Jeane Tavares, doutora em saúde pública e administradora da página Saúde Mental da População Negra defende fim dos “meses coloridos”, por trazerem uma abordagem medicalizante, reducionista e perigosa

Por Patrícia Rosa, com contribuições de Andressa Franco

Imagem: A Tarde

A prevenção ao suicidio é o assunto do Setembro Amarelo, o debate é levantado nas redes sociais e nas rodas de conversa. A campanha foi criada em 2014 pela  Associação Brasileira de Psiquiatria (ABP), em parceria com o Conselho Federal de Medicina (CFM). Este ano o tema do evento anual é “o agir salva vidas”. 

A campanha é relacionada à um grave problema de saúde pública, de acordo a Organização Mundial da Saúde (OMS) o suicídio está entre as vinte principais causas de morte ao redor do mundo. O estudo traz que cerca de 800 mil pessoas são vitimadas anualmente. No Brasil, o número dos casos de jovens e adolescentes negros que tiram suas próprias vidas é 45% maior do que entre brancos, de acordo com os dados do Ministério de Saúde em parceria com a Universidade de Brasília (UnB).

“Somos uma população com maiores níveis de desemprego, que vivem nos territórios com pior infraestrutura. Os jovens negros são os que mais são assassinados no Brasil, são também os que mais se suicidam no Brasil e isso não aparece. Toda representação imagética dessa campanha, é baseada em pessoas brancas e flores amarelas e coisas que não fazem sentido, isso reforça a invisibilização do nosso sofrimento e o que é dado como propósito?”

Essa é a fala de Jeane Tavares, ela é psicóloga, doutora em Saúde Pública e professora da Universidade Federal do Recôncavo da Bahia(UFRB). A profissional de saúde levanta o debate sobre o perigo dos meses coloridos, e nem sempre agrada aos apoiadores da campanha: “o setembro amarelo tem que acabar, aumenta a ansiedade, expõe quem tem ideação suicida…”, afirma a psicóloga em uma das suas publicações.

Jeane fala em entrevista do desagrado das pessoas, quando ela  vai contra a mobilização:

“Eu não estou em  hipótese alguma defendendo a não comunicação sobre o suicidio, o que eu estou falando é que essa abordagem é medicalizante, reducionista  perigosa e que a gente precisa abrir o olho, principalmente  a população negra” diz a psicóloga .

A Afirmativa entrevistou Jeane Tavares, psicóloga, doutora em Saúde Pública
e professora da Universidade Federal do Recôncavo da Bahia(UFRB)

Confira a entrevista com Jeane Tavares, sobre o “Setembro Amarelo”, suas problemáticas e como a saúde mental da população negra é afetada diante do racismo e da exclusão social.

RA: A senhora já se posicionou nas redes como sendo “totalmente contrária a esses meses coloridos que só servem para vender equipamentos e atendimentos”, colocando o Setembro Amarelo como uma discussão que desperta gatilhos e é perigosa/equivocada nas redes. Pode comentar a sua posição sobre essas campanhas?

Problemas como os que são trazidos nestes meses coloridos não se resolvem por campanha, inclusive podem ser agravados quando toda mobilização para sua resolução fica restrita a um mês. Quando todos os profissionais de saúde e público acreditam que fazendo um determinado evento, falando sobre determinado assunto, ou indo para determinado profissional de saúde. Isso traz um prejuízo, porque  passa a informação de que, por exemplo, aquele determinado mês vai ter uma mobilização para todo mundo fazer mamografia, e em um ano inteiro eu não converso com minha ginecologista. Os homens aparecem para fazer um exame em  novembro,  arrastados por suas mulheres, e nunca mais vão ao médico. Então, essas campanhas são aparentemente boas e benéficas, porque o discurso que é falado entra assim: não temos um sistema que funcione, então vamos fazer um remendo aqui e você vai poder fazer nesse momento, o que deveria ter sido feito o ano todo. A gente tem a covid-19, então tem uma campanha e mobilização nacional, todo mundo falando sobre o assunto. Era o que deveria ter sido feito, todo mundo vacinado, a vigilância sanitária nos aeroportos, nas fronteiras, nas instituições de saúde, era isso que deveria ter sido feito já no início da pandemia. Uma campanha é boa para isso, a gente tem um “enfrentamento de guerra”. A gente tem um incêndio que precisa ser apagado. A campanha em um mês não diz assim: ‘Olha, o suicídio é um processo coletivo, é isso que a ciência diz, também não é uma escolha individual. O suicídio não é sobre morte é sobre a cessação de sofrimento,  é quando uma pessoa olha pra sua vida e não tem mais esperança’. As pessoas ficam muito sentidas comigo quando eu falo sobre isso, elas tem um amor a  essas campanhas, tipo “isso vai salvar as nossas vidas”. Eu não estou aqui em hipótese alguma defendendo a não comunicação, o que eu estou falando é que essa abordagem é medicalizante, reducionista, perigosa e que a gente precisa abrir o olho, principalmente  a população negra, porque isso é manipulação de sofrimento. 

Então, essas campanhas são aparentemente boas e benéficas, porque o discurso que é falado entra assim: não temos um sistema que funcione, então vamos fazer um remendo aqui e você vai poder fazer nesse momento, o que deveria ter sido feito o ano todo.

RA: Gostaria que comentasse sobre a problemática de ter como única utilidade a venda de equipamentos e atendimentos, como também sobre como é trazer essa mobilização exclusivamente nas redes sociais.

É uma mobilização que já está acabando, são os quinze primeiros dias, que tem esse boom de coisas e aí depois surge um certo: vamos parar de falar disso, vamos falar agora de outras coisas. Porque a rede social é assim, você fala uma semana de um assunto, e já é um “tá falando muito tempo, já tem meses falando o assunto”. Então meio que já acabou também, quem teve que falar já falou, já se promoveram com o assunto. Só que, [enquanto profissionais e  pessoas bem intencionadas] que oferecem seus serviços agora vão falar sobre outros assuntos, quem já tinha ideação suicida, passou a primeira parte do mês sendo bombardeado, recebendo informações, muitas delas  distorcidas, a partir da origem da proposta. Não é que as pessoas sejam mal intencionadas não. Só que é  uma exposição muito grande,  num curto período de tempo, de informações que podem inclusive servir, como elementos de muita ansiedade e de deflagração de interação e comportamento suicida nas pessoas, que já estavam vulnerabilizadas antes. 

Eu coloco como fatores precipitantes a violência policial, um homem negro ser revistado e humilhado em público, às vezes três vezes por dia, como isso não vai vulnerabilizar uma pessoa?

RA: Quais fatores você observa que tornam necessária a racialização do debate sobre saúde mental?

Muitas questões precisam ser  adequadas. Primeiro  a gente precisa de estudos populacionais sobre a saúde mental da  população negra, nós precisamos de uma campanha nacional. A gente precisa que o Sistema Nacional de Informações do SUS,  ele seja devidamente racializado pra gente saber exatamente o que está acontecendo conosco. Precisamos de números, de números populacionais, porque ser negro no Rio Grande do Sul não é igual a ser negro no Acre, na Bahia, no Mato Grosso. Então os principais livros sobre suicídio falam de dois tipos de  fatores. Existem fatores precipitantes, ou seja, são as coisas que aconteceram quase que imediatamente, antes do comportamento suicida e que normalmente estão associados ao caso. Então quais são esses fatores precipitantes: o fim de um relacionamento, o desemprego, perda de um emprego e por aí vai. O racismo como um fator precipitante não aparece nos textos dos livros, o racismo não aparece na discussão. Você não pode ter uma campanha que desconsidera o racismo, por exemplo, como um fator central para suicídio na população negra, indígena, e digo mais, em algumas pessoas brancas também, porque quando a gente considera branquitude e esse lugar hegemônico que o branco acredita que deve ocupar, quando ele não ocupa, ele também acha estranho e isso também pode gerar essa desesperança, e desenvolver um comportamento suicida. Eu coloco como fatores precipitantes a violência policial, um homem negro ser revistado e humilhado em público, às vezes três vezes por dia, como isso não vai vulnerabilizar uma pessoa? Eu tenho citado a Carolina Maria de Jesus no “Quarto de Despejo”. Ela fala várias vezes sobre o desejo de se suicidar e ela só não se suicida por conta dos filhos. E tem um trecho, se não me engano é  neste livro, que ela diz assim: “eu pensei seriamente em matar os meus filhos e me matar, nos matarmos todos, porque é muito sofrimento”. Isso não é falado no debate sobre suicidio, mulheres negras matam seus filhos e se suicidam depois, desde a escravização.  Quem vai falar sobre suicidio de mulheres negras são os viajantes,  eles  vêem a escravização e  escrevem sobre isso. Mas, o sofrimento dessas mulheres, esses suicídios  onde elas matam suas crianças aparecem nas páginas policiais dos jornais da época. Aparece dizendo que essa mulher era tão ruim, era tão má que cometeu  o ato de matar crianças  e depois se matou, que tinham um espírito ruim. Quando na verdade era um ato político, o que elas não queriam era ver os seus filhos escravizados, ou ver passando pelo mesmo que elas passaram.

Não é por um transtorno mental, é porque as condições de vida dessa população vulnerabilizam essas pessoas para ideação e comportamento suicida. E isso não vai ser discutido nesse modelo de identificação de sintomas, medicalização e internação, isso é manicômio. 

Então, são muitas coisas, o estupro sistemático de mulheres negras e indígenas  não aparece no debate sobre suicídio, a violência doméstica não é tratada nessa campanha como um fator  importante. Uma outra coisa é o abuso de álcool entre quilombolas, eles  não são selvagens, na verdade é porque eles têm os seus territórios invadidos, o agro entra cotidianamente em suas terras para ameaçar, e eles  não têm condições  de sobrevivência, não têm acesso a fontes de água. Não é por um transtorno mental, é porque as condições de vida dessa população vulnerabilizam essas pessoas para ideação e comportamento suicida. E isso não vai ser discutido nesse modelo de identificação de sintomas, medicalização e internação, isso é manicômio. Não era discutido antes,  não será discutido agora enquanto a gente mantiver esse tipo de abordagem sobre o tema. 

RA: Como você percebe as diferentes formas de impacto que a pandemia teve na saúde mental das pessoas a depender do lugar que elas ocupam na sociedade? 

Difere completamente. E a gente volta pra questão do desemprego e isso é só uma dimensão. Empregadas, na sua grande maioria mulheres negras, que não puderam parar na pandemia. Muitas delas presas dentro das casa dos patrões e não puderam voltar para suas próprias casas porque os patrões não queriam que elas trouxessem vírus  para a família deles. Esses patrões estavam em home office, fazendo delivery, pedindo comida. Mas, os motoboys, que são na sua maioria homens negros, não foram priorizados para vacinação. Categorias que tem prioritariamente pessoas negras, como os motoristas  e os profissionais da higiene, demoraram para serem vacinados. Quem precisou continuar pegando ônibus lotado, metrô lotado, ferry lotado foi a  população negra. Essa não foi a parte privilegiada da vacinação, porque a vacinação começa com pessoas com 98 anos, e nós não envelhecemos nessa idade. Começou com quem? Com idosos, brancos, que tinham condições de ir de carro. 

A gente tinha e tem uma população negra que não tem acesso a água limpa, isso está nos dados do IBGE. A gente tem uma população encarcerada que não tem direito a tomar água potável, a não ser quer o médico diga que ele precisa tomar água potável. Então a gente está falando de uma população que já estava vulnerabilizada antes de tal maneira, que mesmo as recomendações de prevenção são humilhantes. Aí quando a população negra não adota essas recomendações, porque não tem como cumprir, e fazem suas festas na periferia, a polícia entra mata e prende. Não estou defendendo aglomeração, nunca. Mas, eu compreendo perfeitamente que uma pessoa que está exposta ao vírus a semana inteira, porque tinha que trabalhar, e no final de semana, um único momento de lazer, vai ao  paredão, ou ao  churrasco. Então essa população é criminalizada, se a gente na saúde não pensa esses fatores sociais, a gente revitimiza pessoas  que são as vítimas. E as  que deveriam se beneficiar da saúde pública, são criminalizadas. Um dos princípios fundamentais do SUS é a equidade, que prioriza as pessoas que estão em maior risco, então sequer o princípio do SUS de priorizar as pessoas mais vulneráveis, ​​foi atendido nesta pandemia. 

Saúde mental é todos os dias. O foco é a gente resolver esses problemas, que são problemas sociais, a precarização da vida. Falar em precarização da vida é falar sobre o sistema capitalista, sobre o racismo estrutural, sobre uma série de questões que nós pesquisadores, autores negros e negras já falamos há décadas 

P5: Como a saúde mental pode ser tratada de maneira responsável e assertiva e fora das campanhas do Setembro Amarelo?

Saúde mental é todos os dias. O foco é a gente resolver esses problemas, que são problemas sociais, a precarização da vida. Falar em precarização da vida é falar sobre o sistema capitalista, sobre o racismo estrutural, sobre uma série de questões que nós pesquisadores, autores negros e negras já falamos há décadas. Não existe novidade nisso, e  isso precisa ser resolvido. Isso resolvido, a gente precisa fortalecer a rede de atenção psicossocial, para que a população possa ser atendida gratuitamente. Além de investir na formação de profissionais de saúde que se racializem. Não há como a rede de atenção psicosocial não produzir racismo se as pessoas que trabalham lá continuam sendo majoritariamente profissionais de nível superior brancos, que impõe a sua plenitude e o racismo aos profissionais de nível médio e na sua maioria são negros, eu tô falando dos agentes comunitários ​​de saúde. 

Enquanto os jovens negros dentro de um carro continuarem a ser abatidos com 111 tiros, não haverá saúde mental possível para nós, pois estamos vendo assassinatos de pessoas semelhantes a nós. Enquanto nós não tivermos acesso à alimentação garantida, enquanto houver insegurança alimentar, não haverá saúde mental para a população negra

‘Ah Jeane, mas você tá falando de coisas muito gerais’. É, porque essas coisas são estruturantes, se a gente  não resolver isso, vamos  enxugar gelo. Eu posso falar pra vocês aqui vários métodos de atendimento à população negra, a gente já sabe mais ou menos o que fazer, a gente precisa garantir o atendimento, e o atendimento não é a consulta. Saúde mental, principalmente para a população negra, não é garantido a minha consulta, ou que tenha acesso a medicação apenas, isso é a base, mas não resolve. Enquanto os jovens negros dentro de um carro continuarem a ser abatidos com 111 tiros, não haverá saúde mental possível para nós, pois estamos vendo assassinatos de pessoas semelhantes a nós. Enquanto nós não tivermos acesso à alimentação garantida, enquanto houver insegurança alimentar, não haverá saúde mental para a população negra.