Desmontando a letra pálida da esquerda colonial através da minha vivência que virou ciência

Por Maria Raiane Felix Bezerra* / Imagem: Januário Garcia 

Através da minha pesquisa monográfica eu proponho analisar como mulheres negras integrantes do GRUNEC- Grupo de Valorização Negra do Cariri (CE) articulam o debate sobre raça e gênero a partir de suas atuações internas nos partidos políticos que as atravessam no contexto do Cariri cearense. O GRUNEC é uma entidade importantíssima para a região e um dos principais articuladores do movimento negro há mais de 20 anos. O grupo é composto por pessoas negras e não negras que lutam por uma pauta em comum, a autoafirmação das manifestações do povo negro em suas origens e as suas contribuições na construção do país. É uma entidade sem fins lucrativos, composta por diversas pessoas que entendem a importância da luta político-social-consciente.

À frente desse grupo encontram-se mulheres negras que também desempenham/desempenharam atuações políticas em outras organizações. À exemplo, no movimento de mulheres negras e partidos políticos como o Partido Socialismo e Liberdade (PSOL) e o Partido dos Trabalhadores (PT). É nesse recorte, que proponho o diálogo na minha monografia.

O interesse em relação ao tema de pesquisa surgiu de inquietações atravessadas a partir do meu ingresso na militância político partidária. Inquietações estas que eram relacionadas a como se debatia a ideia de “mulher” naquele espaço. O formato e conteúdo das discussões tinham forma homogênea de se pensar MULHER, não levando em consideração as especificidades das mulheres negras, que inclusive, integravam o partido. Esse cenário remete a ideia universalizante da categoria “mulher” e Sojouner Truth, em 1851, já havia questionado em relação a isso “E não sou uma mulher?”. Tendo em vista que o Brasil é um país multirracial e multicultural, e que a importância de novas metodologias de análise possibilitam reconhecimento de vida a um determinado grupo historicamente esquecido: as mulheres negras atravessadas pela estrutura racista e machista.

As problemáticas ligadas às pautas debatidas foram responsáveis pelo momento da minha ruptura com o partido político em que fazia parte. Desse modo, o contato com os escritos de Lélia Gonzalez (1983) me fez perceber que as minhas experiências de frustrações relacionadas aos debates que priorizassem pautas interseccionais – raça, gênero, classe – no âmbito partidário, não se resumia apenas a minha vivência política partidária, mas que também poderiam fazer parte da vida de outras mulheres negras.

Partindo do contato com as experiências e elaborações teóricas de Gonzalez (1983) no que diz respeito, sobretudo, à sua trajetória no Partido dos Trabalhadores (PT), encontro como ferramenta para análise teórica, um conceito fundamental para compreensão dessa NÃO DISCUSSÃO RACIAL: Racismo por Omissão”, conceito cunhado para exposição de uma situação em que o PT foi omisso em rede televisiva, não expondo em seu programa político a questão do racismo no Brasil, mesmo tendo em seu interior pessoas negras que estavam articulando as ações contra o racismo.

Ainda nos acontecimentos que me aproximaram da ideia de sustentar essa pesquisa, remeto uma situação ocorrida no ano de 2018, quando era membra do partido X. Participava do congresso estadual onde foi debatidas pautas a serem levadas ao congresso nacional desse partido novo, que estava em processo de legalização. Foi conversado em relação às secretarias que iam compor a nova organização. Tribunas relacionadas à cultura, negros e negras, juventude e mulheres estavam sendo avaliadas para serem votadas. Nas divisões de grupo para leitura das tribunas, fui para o grupo de mulheres, senti falta quando o texto intitulado “mulheres do Brasil”, não teve o cuidado de citar as mulheres negras em nenhum momento. Nenhum rodapé. Assim, através do meu posicionamento, exigindo e afirmando que as mulheres negras são fundamentais para o que se entende por “mulheres do Brasil”, foi discutido se eu e uma irmã poderíamos escrever algo relacionado às mulheres negras e colocado em votação.

O fato dessa discussão sobre “abrir exceção” para que fosse construída uma nova tribuna sobre mulheres, principalmente, “mulheres negras”, foi me dirigido como forma exclusivamente identitária, e mais uma vez, remeto ao pensamento e questionamento de como poderia ser discutida a questão racial com seriedade nesse espaço. Esse momento em específico remete a pensar com Gonzalez (1983) que o Racismo por Omissão caracteriza a forma que esses dois espaços de deliberações partidárias trataram como não importantes as discussões de cunho racial, tanto o partido X como o PT.

Ao me afastar de alguns espaços de discussão política e decidir que a leitura marxista debatida naqueles espaços não supria e não articulava as minhas especificidades enquanto mulher negra, tive a oportunidade de ir ao Encontro Nacional de Mulheres Negras – 30 anos (ENMN+30), em Goiânia (GO), no mês de novembro de 2018, que partiu de uma articulação estadual, juntamente ao GRUNEC, Instituto Negra do Ceará (Inegra), Movimento Negro Unificado (MNU), povos de terreiro e quilombolas. No encontro tive contato com mulheres que partilharam de vivências que estão situadas num contexto histórico e numa rede discursiva que localiza sujeitas. Entre essas mulheres, Sueli Carneiro, Ângela Davis, Conceição Evaristo, Anielle Franco e Benedita da Silva. Através do que estávamos dispostas a discutir no ENMN+30, trazendo a ideia “Mulheres negras movem o Brasil”, desperta novamente a necessidade de nos articularmos enquanto grupo racialmente destinado aos lugares subalternos, que são visibilizados como elementos decorativos, com ideal e inclusão, sem compromisso real com a luta antirracista, inclusive, pautas relacionadas ao Feminismo Negro, bem exemplificado sobre qual era o lugar das mulheres negras no feminismo, no interior dele (CARNEIRO, 2003).

Já sabemos que a forma do fazer político europeu se beneficia da estrutura criada por eles através de amarras impostas pela colonização dos nossos corpos e mentes. O racismo como o capitalismo são estruturas que delimitam até onde podemos ir. Mas há um pensamento majoritário que destrata a forma que o racismo nos atravessa coRtidianamente e historicamente, considerando assim, apenas o impacto do capitalismo, passando uma velha camada de tinta e agindo como se o racismo já tivesse sido ultrapassado. Nisso a estrutura racista não é considerada no centro da política europeia, ou mesmo, nos partidos políticos que mais se “aproximam” da representação para pessoas negras (KILOMBA, 2019).

Se os partidos políticos são de origem europeia, consequentemente seus ideais também serão. Trato como descaso essa não importância de pessoas negras enquanto sujeitos políticos, sociais e individuais. Grada Kilomba (2019) nos diz que para ser considerado como “sujeito” é preciso que a pessoa alcance um “status” onde seus interesses individuais e coletivos sejam reconhecidos na sociedade. O racismo não permite que esse status seja alcançado e que qualquer pessoa racializada não conseguirá realizar a validação do “ser sujeito”

Existe o ser completo e o ser incompleto, dessa forma, o racismo passa por tornar sujeitos negros pessoas incompletas que obviamente não são pessoas consideradas completas. Para a sustentação real do racismo, as pessoas completas seriam aquelas que mantivessem ou mantém o poder, poder esse que faz tornar real a ideia de reconhecimento de um grupo em detrimento do outro.

O racismo como uma criação da Supremacia Branca extingue grupos racializados e mantém a legitimidade da exclusão dos direitos do povo negro. Nessa pesquisa, as mulheres que aceitaram ser colaboradoras, também são consideradas “sujeitos incompletos”, pois não estão sendo representadas ou inclusas na esfera política, subjetiva, social e individual.

Tais formas de não consideração para com pessoas negras foram realizadas através da legitimidade que se tem de “não respeito” quando se trata do político, social e individual que também são reforçados pela lógica que é produzida nos métodos referentes ao conhecimento universal que tem o poder de privá-las da auto percepção. Aqui vos digo também que essa pesquisa é para que as pessoas negras sejam além do objeto de pesquisa, mas, a (o) própria (o) autora (o) a narrar vivências, que aqui serão, sobretudo, reconhecidas como sujeito político-social-individual, a todos os escritos que antecederam esse estudo a quem a supremacia branca negou através de sua regra que mantém a universalidade e determina quem pode falar (KILOMBA, 2019).

 

*Estudante de ciências sociais, LGBT, pesquisadora, escritora e  membra do grupo de estudos NEGRER.  É Defensora da vida do povo preto e integrante do Grupo de Valorização Negra do Cariri- GRUNEC e da Rede de Mulheres Negras do Ceará.

 

 

Referências bibliográficas:

Carneiro, S. (2003). Mulheres em movimentoEstudos Avançados17(49), 117-133. Recuperado de http://www.revistas.usp.br/eav/article/view/9948

GONZALEZ, Lélia. Primavera para as rosas negras: Lélia em primeira pessoa. Col. Organizada e editada pela UCPA- União dos Coletivos Pan-Africanistas. Diáspora Africana, 2018.

KILOMBA, Grada, 1968 – Memórias da plantação – episódios de racismo cotidiano / Grada Kilomba ; tradução Jess Oliveira. – 1. ed. – Rio de Janeiro: Cobogó, 2019.