Por Karla Souza
A ialorixá Agbá Ana de Ogum fez sua passagem na última quinta-feira (8), aos 85 anos. A informação foi confirmada em nota oficial do Ilê Axé Ojú Onírè, casa que ela liderava em São Paulo (SP). A morte ocorre em um período de luto ampliado no candomblé, dias após o falecimento de Mãe Carmen, e mobiliza diferentes casas tradicionais, que reconhecem em Agbá Ana uma referência na preservação das religiões de matriz africana.
Agbá Ana iniciou sua trajetória no candomblé na Bahia, na década de 1950, vinculada à Casa de Oxumarê, referência central da tradição nagô no Brasil. Formada sob os ensinamentos de Ìyálórìṣà Simplícia de Ògún, passou a integrar uma linhagem responsável pela salvaguarda de fundamentos transmitidos ao longo de gerações.
Com o tempo, sua postura religiosa e o compromisso com a coletividade a consolidaram como liderança reconhecida no meio do candomblé. Agbá Ana dedicou-se à formação de filhos e filhas de santo em diferentes regiões do país, à preservação do axé como herança cultural e à atuação no Conselho de Religiosos da Casa de Oxumarê.
Fundada no início do século XIX a partir da trajetória de Bàbá Tàlábí, sacerdote africano que chegou a Salvador em 1795 na condição de escravizado, a Casa de Oxumarê consolidou-se como espaço de organização religiosa, política e comunitária, reunindo diferentes etnias negras em torno da resistência à escravidão, à perseguição policial e ao apagamento das tradições de matriz africana.
“De trajetória irrefutavelmente ilibada, Agba Ana foi amada e admirada por todos que tiveram a honra de com ela conviver. Mulher de fé inabalável, sabedoria ancestral e profundo compromisso com o sagrado, dedicou sua vida à preservação, ao fortalecimento e à transmissão dos valores, fundamentos e ensinamentos que sustentam nossa tradição. Sua presença marcante, seu cuidado com a comunidade e sua firmeza espiritual deixam um legado que jamais será apagada”, registrou a Ilê Axé Ojú Onírè em nota oficial.
Após se estabelecer em São Paulo, Agbá Ana assumiu a liderança do Ilê Axé Ojú Onírè, onde exerceu papel central não apenas no campo religioso, mas também no âmbito comunitário. Reconhecida como Ana do Povo, tornou-se referência de acolhimento e orientação espiritual para pessoas que encontraram no candomblé um espaço de pertencimento e afirmação.
O velório de Agbá Ana acontece nesta sexta-feira (9), na Rua Francisco Gizeudo Honório, em Embu das Artes, na Região Metropolitana de São Paulo. O sepultamento está previsto para o sábado (10), às 12h30.


