Nota da Articulação Nacional de Negras Jovens Feministas (ANJF)

Quando sigo o meu caminho.

Já sei onde vou chegar

Mesmo quando vejo espinhos.

Não posso desanimar

Meu olhar segue a luz.

Energia que me conduz

E me faz contemplar.

Na certeza de alcançar

Dona Ivone Lara

 

Ser negra e jovem é refletir sobre o futuro todos os dias. Sonhamos com a possibilidade do projeto político do Bem Viver, do direito à vida, das realizações profissionais, afetivas, individuais e coletivas. Ousamos sonhar e ser Sonhos em uma sociedade marcada pelas estruturas racistas, sexistas e desiguais. Quando falamos de sonhos no contexto da pandemia do coronavírus lembramos quantas vezes os sonhos da nossa gente negra foram e continuam sendo interrompidos pela política de morte e exploração que funda o Brasil.

O coronavírus impõe para nós, negras jovens e população negra em geral,  a ocupação dos espaços de maiores riscos da conjuntura, por diferentes perspectivas: na saúde física e mental, emprego e renda, alimentação, moradia, violência – seremos nós as mais expostas a todo tipo de risco que esse momento irá gerar. Por isso queremos dizer a todas as negras jovens deste país, não é tempo de desespero ou tomada de decisão sem preparo, mas de cautela e cuidado extremo para com nós mesmas e as pessoas mais próximas de nós.

NÃO ACREDITEM NO QUE O PRESIDENTE DIZ !

Inspiradas na nossa ancestralidade e história de resistência, gostaríamos de dialogar com todas as negras jovens e suas famílias e comunidades: NÃO ACREDITEM NO QUE O PRESIDENTE DIZ! Esse homem já provou muitas vezes que atua com um projeto político genocida. Ele não é “louco”, nem “insano”, nem qualquer outro adjetivo do tipo.

Está muito evidente para nós, da ANJF, que a eleição do BIRULIRO é um projeto a serviço do grande capital, do lucro desenfreado e das grandes corporações, do valor mais extremo do dinheiro em detrimento da vida.

Não podemos deixar que nossas famílias e comunidades acreditem que é só “uma gripezinha” como ele mesmo disse. Não podemos deixar todo trabalho de conscientização, feito até agora, vá embora pelo ralo por conta desses discursos violentos e que simplesmente desrespeitam autoridades, especialistas e pessoas que estão no olho do furacão da pandemia do COVID19.

Os movimentos de mulheres negras, bem como nós da juventude, estamos propondo há muito tempo o aquilombamento das pessoas negras, a retomada de nossas ancestralidades, de nossos saberes culturais. Toda essa política de exterminar a população preta e pobre não vem de hoje, sabemos muito bem, no entanto, tem tomado contornos mais aprofundados conforme cada peça de xadrez é movimentada por Jair Bolsonaro e seus parceiros políticos.

É um projeto contra nós, população negra, periférica, pobre, que depende da nossa própria força de trabalho para continuar seguindo. Muitas de nossas famílias tiveram benefícios cortados, empregos e trabalhos precarizados cada vez mais, perspetiva de vida completamente amortizada pelas medidas que o governo atual vêm tomando.

Nossa mensagem aqui e agora é para que continuemos firmes e fortes na luta contra essa pandemia, enfatizando a necessidade de QUEM PUDER, fique em casa; QUEM PUDER, cumpra as medidas de isolamento; e QUEM NÃO PUDER, tenta cumprir todas as medidas de higiene recomendadas; Procure outras manas que tão na dureza para passar juntas esses dias.

Acreditamos na ancestralidade e na força da natureza, para seguir resistindo a este cenário. Forjadas nos passos que vem de longe, sempre vivemos em comunidade e a rua sempre foi o lugar do ganha pão das mulheres negras desde o execrável e nem tão distante tempo da escravidão; o contato e a troca sempre foram nossa maior força e nossa sobrevivência, estamos diante de um cenário que requer resgates históricos para atualização da estratégia que é aquilombar. Usaremos as tecnologias de aliada nessa missão.

Diante de um cenário de isolamento social que interrompe a máquina capitalista de funcionar, onde estamos nós, as mulheres negras? Onde estamos nós, negras jovens periféricas, pobres, estagiárias, diaristas, autônomas, empreendedoras, artistas? Em tempos de pandemia, temos que continuar  trabalhando para pagar as contas, cuidar dos nosses, conscientizar a nossa família, amigues, comunidade da importância de prevenção e traçar estratégias de manter a saúde mental e nossa fé erguida.

Numa quarentena que não acolhe a todes, não acolhe a população negra trabalhadora, pessoas em situação de rua, ambulantes, as trabalhadoras domésticas,  vendedores de pequenos negócios, as baianas de acarajé, ou seja, todas as pessoas, é medida de emergência exercer a solidariedade.

 

Brasil, 26 de março de 2020

Articulação Nacional de Negras Jovens Feministas (ANJF)