Por Jonas Pinheiro

Neste mesmo 12 de agosto, há 222 anos atrás, as ruas da Salvador provincial amanhecerem efervescidas com uma série de boletins manuscritos espalhados por pontos estratégicos. No total eram 11 boletins, que foram chamados de “sediciosos” pela Coroa Portuguesa, e convocavam os cidadãos a se rebelar contra o império e fundar a “Republica Bahinense”. No conteúdo dos manuscritos pedia-se abertamente por liberdade e igualdade, convocando os homens a insurgir-se contra o a escravização, exigindo o fim da discriminação social e racial. Numa época em que poucos eram alfabetizados e a imprensa era proibida pela Metrópole portuguesa, os boletins afixados em lugares estratégicos permitiu que as mensagens se propagassem entre aqueles não letrados através do boca a boca.

Os principais líderes da insurreição, Luís Gonzaga das Virgens, Lucas Dantas do Amorim Torres, Manuel Faustino dos Santos Lira e João de Deus do Nascimento, todos negros, foram presos, enforcados e esquartejados, tendo parte de seus corpos espalhados pelas ruas de Salvador.  O movimento ficou conhecido como Revolta dos Búzios (ou ainda Revolta dos Alfaiates ou Revolta das Argolinhas). Os nomes derivam das maneiras que os insurgentes utilizavam para se identificar, e das características dos que participaram. Eles utilizavam búzios em pulseiras e argolas para se reconhecerem entre si, sendo a denominação Alfaiate devido à função que muitos dos participantes exerciam.

A Revolta dos Búzios é um marco para a comunicação brasileira, tendo em vista que foi através dos boletins sediciosos que um grupo de pessoas negras se organizou para contrapor as mazelas sofridas pela população oriundas da África. É o pontapé inicial do que viria a ser a imprensa negra brasileira, e os ecos e legados de Búzios ecoam até hoje nesta mídia negra que você está lendo agora, e em tantas outras espalhadas pelo país.

Pensando nisto, e na importância deste mês para a história da população negra brasileira, a Afirmativa lança a partir de hoje  a série Ecos dos Manuscritos de Búzios – 1798. Divulgaremos ao longo do mês uma série de artigos (que poderiam ser boletins sediciosos noutros tempos) sobre as mídias negras brasileiras, publicados originalmente no Mapeamento da Mídia Negra no Brasil realizado pelo Fórum Permanente pela Igualdade Racial (Fopir).

Confira o BOLETIM 1 – Comunicação e luta contra o racismo no Brasil: dos Pasquins às Mídias Negras