Por Patrícia Rosa
Símbolos religiosos carregam história, identidade e ancestralidade. Quando um deles é alterado sem autorização, o impacto vai além da mudança estética. Foi o que aconteceu com o Ilê Asé Ogum, localizado na cidade de Mata de São João (BA). A organização denuncia ter sido vítima de racismo religioso após receber camisas personalizadas com a arte do brasão do terreiro modificada por uma loja da Shopee. No lugar do nome do Ilê, foi colocada uma passagem bíblica.
Através da página Justiça por Ogum, o terreiro relatou que encomendou 30 camisas à loja Ado Confecções para serem utilizadas na Feijoada de Ogum, realizada no último domingo (28). O pagamento foi realizado dia 15 de junho. Segundo a comunidade religiosa, a empresa recebeu a arte gráfica pronta. O pedido foi aceito e aprovado pela empresa.
No último dia 26 de junho, os clientes receberam a encomenda e se surpreenderam ao ver que todas as camisas continham a passagem bíblica 1 Coríntios 9:24-27 no lugar do nome do Ilê.
“Isso não foi um erro de digitação, isso não foi um equívoco de produção. É uma discriminação dinâmica, racismo religioso”, declarou o terreiro através das redes sociais.
Marcus Ferreira, advogado e um dos filhos de santo do Ilê Asé Ogum, afirmou que a comunidade religiosa está em choque com o ocorrido. Segundo ele, o terreiro entrou em contato com a loja e com a Shopee em busca de respostas, mas não obteve retorno.
“Quero acreditar que foi um equívoco. Quero acreditar que isso não aconteceu intencionalmente com o Ilê Axé Ogum. Estamos empenhados em entender o que, de fato, aconteceu. Sabemos que todos podem errar. Mas, até o momento, não encontramos outra explicação que não seja um caso de racismo religioso.”
O terreiro está no aguardo de um posicionamento das empresas envolvidas para definir os próximos passos. A reportagem solicitou respostas às partes, até a publicação desta matéria, não houve resposta.
Dados reunidos pelo Disque Direitos Humanos (Disque 100), canal vinculado ao Ministério dos Direitos Humanos e da Cidadania (MDHC), indicam que, entre janeiro de 2025 e janeiro de 2026, foram registradas 2.774 denúncias relacionadas ao crime de racismo religioso.


