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1 em cada 4 meninas sente que a vida não vale a pena, aponta IBGE

Levantamento revela aumento do sofrimento psíquico entre adolescentes e expõe impactos de desigualdades de gênero e raça nas escolas brasileiras
Imagem: Freepik

Catiane Pereira*

A quinta edição da Pesquisa Nacional de Saúde do Escolar (PeNSE), divulgada pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), revela um cenário alarmante sobre a saúde mental de adolescentes no Brasil. Entre meninas de 13 a 17 anos, 25% afirmaram sentir que a vida “não vale a pena ser vivida”, o dobro do índice registrado entre meninos (12%). O dado evidencia uma geração marcada pelo sofrimento psíquico dentro das escolas e expõe desigualdades estruturais que impactam de forma mais intensa a juventude feminina.

O levantamento, realizado em parceria com os ministérios da Saúde e da Educação, ouviu estudantes das redes pública e privada e traçou um panorama sobre mais de 12,3 milhões de jovens no país. Entre os principais indicadores, 41% das meninas relataram tristeza frequente — índice quase 2,5 vezes maior que o dos meninos (16,7%). A pesquisa também mostra que 43,4% das adolescentes disseram ter sentido vontade de se machucar de propósito nos últimos 12 meses, enquanto entre os meninos o percentual é de 20,5%.

Os dados apontam ainda sentimentos recorrentes de desamparo e ansiedade. Cerca de 33% das meninas afirmam sentir que ninguém se preocupa com elas, enquanto 61% relatam preocupação excessiva com o cotidiano e 58,1% dizem conviver com irritabilidade ou mau humor frequente. Especialistas indicam que fatores sociais, culturais e estruturais, como a desigualdade de gênero, a sobrecarga de responsabilidades e as pressões sociais, ajudam a explicar o impacto mais intenso sobre as adolescentes.

A insatisfação com o próprio corpo também aparece como um dos principais fatores associados ao sofrimento psíquico. Segundo a pesquisa, 36,1% das meninas se declaram insatisfeitas ou muito insatisfeitas com a própria imagem, o dobro do registrado entre os meninos (18,2%). Entre elas, 31,7% afirmam tentar emagrecer, enquanto 21% se percebem como “gordas ou muito gordas”, muitas vezes com distorções na autoimagem. No caso de meninas negras, esse cenário é agravado pelo racismo, que atuam na desvalorização de características físicas e identitárias, aprofundando a rejeição ao próprio corpo.

Além da saúde mental e da autoimagem, a pesquisa evidencia maior exposição das meninas à violência. Cerca de 30,1% relataram episódios frequentes de bullying, e 15,2% afirmaram ter sofrido agressões virtuais. Em relação à violência sexual, 26% disseram ter sido vítimas de assédio, enquanto 11,7% relataram ter sido forçadas a manter relações sexuais. Os dados reforçam a vulnerabilidade das adolescentes em diferentes ambientes, incluindo o escolar.

A PeNSE também trouxe, pela primeira vez, dados sobre dignidade menstrual. Segundo o levantamento, 15% das estudantes deixaram de ir à escola ao menos um dia no último ano por não terem acesso a absorventes. Apesar da existência de políticas públicas voltadas à distribuição, barreiras de acesso e o tabu em torno do tema ainda dificultam a efetividade dessas ações, especialmente entre meninas em situação de vulnerabilidade social.

Mesmo com melhores índices de permanência e conclusão escolar, meninas seguem enfrentando desafios específicos, como gravidez não planejada, sobrecarga de tarefas domésticas e maior controle social sobre seus corpos e comportamentos. Para especialistas, os dados reforçam a necessidade de políticas públicas que integrem saúde mental, educação e enfrentamento às desigualdades de gênero e raça.

Sinais como isolamento, mudanças de comportamento e sofrimento emocional devem ser observados por famílias e escolas. O acolhimento sem julgamento e a criação de espaços de escuta são apontados como medidas fundamentais para prevenir o agravamento desses quadros em uma geração que cresce sob múltiplas pressões sociais.

*Com informações do Mundo Negro e G1

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