Jonas Pinheiro

Hoje, 21 de março, é o Dia Internacional de Luta pela Eliminação da Discriminação Racial. Instituído pela Organização das Nações Unidas (ONU) a data faz referência ao episódio que ficou conhecido como o Massacre de Sharpeville. Nesta data em 1960, durante o regime de apartheid, um protesto pacífico organizado pelo Congresso Pan-Africano (PAC) em Joanesburgo contra a Lei do Passe, que obrigava a população negra a portar um cartão contendo os locais em que poderiam circular, foi alvo da violência policial que abriu fogo contra a multidão e deixou 186 pessoas feridas e 69 mortas.

No Brasil, diferente da própria África do Sul e de outros países, nenhuma lei institui escancaradamente a segregação das populações negras. Este cenário nos levou a uma situação em que por anos negou-se a desigualdade entre brancos e negros, levando boa parte da população a crer que não existia racismo no país.

Atualmente os números do Mapa na Violência demonstram que pessoas negras têm mais chances de morrer numa escancarada necropolítica do Estado Brasileiro. Estima-se que a cada 23 minutos um jovem negro é assassinado no país, nosso Sharpeville é diário. A letalidade policial é seletiva, e somos a maioria dos encarcerados.

Em tempos de uma pandemia global, que irá mudar decisivamente o modo de vida das pessoas, são as negras as mais vulneráveis diante do alastramento do novo coronavírus (Covid 19). Isto é resultado de uma série de negações e perpetuação do racismo estrutural durante séculos. Empurrados às periferias, nosso povo vive com condições mínimas ou de quase zero de saneamento básico. Sujeitas a outras séries de violências, elas terão de lidar pelos próximos meses com um processo de isolamento social em moradias muitas vezes precárias e sem o mínimo para resistir e sobreviver ao coronavírus.

Esta também é uma das faces do genocídio denunciado ao longo da história pelos Movimentos Negros. Nosso apartheid é “disfarçado todo dia”, e as organizações negras mais do que nunca trabalharão o tempo todo para escancarar que Sharpeville nem é tão longe assim da nossa realidade.