relação sexual funcional é aquela que cumpre o papel de trazer prazer para ambas as partes. Prazer não apenas no corpo, mas em toda subjetividade daquele sujeito, sendo ela uma relação estável e contínua ou uma relação transitória”. Segundo a psicóloga especialista em relacionamentos Vanessa dos Santos, esta relação deixa de ser funcional no momento em que o desconforto, a dor, a falta de prazer acontece para uma das partes.

Pela lógica, para estar em uma relação prazerosa, nós precisamos saber o que nos dá prazer. Nenhuma pessoa será capaz de saber exatamente o que te excita e deixa confortável, melhor do que você mesma. “Nós não sabemos quais são os nossos limites porque desde que nascemos nossas fronteiras são muito desrespeitadas. Eu precisei primeiro saber como eu sinto prazer, porque para mim, essa relação com o meu corpo, de toque e de descoberta, só veio depois dos 25, e hoje eu tenho 38 anos”, relata Hundira. 

Qual o contexto histórico e social de meninas e mulheres que alugam seu corpo ao prazer do outro

A dupla de psicólogas Vanessa Gon e Michele Alencar trabalharam por mais de 15 anos na área social e com mulheres em situação de violência. Hoje atendem na área clínica no âmbito de relacionamentos. Durante a entrevista, elas compartilharam que a maioria dos atendimentos são feitos para mulheres, especialmente as negras. E elas percebem que fatores sociais como a necessidade de se ter um relacionamento faz com que muitas mulheres coloquem o próprio corpo e os sentimentos em último lugar. “Elas acabam tendo relações sexuais em um contexto de permissão e não de necessidade, e mesmo que isso cause marcas emocionais nesta mulher, ela pode não levar como algo complicado e que gerou dor”. Vanessa ainda completa, explicando que o impacto psicológico gerado pode estar associado a quadros de depressão, transtornos de ansiedade e problemas relacionados à autoestima.

Para Anne, por exemplo, o fato dela ceder à vontade de homens, sejam amigos ou paqueras, tem a ver com as experiências que vivenciou na infância. “Eu venho de uma família que a figura paterna não era aberta ao diálogo, que sempre me coagia a fazer coisas e me fazia sentir culpada por não fazer”, explica. Ela percebe que sempre acaba se relacionando com pessoas para as quais tem uma profunda dificuldade de dizer não.

Vanessa Gon e Michele Alencar são psicólogas e trabalharam por mais de 15 anos com mulheres em situação de violência

Para Hundira Cunha, meninas que passam por situações de abuso podem se abrir ao sexo em uma pespectiva pouco saudável, porque esses corpos já foram violados e elas sentem que precisam se colocar no lugar da violação para de alguma forma sentir-se amadas. Por abuso entende-se não apenas o sexual. Gritos, chantagens e naturalização de atitudes violentas também são formas de abuso, psicológico e/ou emocional. Eu, mulher negra que escrevo esta reportagem, tenho algumas características sintomáticas de alguém que vivenciou abuso, como não lembrar de parte da infância e certa aversão à homens, apesar de bissexual. Descobri junto a minha psicóloga, que apesar de nunca ter sido abusada sexualmente, na infância, vivi abusos psicológicos, o que justifica algumas características da minha forma de ser hoje. 

Outro fator marcante para o contexto social que naturaliza relações sexuais consentidas porém não desejadas, é a justificativa masculina de necessidade sexual. Mulheres são levadas a acreditar que se não satisfazerem seus homens, eles vão “procurar na rua o que não encontram em casa”. Esse foi o contexto vivenciado por Carla, que ao ser traída foi culpabilizada por sua baixa líbido. “Eu fiquei muito chateada e frustrada porque mesmo com essa situação de eu transar sem vontade, ainda soube posteriormente de situações de traição. E aí foi alegada a questão de que para não me deixar desconfortável e pra que eu não ficasse tendo relações sem vontade ele optou por ficar com outras pessoas”.

A psicóloga Michele explica que a fala é o último canal de comunicação a se perceber dentro do contexto relacional, antes disso os 5 sentidos já mostram sinais. Apesar disso, existe a necessidade de um treino para que o casal possa enxergar o outro além daquilo que está sendo dito. E que em muitas sessões de terapia de casais heterossexuais, para os companheiros é uma grande surpresa ouvir que suas companheiras muitas vezes transam sem vontade com eles. 

Para exemplificar como estas situações podem ser mais comuns do que parecem, trago a história de Paulo, homem que sempre buscou repensar sua masculinidade. Ele conta que em uma dada relação sexual, percebeu algo estranho na sua companheira, alguém que se relacionava há pouco tempo. Ele diz ter parado e perguntado se estava tudo bem por duas vezes, afinal percebia algo diferente, mas ambas as vezes ela disse que estava tudo bem e pediu que ele continuasse. Até que em um momento ela começou a chorar, e depois de acalmá-la Paulo conseguiu fazer com que ela contasse. Era dor. Ela estava sentindo dor com a posição, mas alegou desejar que ele tivesse prazer, por isso seguiu com a transa.  

“Depois disso eu decidi que na dúvida devo ir sempre por mim, porque às vezes a pessoa tem uma construção de não dizer, mas no corpo, tendo conexão ali no ato, a maioria das vezes dá para perceber. Às vezes a pessoa vira, tira sua mão, faz uma expressão diferente”

Quais impactos psicossociais desta violência, e como eles aparecem?

As consequências de se permitir estar em uma relação sexual exclusivamente para agradar ou por medo de se posicionar podem ser as mais diversas, desde crises de choro durante o ato, até processos mais profundos como sentir nojo do seu corpo.

Algumas lógicas de relacionamento e até experiências de vida nos dizem que está tudo bem passar por isso e que outras mulheres também passam. Mas, não se engane, isso é naturalizar a violação dos nossos corpos.

Segundo Hundira, todas essas tensões podem resultar em experiências corporais de dor. “Quantas mulheres você não conhece que só vive dizendo que sente dor no corpo todo? Dor na cabeça, nas pernas, nos quartos, mas não sabem se essa dor tem a ver com processos hormonais e clínicos ou se é uma dor de acúmulo de tensão”, explica. 

O orgasmo faz a gente vibrar para ter uma alta de ocitocina, você goza e treme. Tremer é bom porque faz com que você descarregue tensões, e o sexo é tenso. Você ali metendo, puxando, esticando, até que chega no climax, e depois esse corpo se reorganiza soltando tensões.Agora imagine o que reverbera em seu corpo, você ter um sexo tensa, porque no fundo você não quer e no final você não tem essa curva maravilhosa de liberação? Você fica presa na tensão, essa história de que homem termina de transar e dorme e mulher não… não dormiu porque não gozou”, finaliza Hundira.

Muita coisa, né?!

Mas você que chegou até aqui e se identificou de alguma forma com esse texto e relatos, espero que a consciência te ajude a se acolher mais, respeitar seus limites e fazer escolhas por você. Relações violentas não são seguras para nenhuma pessoa. 

Para que você possa reconhecer as suas questões individuais, as suas necessidades e o que precisa ser cuidado dentro de você, vai precisar estar disponível a olhar tudo isso. Entender as marcas emocionais e psicológicas que essas situações podem ter deixado e qual a gravidade de tudo isso.

**Esta Reportagem foi atualizada em 23/02/2022